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O demônio ri

Foi a partir do século XI que ele ganhou formas grotescas com caudas, orelhas grandes, chifres e asas com predominância do vermelho. Valia qualquer aberração e somente uma regra: deveria ser feio. A serpente que induz ao pecado, ou metade bode metade humano (como o deus grego Pã), ou a galinha preta em despacho na encruzilhada para Exu, ou asas de morcego, ou gato preto acompanhando a feitiçaria.
Na história humana há relato de eventos em que um povo demoniza outro para parece melhor aos olhos de quem os observa. Demônio (ou daimon) significa força, impulso – e passou a ser identificado como força negativa. A civilização em contraposição à barbárie. Uma raça autodenomina-se superior taxando outra de inferior e passível de extermínio. Demônios em oposição a deuses.
O bem e o mal em luta constante no território dos discursos que alimentaram o medo em civilizações inteiras. O que é belo? O que é feio? O que é moralmente aceito? O que é condenado? Sagrado ou Profano. Perguntas que levam a humanidade sempre a uma escolha binária: ou isso ou aquilo.
Parte dessa história aqui narrada com pressa nós conhecemos por meio da arte e as representações do demônio nos séculos que passaram. A iconografia deixou registros sobre as maneiras utilizadas por religiões na construção de um forte imaginário sobre céu/inferno, bem/mal, deus/demônio.
Curiosamente, a arte passa em nosso país por um processo de exclusão e demonização que afeta os que a produzem. Recentemente acompanhamos exposições e entidades fechando portas, artistas presos ou acusados, mídia relacionando artistas com bon vivant que “mama nas tetas” das leis de apoio à cultura.
O Brasil do século XXI colocou a arte em um lugar muito distinto daquele em que ela ocupou até então e – relegando-a à marginalidade – assistimos cancelamento de editais de incentivo, redução de verbas às entidades com papel significativo, fechamento da pasta ministerial dinamizadora das ações culturais no país. Exemplos de caça aos produtores de arte e julgamento moral de trabalhos expostos.
Reunimos forças no dia 16 de abril de 2019 na ALESC para reconstruir a paisagem cinza posta pelos governos atuais. Na audiência pública sentimos a força de 200 artistas representando entidades de Santa Catarina inteira. No plenário chamaram atenção sobre as enfadonhas desculpas governamentais que falam em corte de verbas, retirada de editais e fechamento de instituições públicas que trabalham pela arte.
A arte nos faz ver o mundo com diferença. O discurso que demoniza o artista quer um mundo homogêneo. Sigamos denunciando porque a paisagem sempre fica em cores quando o horizonte é tomado por quem cria. Alimentemos as diferenças.
Incrível essa capacidade humana em repetir os erros do passado.
Fica a dica:
Livros de ECO, Umberto. História da Feiura e História da Beleza. Editora Record.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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