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Ação entre amigos

Com todo o respeito, os senhores conselheiros da Petrobras têm, sim, responsabilidade na compra da refinaria de Pasadena, Califórnia.
Em dado momento, aterrisou na mesa do conselho da estatal a proposta de compra de 50% da refinaria. O valor do negócio estava claro: U$ 360 milhões de dólares. Ora, este não é um valor para ser tratado como se fosse a compra de uma broca de perfuração. É uma montanha de dinheiro em qualquer lugar do mundo.
Não consta que, na malfadada reunião do conselho, tenha havido um debate sobre a transação, o valor e as variáveis que estavam atreladas ao negócio. A impressão que fica, de tudo o que se sabe, é que a operação foi aprovada pacificamente, uma ação entre amigos, com base em relatório que mencionava as conveniências da compra, as vantagens estratégicas da operação, e claro, o valor a ser pago.
Nenhum dos conselheiros levantou questão mais aguda. Ninguém fez maiores perguntas. A sinopse elaborada pela diretoria da Petrobras, com José Sérgio Gabrielli à frente, foi apresentada. Deve ter se seguido uma breve explicação – o resumo do resumo – , todos se deram por satisfeitos e a transação foi aprovada por unanimidade. Se eu fosse dado a inventivas, diria que o clima da reunião estava mais para uma “happy hour” do que para uma reunião de conselho da maior empresa estatal brasileira.
Quero afirmar com clareza: os senhores e ilustres conselheiros, dentre os quais estavam empresários e experimentados gestores, se conduziram de forma descuidada em assunto de tal envergadura, desatentos aos superiores interesses da companhia e do país.
A Petrobras estava comprando 50% da refinaria de Pasadena pela bagatela de U$ 360 milhões de dólares, e nenhum conselheiro quis saber como se tomariam as decisões no caso de divergência entre as partes? A quem pertenceria o voto de minerva, a palavra final em caso de impasse? Nenhum deles, do alto de sua fama e conceito, quis saber o que aconteceria, se a sociedade desse errado, se as partes entrassem em litígio por qualquer razão?
Um calouro de administração levantaria essas questões. Mas parece que todos os ilustres participantes da reunião estavam em jornada de pouca inspiração. Se tivessem tempo ou curiosidade de saber, ficaria à vista a indigitada cláusula “put option”, a razão principal do calamitoso negócio. O mesmo calouro – desde que em estado de vigília – certamente perguntaria se, no impasse previsto, da “put option”, quem compraria a parte de quem. Por que foi a Petrobras a comprar a parte da Astra Oil, do espertalhão belga, e não o inverso?
Os senhores conselheiros e (of course!) as senhoras conselheiras se conduziram de forma imprudente, para não dizer venal. Nem mesmo em reunião de burocratas de segundo escalão as deliberações são tomadas de forma tão displicente.
Nesse rolo todo, alguém precisa pedir ao ex-presidente Lula que pare com esses apelos de defender a Petrobras com unhas e dentes. Se continuarem a fazê-lo do seu jeito e modo, vão levar a companhia à bancarrota.

titoguarniere@terra.com.br

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