(Excerto do livro “No tempo da Ana Bugra”, publicado em 2016)
Quando o meu pai e o seu sócio desfizeram os negócios, na Praia de Camboriú, ele logo veio para Blumenau para recomeçar a trabalhar no velho emprego e arranjar casa para nós, e a minha mãe com suas crianças moramos algum tempo na Vila Real, Camboriú, na casa da dona Lavínia, antiga cozinheira do nosso restaurante. Penso agora que nunca soube o sobrenome da dona Lavínia, embora tivesse continuado a visitá-la pela vida afora, até muito próximo da sua morte, e me lembrar dela como alguém que fazia comidas deliciosíssimas, como uma carne assada de panela que comi na casa dela muito pouco antes de ela vir a falecer. Maga da cozinha, dona Lavínia também ficou na minha memória como uma mulher de grande coragem, por dois motivos: um deles era a falta de respeito que ela tinha para com as religiões africanas que existem no Brasil: viúva, com diversos filhos para criar, enquanto caminhava, de manhã cedo, pela Praia de Camboriú, para vir trabalhar, encontrava belas oferendas feitas aos orixás africanos, e não tinha a menor dúvida: ensacava as galinhas assadas ou outros quitutes que houvessem sido deixados nos lugares das cerimônias noturnas, e sem nenhum constrangimento levava aquelas iguarias para os jantares com os seus filhos.
A outra coisa que me suscitava admiração era a sua coragem diante das águas. Enquanto estivemos morando na casa dela, ela resolveu fazer uma cerca nova, e para tal precisava de bambus novos, muitas canoas cheias de bons bambus novos. Então, nas manhãs, munida de um facão, ela entrava numa canoa ancorada no rio próximo, e remava para algum lugar remoto onde havia grandes bambuais à beira do rio. Voltava nas tardes com a canoa chapada de feixes de bambu, e depois que houve bambus suficientes, ela refez toda a cerca em torno da sua propriedade, uma coisa que me impressionou deveras.
Nesse tempo em que moramos na casa da dona Lavínia, o meu pai vinha nos ver nos seus dias de folga, e era uma alegria muito grande escutar a sua chegada, vê-lo de novo com a gente! Estava difícil conseguir uma casa – essas coisas de falta de moradias no terceiro mundo, pelo jeito, são endêmicas. Então um dia ele veio dizendo que o nosso tio Júlio Klueger estava nos cedendo para morar a antiga casa do seu boleeiro. Tio Júlio, dono de vistosa parelha de cavalos, que lembro, marrons, tinha um “carro de mola na praça”, o que equivale a dizer que tinha um antepassado de um táxi puxado a cavalo, e assim como os táxis de hoje precisam de motoristas, os carros de mola precisavam de boleeiros para guiá-los. Então, num certo pedaço de terra do tio Júlio, havia uma casinha onde tradicionalmente morava um boleeiro dele com sua família. Penso, agora, que aquela casinha estava vazia porque tio Júlio deixara de ter o carro “na praça”, mas não tenho certeza. Também não sei quem foi o último boleeiro que ocupou aquela casa – mas tenho lembrança de um boleeiro anterior, chamado Gino, que fazia coisas insólitas para a nossa cabeça tacanha, como ir dormir na grama dos pastos circundantes nas noites de grande calor.
(Escrito em julho de 2010, época de grande frio).

Faz ano e meio que ele está engasgado aqui no meu peito e na minha garganta – não há como não deixá-lo sair.
Era tempo da Feira do Livro de Porto Alegre e eu fora até lá movida pela curiosidade, pela saudade, e também porque ia autografar algum livro que já não lembro qual seja.
A curiosidade é fácil explicar: há quase três décadas ouvindo falar daquela feira, sem ir lá… Já a saudade sempre é uma coisa mais complexa: descobrira Porto Alegre por causa dos Fóruns Sociais Mundiais, naquele deleitoso tempo em que para lá ia com o coração explodindo no peito e a força da esperança e do sonho era como uma contínua queima dos mais coloridos fogos de artifício… Já voltara a Porto Alegre depois dos Fóruns e já me dera conta de que não era bem assim, e agora era a Feira do Livro, e fosse como fosse, árvores loucamente floridas de azul explodiam por sobre a Praça da Alfândega e encontrei lá meu amigo escritor Luiz Carlos Amorim, e juntos caminhamos pela Rua dos Andradas até o Gasômetro, eu contando a ele do Passarinho que carregava no peito, e depois fomos vasculhar de novo o Hotel Majestic e aquele Poeta que um dia lá viveu e deixou-o encantado para sempre, o inigualavelmente e majestosamente simples Quintana, pois não há como a gente se cansar de vasculhar sempre de novo o Hotel Majestic à procura de mais um detalhe de Quintana…
Tinha ido lá para três ou quatro dias, já não lembro, e em algum momento era tempo de pensar em começar a voltar. Já vagara por tudo ali; já tivera minha tarde de autógrafos; já comprara os lindos livros infantis que daria de presente no Natal e os balagandãs que uso até hoje – era tempo de tomar o rumo da rodoviária e comprar a passagem de volta.
