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Cheiro de café

Um cheiro pode te levar para lugares antes visitados ou trazer pessoas que gostamos para perto. Cheiro de café passado em saco de pano me leva para lugares acolhedores com cristaleiras cheias de copos longos que cantam quando caminhamos no chão de madeira. O cheiro de café passado chega até nosso olfato e embala, dá aconchego e agrada tanto que nos sentimos protegidos e em um espaço familiar. (Um segredinho: não tomo café, mas o aroma, ahhhh!).
Café tem cheiro de ternura que transcende as barreiras do tempo intensificando nossos sentidos. Ele transforma o ambiente, faz a vida ficar mais leve, deixa um gostinho sutil da delicadeza da vida. Procuramos aconchegos que alimentam a alma e regozijam o corpo.
Por que essa lembrança hoje? A vida é fluxo e mudanças chegam sem aviso redirecionando pensamentos, mudando ambientes e somos levados ao estranhamento diante do que nos rodeia. Percebemos que algo não cabe mais ali onde sempre esteve. Difícil demais acostumar com mudanças de percursos, certo?
Temos caminhos distintos que são somas de tempos e, que afinal, dizem sobre quem somos no presente. Caminhos que, pouco a pouco, constituem nossa subjetividade – e muitas vezes vira comodidade. Esse tema é um dos mais recorrentes em livros de autoajuda e, porque não dizer, um clichê já falado em palestras com grandes públicos ou em mesas de bar. Aconchegos e mudanças são uma constante.
Abandonar códigos, lugares, recomeçar deixando aconchegos ou zonas de conforto compõem o argumento do filme que indico abaixo. Duas mulheres abandonam seus caminhos e encontram-se num lugar árido e com poucos resquícios de vida. Uma de origem germânica e outra negra. Caminhos distintos que se encontram para o recomeço constante. O filme vale pela constância da abordagem totalmente humana em um lugar inóspito e sem perspectiva de vida. Sem dúvida uma lição extraordinária para a vida.
E o cheio de café falado no começo? Às vezes a vida precisa de pequenas alegrias que acolham nossos medos, frustrações e incertezas. Cheiro de café, banho de chuva, pés na grama molhada, enfiar a mão no saco com feijão, rir até doer a barriga, lamber dedos sujos de doce são pequenas alegrias que existem para não morrermos de tédio.
Cultivemos a simplicidade. É nela – e tão somente nela – que temos fonte de energias para as sobrevivermos às turbulências. Respire fundo, tome um café, dê os primeiros passos, faça seu próprio caminho permitindo que as surpresas da vida provoquem mudanças.
Sim, a vida precisa de desafios, senão fica sem graça.
Curta o caminho cheio de pequenas alegrias assim como o cheiro do café no ambiente. Inspire.

FICA A DICA:
Filme: Bagdá Café (1987. Direção: Percy Adlon)

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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