Eu não sei explicar muito bem essa coisa de trens de Porto Alegre – sei que eles existem e que a gente vai a diversos lugares próximos e distantes com eles. A rodoviária era um dos lugares próximos, e num instante eu tinha resolvido o meu assunto e já me dirigia ao trem de volta. Era um trem subterrâneo, mas lá a gente não chama de metrô, embora tenha que descer ampla escada para chegar à estação. E ali estava o menino.
Que idade teria aquela criança? Onze, doze, treze? A vida de abandono e de fome deixava pouca margem para adivinhações, e os andrajos e a sujeira que o cobriam pioravam a avaliação. Calculei: no mínimo um ano sem tomar banho ou trocar de roupa, mas isso não era nada diante dos olhos surrados e amedrontados daquela criança que fico imaginando como conseguira sobreviver até ali e que agora penso se ainda vive. Talvez, ao invés de onze, aqueles farrapos encobrissem um menino de quinze anos, já pleno de hormônios que o mandavam perpetuar a espécie com urgência. Como brotara aquela criança ali no asfalto da cidade, e sobrevivera até eu poder conhecê-la? Quem tudo ajudara a surrá-lo para que ele tivesse nos olhos aquela expressão que eu agora via? Como é que as pessoas permitiam que o Capital produzisse meninos como aquele, com tamanha avidez de qualquer coisa que lhe permitisse mais uma semana, mais um dia, e ficassem indiferentes e até o escorraçassem monotonamente, como aquele ali era escorraçado, pois seus acuados olhos de bichinho do mato que a tudo vigiavam com cupidez e medo não lhe permitiam sequer descer a escada que levava à estação de trem, onde as pessoas tiravam dinheiro do bolso e recebiam moedas de troco, moedinhas que talvez fossem o elo possível entre aquele menino desesperado e a vida…
Nós nos olhamos e não sei o que ele leu nos meus olhos, mas eu pude ler a ansiedade, o medo e o desejo de vida nos olhinhos absurdamente acuados daquele quase bichinho produzido pelo asfalto e pelo Capitalismo, e senti vergonha de pertencer a Humanidade. Desci a escada enquanto ele ficou me espiando lá em cima, como quem espera – que, afinal, teria lido nos meus olhos? Comprei a passagem de trem e ganhei as moedas de troco, e então voltei correndo até o alto da escada e passei-as para as mãos ávidas daquele menino que lutava contra a fome de mais um dia, e ele as agarrou avidamente. Tinha que descer correndo de novo: o trem já ia partir, e o menino sequer poderia descer para abanar para mim, pois já tinham escorraçado-o tantas vezes que ele não se atrevia. E me fui, mas ele veio junto, e está aqui dentro do meu peito por todo este ano e meio, querendo pular para fora.
Sei que aquelas moedas não significavam nada, que ele precisava de banho, carinho, sopa quente, leite com chocolate, muito abraço, precisava tirar dos olhos aquele desespero da vida, e que por todas as grandes cidades deste meu terceiro mundo há meninos assim desesperados, um ano sem banho, lutando por mais um dia de vida – mas foi aquele menino de Porto Alegre quem entrou dentro de mim com esta força toda que ele tinha, pois nem sei se conseguiu continuar vivendo.
Ah! Menino, agora pulaste do meu coração para o meu colo – o que é que eu faço contigo?
Florianópolis, 08 de abril de 2009.

Está cheinho de boas almas com quem conversar hoje, pois a gente do Bem é grande, mas sinto que hoje devo conversar com a mãe, que tanto viu e tanto soube e tanto sentiu deste país, desde antes do tempo do Getúlio. Mas acho que a mãe ainda não sabe o que eu vou contar agora, e por isto é que achei que devia contar.
Trata-se daquele homem que está só, lá naquele apartamento, acompanhado de um filho e das tantas e tantas lembranças, o coração rasgado de dor pela segunda vez, vertendo o sangue vermelho da dor sem consolo, assim como aqui também o meu coração dói, pois é tão triste, mãe, tão triste…
Sabe, mãe, tinha sabido dela faz assim como uns dois anos, quem sabe três, e eram notícias tão lindas! Disseram-me de como ela estava bonita, magérrima, elegante, unhas bem feitas, estuante de vida, pronta para recomeçar tudo de novo na sua vida que era sempre um hino de amor e de justiça; aquele coraçãozão que ela tinha no peito a lhe ruborizar as faces de tanta energia, as mãos estendidas para ajudar, sempre – gente assim como ela, daquele naipe único, se a gente sabe uma vez cada dois ou três anos já é um privilégio, enche o coração da gente de beleza, reacende todas as esperanças… Ai, mãe, não consigo pensar que ela se foi assim, sufocada pela maldade, ela que só tinha o bom e o belo para espargir para quem se achegasse… A mãe soube que ela se foi, penso. Talvez vocês duas já tenham se encontrado por aí aonde estão agora, quem sabe a mãe já disse para ela da admiração que tinha pela trajetória dela, que a mãe sabia desde lá da infância dela…
Mas queria falar, agora, é daquele homem, o marido dela, sozinho com um filho lá naquele apartamento agora tão vazio, irremediavelmente vazio da alegria e da beleza que era ela, aquele apartamento tão intensamente cheio das lembranças dela que não sei como ele sobrevive ao rubro do sangramento do coração partido de dor…
Nunca pensamos numa coisa assim, né, mãe, nem naqueles maravilhosos momentos quando ela se torna a vedete da nossa esperança – a gente não podia imaginar… Nunca se imagina uma coisa assim, e o marido dela também não imaginou e foi pego de surpresa como toda a gente do Bem, e agora está lá naquele apartamento sangrando de dor muito mais que eu aqui… Recém soube que ele começa a reagir, a fazer ginástica de novo, pois ele não se pertence e tem que voltar a se preparar para a luta imensa que tem pela frente, porque ele é assim, homem de luta, e ela não esperaria outra coisa dele. Aí onde ela está, agora estrela, decerto a mãe acompanha como ela manda forças para ele, pois a mãe sempre acompanhou o que ela fazia… A gente está contando com a força dela somada à força dele, pois sem ele, o que será de nós, seres já com poucas forças, que nunca tinham tido a dimensão da tremenda perversidade que tomou conta deste país, e que só ficou clara naquela Noite dos Horrores, mãe, quando os deputados votaram para derrubar a presidenta – penso que a mãe há de ter se inteirado disso.
Então aquele homem está lá e começa a reagir fazendo ginástica, e ele é o centro da nossa esperança de sair do lodaçal. Mãe, se der, pergunta a ela como vai ser, pois ela agora pode ver mais longe e talvez saiba as coisas por antecipação. Eu tenho tanta pena dele assim sem ela, o coração partido sangrando tanto… Se a mãe puder dar uma passadinha lá e fazer qualquer coisa por ele, uma oração, talvez, eu vou ficar um pouco menos triste. Ele precisa de toda a nossa ajuda – a daqui e a daí – pois a perversidade que tem que enfrentar é tanta, que toda a ajuda se faz necessária. Como me dói o coração sabe-lo assim, mãe, como dói!
(Dedicado a Lula e à Dona Marisa Letícia)
Enseada de Brito, 10 de março de 2017.

Nesta semana fez quatro anos que ele partiu. Minha modesta homenagem, abaixo, àquele que representava, para mim, a Esperança.
(Para Hugo Chávez Frías)
Era dia de tomar o rumo do Brasil. Na boca da noite, dirigi-me à rodoviária de Ciudad Bolívar, onde tantas coisas tinham acontecido! Sentei-me a um banco com minha mochila e uma sacola xadrez cheia de livros daquele país maravilhoso, e logo um jovem casal me sorriu com a simpatia tão própria das gentes da Venezuela.
Ambos, mais um filhinho muito lindo, eram assim como eu tinha me acostumado a ver a gente de lá: morenos, talvez mestiços, naquela tão fácil mestiçagem altamente democrática que aconteceu na Venezuela ao longo da sua história. Chamava a atenção os luzidios cabelos negros escorridos da mulher, cuidadosamente presos num rabo de cavalo. Ela estava pela metade de uma gravidez, penso, e usava um lindo vestido de laise creme – o conjunto dela, do marido e do filhinho era muito bonito; lembrava gente simples, próspera e culta, talvez agricultores, mas haveria agricultores naquela terra tão fértil por onde viajei de ônibus durante toda a claridade de um dia, sem ver uma roça, uma vaca? Haveria agricultores num país onde poderia faltar o leite para o café da manhã, caso o avião dos ão chegasse a tempo? Até a alface vinha dos EUA, de avião…
Num instante estávamos conversando. Já se passaram mais de sete anos, não recordo mais dos seus nomes, mas eles eram índios. Estava encantada com eles, queria saber de onde eram.
– Depois de Santa Helena do Uairén, viajamos mais quatro horas até chegar à nossa tribo.
Céus, isso era muito longe! Santa Helena de Uairén era a cidadezinha quase na fronteira do Brasil, pequenina, quase que um posto avançado da Venezuela – quatro horas de viagem dali em diante era longe mesmo!
– Eu estou fazendo a Faculdade de Multiculturalismo – explicou-me o homem – Agora, lá na nossa tribo, a gente pode fazer faculdade. Agora se estuda em todos os lugares – ele sorriu, compreensivo, pois decerto eu fizera alguma cara de espanto:
– Assim que a minha mulher tiver o bebê, ela também vai estudar Multiculturalismo!
Naquele momento, todos estudavam na Venezuela – quem fora analfabeto andava entrando no ensino secundário; quem já fizera o primário estava a chegar nas universidades. Os investimentos em saúde e educação eram impressionantes – só não imaginava que os índios quatro horas depois de Santa Helena de Uairén estavam a estudar Multiculturalismo, tão importante curso num país tão mestiço quanto aquele!
– E antes, como era? – eu queria saber tudo.
– Antes do Comandante, éramos índios abandonados. Se não fosse o Comandante…
Viajamos por toda a noite no mesmo ônibus, e de manhãzinha chegamos à Santa Helena. Mais 15 km e eu estaria no Brasil – mais quatro horas e meus amigos estariam na tribo onde se estudava Multiculturalismo. Despedi-me daquela família cheia de dignidade que um dia se limitara a sofrer as humilhações que sofrem a maioria dos pobres e que agora se instruía lá na sua terra de uma forma que nunca sonhara.
Comandante Hugo Chávez, obrigada por mais aquela belíssima surpresa dentre tantas outras naquelas semanas de Venezuela! Nunca mais ninguém poderá pisar naquele homem que morava a quatro horas de Santa Helena de Uairén, agora que ele está armado com as fascinantes armas do Conhecimento! Ah! Comandante, Comandante, por que te foste tão cedo?
Choro.

Homenageando a saída do maravilhoso livro “O meu lugar”, de Adair Dittrich, volto a compartilhar a crônica abaixo. (Para Dra. Adair Dittrich, de Canoinhas/Brasil)
Muitas e muitas cidades não têm uma grande dama – há muitas que sequer sonham com o que pode ser isto, e eu acho que fica bastante difícil de explicar em palavras comuns o que é ser uma grande dama – grande dama é aquela pessoa que não precisa dizer nada nem fazer nada para sê-la – grande dama é alguém perceptível diretamente pelos olhos do coração, e as palavras são coisas bobas diante delas.
Então no ano que passou fui à cidade de Canoinhas/SC, lá no extremo norte do Estado, e lá estava aquela mulher inigualável a me atender. A princípio ela parecia normal, uma mulher da minha idade, médica, educada e delicada quanto tantas, cuidando para dirigir muito devagar para evitar que eu enjoasse no caminho do que queria me mostrar, conversando agradavelmente, inteligentemente, mas até aí tudo parecia normal. Levou-me ao seu lugar, onde nascera e crescera, à localidade de Marcílio Dias, e lá mostrou-me muitas coisas: a casa onde se criara (há uma sobrinha dela ainda morando lá na casa vetusta, de madeira, onde juro que deve haver fantasmas escondidos sob as escadarias e entre as paredes duplas e, portanto, pudemos entrar e conhecer a casa); as diversas outras casas de formatos e construções únicas da região, o leito da antiga estrada de ferro, a velha estação, ao lado da casa de moradia e de comércio da sua nona [1], que tantas coisas na vida ensinara à menina Adair, enquanto atendia autoridades que o trem trazia até ali, sendo a mais ilustre o presidente Getúlio Vargas; contou-me muitas coisas da Guerra do Contestado e da Madeireira Lumber, uma desgraça que aconteceu ao Brasil lá no começo do século XX, com seu Ogro chamado Paschaol Farquhar.
Canoinhas ainda é uma cidade bastante pequena, mas Dra. Adair havia decidido me dar um city-tour, e em seguida lá fomos nós para a Cervejaria Canoinhense, onde o inigualável cervejeiro Rupprecht Loeffler [2] produz cerveja e gasosa há mais de 80 anos, ele pessoalmente. Acabei ganhando uma coleção de cervejas e comprando uma coleção de gasosas, das vermelhas e das brancas, as inigualáveis gengibiras que degustaria depois, em casa. Doutora Adair contou prazerosamente como seus pais compravam, nas festas de final de ano, engradados inteiros daquelas gasosas, e como os irmãos e primos dela (decerto ela também) aproveitavam para esconder muitas garrafas nos mais inacessíveis esconderijos da casa, para que sobrassem para depois – sobravam para o ano inteiro; era um nunca acabar de se achar gasosas por todo o ano dentro daquelas paredes duplas onde agora, com certeza, devem morar muitos fantasmas!
E nos dias em que fiquei lá (não só em Canoinhas, como também em Três Barras e Bela Vista do Toldo) fazendo palestras nas escolas cujos alunos haviam lido os meus livros e também participando de uma noite de autógrafos na Livraria Santa Cruz, Dra. Adair esteve todo o tempo a me acompanhar, sem contar as duas vezes em que me convidou para almoçar na sua casa. Então, aos poucos eu fui conhecendo, desvendando seus mistérios de grande dama e outros, e um pouquinho da sua biografia. Ela era médica desde os 25 anos, e já completou seus 50 anos de medicina há algum tempo atrás, o que significa que… céus, mas aquela mulher linda que parece ter a minha idade não tem a minha idade? Não, acabei por saber – aquela mulher linda e tão jovem já passava dos 75 anos! Como fez ela para se manter assim cheia de vigor, de beleza e de juventude? Penso que por conta do muito trabalho da sua vida, e de ter escolhido fazer exatamente o que gostava de fazer – mas também por ter seguido seu coração e suas convicções sem se dar trégua, e ter vivido de acordo com eles sem esmorecer. Fiquei a admirá-la silenciosamente quando, numa reunião pública onde estávamos, ouvi sua indagação para a qual ainda não se tem resposta:
– Então que faço com os vinte anos que a ditadura me roubou? Faço de conta que eles não existiram, e digo que agora só tenho 50 e tantos anos?
Grande Dra. Adair, que não permitiu que se lhe arrancassem os sonhos e ideais da juventude! Continua convivendo com eles com a mesma intimidade com que sempre viveu – nunca deixou de acreditar nas suas crenças, nunca deixou de levar muito a sério o que acha que é justo! Seria este o segredo que a tornou uma grande dama?
É bem possível e provável que sim. É, pelo menos, um dos fatores. Dra. Adair nunca transigiu, nunca deixou de perseguir os seus ideais, fossem eles os de mitigar o sofrimento alheio ou de sonhar com um mundo melhor. Nunca prestou atenção, ela, aos arautos da Apocalipse que ficaram anunciando a chegada do desânimo, a ruína dos sonhos, o fim dos tempos da esperança – única e perfeita, ficou na sua pequena cidade defendendo que o tempo de sonhar nunca se acaba, e então se tornou grande, a grande dama de lá!
Querida Dra. Adair, a grande dama de Canoinhas, que bom que foi ter tido o privilégio de conhecê-la!

Às vezes, pessoas jovens com quem convivo me perguntam se eu fui hippie. Eu fico me questionando: fui? Não fui? Bem, eu não botei a mochila nas costas e fui para as estradas, como os hippies faziam, nem sentei em praças a fazer artesanato, nem vivi em fazendas comunitárias – na verdade, em todo o tempo em que as coisas estavam acontecendo, eu continuei a levar uma vida de pequena burguesa, em Blumenau, primeiro estudando, depois trabalhando e estudando, e sei que o meu pai jamais deixaria que eu botasse a mochila nas costas e saísse pelo mundo.
Por outro lado, eu estava ligadíssima em tudo o que acontecia: era adolescente quando chegaram as primeiras notícias sobre o movimento hippie, e quase fiquei adulta antes que ele terminasse. Minhas antenas estavam todas voltadas para aqueles jovens que estavam botando em xeque todos os valores pré-estabelecidos, que estavam derrubando tabus e preconceitos, e tudo o que eu queria na vida era ser como eles. Na verdade, absorvi ao máximo a filosofia hippie, e quando me perguntam se fui hippie ou não, acabo pensando cá comigo: “De uma certa forma, eu sou hippie até hoje!”
Daí, um dia, logo depois de 1970, o movimento hippie chegou em Blumenau. Os hippies tinham rotas pré-estabelecidas: do Rio desciam para a Ilha do Mel/PR, e de lá a Florianópolis, e de lá enveredavam para o Rio Grande do Sul e a Argentina, e depois iam conhecer mais coisas na América do Sul, e acabavam voltando ao Brasil via Bolívia. Em algum momento, no começo da década de 70, eles colocaram Blumenau nessa rota, e foi lindo!
Eles chegavam sem pressa a Blumenau, e hospedavam-se num hotelzinho da rua Ângelo Dias chamado Hotel Braz, e passavam os dias na escadaria da Igreja Matriz, fazendo os mais diferentes tipos de artesanato, e tocando violão, e compondo poemas, e filosofando e se curtindo, e eu daria um braço para poder ficar lá com eles – só que, pequena burguesa que era, tinha que ir trabalhar.
Nos finais de tarde, porém, parava diante da escadaria da igreja, e ficava de papo com eles. Surgiram amizades daí, e os hippies começaram a ir lá em casa jantar. Meus pais tinham se mudado para a praia, e eu e minha irmã Margaret morávamos num “apertamento” na rua XV de Novembro 1398, a principal de Blumenau. Com certeza, se morássemos, ainda, com nossos pais, as coisas teriam sido diferentes – mas em pleno movimento hippie blumenauense, Margaret e eu estávamos morando sozinhas – uma maravilha!
Nosso “apertamento” virou ponto de jantar de muitos hippies – porque eles estavam sempre indo ou chegando de algum outro lugar, e as amizades não duravam muito tempo. Estávamos, naquele tempo, num período de baixíssima inflação, e tínhamos bons salários, o que resultava em esmerados jantares feitos de camarão e outras coisas boas.
Nossos amigos andavam sempre meio esfomeados, e era um prazer cozinhar para eles. Nós entrávamos com a comida, e eles entravam com as histórias, e quantas histórias tinham para contar! A maioria deles tinha viajado muito, e contavam para nós as coisas do Brasil e da América, e alguns tinham viajado inclusive pela Europa, e era um nunca acabar de contar coisas. Discutíamos música e coisas filosóficas, falávamos mal da guerra do Vietnã e dos preconceitos da sociedade – eram noites estimulantíssimas!
Naquele tempo, porém, se dormia cedo. Meia noite era uma hora tardia, e era por essa hora que eu anunciava:
– Gente, hora de dormir! – e nossos amigos se despediam e iam escada abaixo, mas quantas coisas e quantas experiências nos deixavam! Quantas coisas, na minha vida de hoje, ainda são influenciadas por aqueles papos e por aquele tempo! Eram doces amigos que foram educados e gentis, sequer alguma vez acenderam um baseado na nossa cozinha. E como os mais velhos falavam mal deles! Acho que fui uma felizarda pelo contacto com eles. E afirmo, hoje, com orgulho, que o movimento hippie passou pela minha cozinha!
Blumenau, 2 de abril de 1998.

Quando eu era pequena, havia aquela estrela no céu, assim, de tardinha, sozinha e luminosa, e aprendi cedo que se tratava da Estrela Vésper, ou da Estrela d’Alva, e desse nome eu gostava mais, pois tinha até uma música homenageando aquele astro mágico, que vinha antes da noite, e que diziam que, de manhãzinha cedo, quando todas as outras estrelas iam embora, ela continuava lá, firme, como nenhuma outra.
Pensei muito nela, hoje, nessa estrela que aparecia dentre morros de verdura e umidade, quando era criança com tempo para prestar atenção a tudo, principalmente quando se tratava de astros. Ao longo da vida o tempo foi encurtando e os horizontes estreitos da minha cidade de morros foram fazendo com que eu prestasse menos atenção na Estrela d’Alva, até que hoje, bem no dia de hoje, lembrei tanto, de novo, daquela estrela que tinha até música, e saí para a amplidão da minha Enseada para verificar se ela continuava lá no mesmo lugar, chegando antes da noite, encantando o mundo com sua presença luminosa em plena tarde, e foi aí que veio a surpresa: a Estrela d’Alva já não está sozinha!
Incrivelmente, agora lá no horizonte, no final da tarde, são duas as estrelas. Julguei entender o que acontecia: aquela um pouco menor, se bem que tão cheia de luz, era a mesma Estrela d’Alva que via dentre os morros verde-escuros da minha infância – mas, e a outra? Muito mais luminosa, maior, irradiando uma luz que tanto era vermelha, quanto terna, quanto doce, lá estava a nova estrela, e não ficava dúvida sobre de onde vinha: era a estrela chamada Marisa Letícia que hoje tomou o rumo do céu, que agora sempre vai estar por lá cuidando do que se passa com esta humanidade que consegue ser tão vil, às vezes, que a gente nem entende como o universo a suporta.
Bom demais saber que Dona Marisa está lá, agora, livre e solta, sem mais sofrimentos, acima de qualquer opressão ou maldade que queiram lhe fazer, como aquela dos pedalinhos para os netinhos – ô gente nojenta que há sob o sol, gente podre, capaz de fazer maldades desse tipo – se bem que ela também viveu coisas muito grandiosas, como receber chefes de Estado na sua cozinha de gente humilde para comer o seu arroz com feijão e bife, e lembro de Fidel Castro, vindo do continente africano e dando uma paradinha na casa de dona Marisa, e quando os repórteres insistiram para que viesse até à porta e dissesse alguma coisa, ele declarou, sumamente satisfeito: “Que delícia essa comida proletária!”. Comidinha feita por dona Marisa, a querida, agora Estrela.
Sou pobre de palavras quando se trata de falar de dona Marisa, e então vou me apropriar do que disse hoje o professor Dr. Jaci Rocha Gonçalves, dentre outras coisas teólogo e antropólogo, a respeito dessa mulher que tão luminosa foi que acabou virando estrela: “Uma trajetória de luta, de sabedoria silenciosa, de coerência e firmeza com os valores que contam. O maior deles: cuidar, como mãe, dos excluídos. A história reconhecerá no tempo oportuno em que toda a verdade virá à tona.”
O amor que eu tinha por ela era de tal monta que passei a maior parte do dia de hoje chorando dolorosamente – só comecei a me conformar quando a tarde foi para o fim e a vi, luminosa e encantadora, lá no céu, assim como tinha sido aqui na terra.
Aumenta, hoje, a minha galeria de perdas irreparáveis, mas nasceu uma nova estrela! Querida dona Marisa, a gente ainda vai se encontrar!

(Enseada de Brito, 2 de fevereiro de 2017).

Eu lembro muito bem: era fevereiro, e eu estava adolescendo naquele tempo mágico em que amávamos os Beatles e os Rolling Stones. Meu pai tinha um restaurante lá na Praia Grande do Itapocoroy, mas eu nunca morei lá: ficava em Blumenau durante os meses de aula, e ia para a praia nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e julho.
Estar adolescendo naquele tempo mágico em que o mundo fervilhava com uma coisa totalmente nova chamada Movimento Hippie, e ir passar as férias num lugar privilegiado como a Praia Grande do Itapocoroy era mais que passar manteiga em focinho de gato. Se gato fosse, com certeza lamber-me-ia toda de tanta beleza, de tanto encantamento, de tanto mistério que havia naquele canto onde morávamos, e na vizinha praia de Armação do Itapocoroy. Eu e minha irmã Margaret tínhamos nossas obrigações, em tempo de férias, como ajudar nossos pais em coisas do restaurante (havia manhãs em que eu descascava um saco inteirinho de batatas!) e outras coisas assim, mas, nas tardes, baldes de plástico em punho, éramos encarregadas de ir até a vizinha Armação buscar camarão fresco. O plástico ainda era uma coisa um tanto nova no nosso mundo, e os baldes coloridos tinham seu charme, e lá íamos nós, vencendo a branda elevação que separava uma praia da outra, e que, na direção da Praia Grande, era forrada de uma vegetação baixa, pois o vento Sul, quando batia, cortava qualquer coisa mais alta que quisesse se criar por ali. E na Armação, deixávamos nossos baldes coloridos nas salgas (para quem não sabe, salga é o lugar onde se descasca o camarão), e caíamos na água, por muitas horas, até de tardinha, quando o camarão pescado pela manhã já estivesse descascado e os nossos dedos estivessem roxos e murchos de tanto ficar na água.
Tínhamos uma turminha de tomar banho, naquelas tardes, e lembro agora do Nel do seu Biéli, do Sérgio Pequeninho (que era um grandão, apesar dos seus 12 anos, que ele mentia dizendo serem 14), e outras crianças e adolescentes dos quais já não sei mais o nome. Brincávamos muito na água, naquelas tardes de férias, e mergulhávamos, e quando percebemos, estávamos todos nadando, sem que ninguém tivesse nos ensinado.
Há milhares de coisas para contar daquele tempo encantado em que o mundo se movia entre as amarguras de uma guerra do Vietnã e a mensagem de Paz e Amor dos meigos hippies que nos encantavam. Uma, porém, está muito forte dentro de mim nesse fevereiro: era o florescimento de todas as ervas, arbustos e capins da Praia Grande a cada vez que fevereiro chegava.
Era muito lindo! Já disse que havia uma suave subida da Praia Grande, que descia em Armação, e que ali o vento Sul não deixava se criar nenhuma planta grande. Tudo era forrado, porém, de capins, matinhos e pequenos arbustos, que pareciam enlouquecer em fevereiro! Todos aqueles seres vegetais explodiam em flores e florinhas brancas e prateadas, desde o mais avantajado arbusto até o mais humilde fiapo de capim, que criava toda uma espiga cheia de florzinhas brancas grávidas de finas sementes, e tudo ficava tão branco e prateado que se tinha a ilusão que, em fevereiro, nevava na Praia Grande. Eu primeiro olhava, depois andava no meio daquela loucura da natureza, tão grávida de beleza quanto as plantas estavam grávidas de sementes, e já de noitinha, quando o sol se punha lá no fundo daquele aclive nevado, e deixava o céu com todos os matizes do vermelho, eu olhava pela janela da nossa cozinha e nem conseguia acreditar que tanta beleza fosse possível. Aquilo me gerava uma grande angústia – era beleza demais para ser absorvida por uma simples adolescente.
Há uma cena daqueles tempos que nunca se apagou da minha alma: eu andando por entre a loucura branca daquele florescimento de fevereiro, cantando a música de Chico Buarque que acabara de sair, e que começava assim: “Você era a mais bonita/ das cabrochas desta ala/ você era a favorita/ onde eu era o mestre sala…” Era o verão de 1967, e eu já sabia que os verões nunca voltavam, mas também sabia que, nos fevereiros, a Praia Grande sempre ficaria coberta da neve de suas flores de novo. Ou não? Talvez hoje tenham construído casas por toda ela, e já não tenha sobrado espaço para viverem ali capins e matinhos que enlouquecem em fevereiro. Tomara que não! Não é lícito que o Ser Humano quebre a magia dos verões.

Fico olhando para ti, meu bichinho, que um dia, num passado que não sei, já foste muito amado, tanto que qualquer pequeno carinho te deixa emocionado de ternura, os olhos líquidos de lágrimas, um milímetro da linguinha de fora dentre os dentes fechados, assim como quem não crê que aquilo tenha voltado (o carinho), ou lembrando talvez de um lugar e de um tempo do passado quando foste tão feliz com aquela pessoa que te deu amor, te ensinou a entender que estavas seguro, te ensinou a andar de carro no banco de traz, bem comportadinho…
Penso em quem foi essa pessoa: uma criança? Um homem? Uma mulher? Que nome terias então?
Impossível saber as coisas da tua pequena vida, que a veterinária disse que está entre dois ou três anos – que foi que te aconteceu? Eu, cá comigo, penso que em algum momento foste roubado com quem te quis porque eras pequenino, parecido com uma raposinha, pretinho com detalhes champanhe – quem te roubou? Um homem, uma mulher, uma criança? Impossível saber, mas decerto foi a partir daí que começou o teu duro calvário, sabe-se lá como, se ficaste passando de mão em mão, se fugiste à procura de quem te amava e foste de ancorar no lado podre da vida sem saber, sem querer – sei o que te passou aí nesse teu tempo turbulento: fome, maus tratos, falta de amor… Em algum momento conheceste o ódio de uma mulher má, daquelas parentes de bruxa malvada (talvez fosse a própria bruxa, como saber, aqui nessa proximidade de Naufragados, lugar de sabás de bruxas?), dessas pessoas de coração empedernido, dessas que dá asco até em Satanás, que foi aquela que os meus vizinhos viram quando veio a esta Enseada de carro e te atirou longe, na maré alta, para que te afogaste, sem nem o direito a uma última refeição, como o sórdido sistema prisional dos Estados Unidos ainda concede aos que estão para serem executados.
Sei de ti desde então, do alvoroço dos vizinhos por terem falado com aquela mulher má que ainda ficou jogando chispas de raiva antes de se ir como uma possessa, do teu quase último alento para sair das águas, todo molhadinho e trêmulo, e de como te segurei junto ao coração. Sei da fome que tinhas, que comias qualquer comida, mesmo cheia de formigas, e do teu cansaço, e da tua sede, e de como dormiste como um mortinho quando te botei dentro de uma casinha improvisada com uma caixa de papelão.
São cinco semanas, agora, que estamos juntos, e quanta coisa aprendi a teu respeito, como essa de teres o conhecimento do amor, um dia, quando não sei adivinhar, mas que posso imaginar, e fico a me perguntar quem te ensinou o amor, um dia, que não esqueceste dele mesmo depois de todas as maldades pelas quais passaste, e te tornaste capaz de amar de novo, e a cada pequeno gesto de carinho que te faço, quase te derretes de amor por mim, e vejo nos teus olhinhos marejados que há a lembrança de alguém, lá no passado, que te amou também, que foi tão bom para contigo que agora continuas apto a amar de novo…
Hoje és meu cachorrinho e te chamo de Zorrilho, por tua semelhança com uma raposinha, e sabes e entendes quando te chamo assim que agora esse é o teu nome, e percebo, na tua ânsia de correr atrás de cachorrões 15 vezes mais pesados do que os teus parcos dois quilos (penso que tinhas uns 500 gramas quando chegaste, cinco semanas atrás), que serias capaz de morrer por mim.
Tu és bonzinho, educado, cordato, cachorrinho que sabe andar de carro e que num instante aprendeu que gosta muito de comer carne, molhos saborosos, nata, requeijão, coisas refinadas para um cão, e andas a rejeitar estas bobagens como arroz ou ração e, sobretudo, o quanto amas o pouco de amor que posso te dar (Atahualpa tem grande ciúme de ti) – não terias aprendido tanta coisa em cinco semanas se lá no teu curto túnel do tempo não tivesse havido aquela pessoa que um dia te deu amor em grande quantidade. Corta-me o coração ver teus olhinhos marejados de lágrimas quando recebes carinho e me fitas através daquele espelho líquido, transformado em emoção pura, a pensar que um dia, lá no passado…
Ah! Zorrilho, já se tornou bastante complicado vir a viver a vida, um dia, sem ti!

Enseada de Brito, 14 de Janeiro de 2017

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutora em Geografia. 

(Para meu bisavô Katzwinkel, que veio no século XIX de Kaunas, Lituânia, e para minha prima Ivone Narloch, nascida Katzwinkel)
Se procurar nos velhos documentos da família vou encontrar, mas a verdade é que não sei de cor sequer o seu nome. Minha avó, que estava prestes a fazer sete anos quando chegou aqui, casou-se com 26 por volta de 1908 ou 1909 – o que significa que eles vieram mais ou menos no ano de 1889. No tempo em que convivi com ela ouvi-a falar muitas vezes nele, mas ela dizia “Meu pai”, e então nunca soube o nome dele, mas ele é muito forte na minha vida.
Estou na madrugada de Natal e penso nele, como pensei tanto hoje, e nos últimos dias, e nos últimos anos, pois quando era mais jovem não chegava a me aprofundar neste assunto. Esta é uma época em que ele fica mais forte dentro de mim, pois fez uma coisa, no seu primeiro Natal no Brasil, que só gente muito especial teria feito: para não deixar passar em branco o Natal das suas crianças, andou 30 quilômetros a pé de ida e 30 quilômetros de volta para, na manhã do dia festivo, suas crianças terem a surpresa de UM docinho de Natal cada uma, escondido sob o prato emborcado na mesa rústica de uma cabana de imigrante dentro da floresta ainda praticamente virgem.
Quem era ele, como era? Penso no meu pai, nos meus tios – o que teriam herdado dele? Penso em mim: a oitava parte da minha genética vem dele, e fico a lembrar como o meu pai era em relação ao Natal, data mágica e sagrada dentro da magia, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para que cada Natal fosse um sucesso dentro de cada um de nós. Penso em mim e em toda esta curtição do Natal que possuo decerto porque herdei, e que faz com que eu faça todos os ritos, todas as comidas, enfeite a casa, mesmo que seja para comemorar a data apenas com os meus animaizinhos, como já fiz algumas vezes, como fiz hoje.
Com meus cachorros empanturrados de peru saí para a noite, para a beira do mar desta enseada aonde vivo, e me sentei um pouco na beira daquela água que fica magnífica assim de noite, com os diversos pontos de luzes no seu entorno, tanto cá pelo continente quando mais lá longe, na ilha. Fiquei admirando a beleza daquilo tudo e pensando nele, naquele meu bisavô que me passou esta curtição do Natal, e me indaguei coisas: será que algum dia ele pensou que a sua filha teria um filho que teria uma filha, isto é, eu, que em pleno século XXI estaria na beirada do mar a pensar nele e a querer saber mais sobre aquele homem quase estranho mas que vivia tão fortemente nela? Imagino que ele fosse um jovem quando atravessou o grande mar-oceano num navio à vela que saiu de Hamburgo, navegou até Lisboa e depois ficou três meses vendo só “céu e mar”, conforme minha avó Emma Katzwinkel Klueger contava tantas vezes, pois quando se aventurou assim sua criança mais velha ainda não completara sete anos. Imagino que depois daquela travessia é provável que nunca mais tenha visto o mar… O que pensava ele, o que sonhava? A luta pela vida era difícil e perigosa, então – dentre outras coisas, com sua família, estava dentre o fogo cruzado do genocídio Xokleng que acontecia no Vale do Itajaí, coisa tão criminosa e abjeta que foi parar num julgamento na Corte de Haia, na Holanda – a situação era difícil e imagino que sonhava, sobretudo, com segurança, com muita comida para suas crianças, com uma casa mais confortável do que sua cabana de palmitos… É provável que muita gente tenha esquecido dele, depois da luta que foi sua vida, mas agora ele está tão vivo e tão forte aqui dentro de mim!
Então fiquei lá na praia, nesta noite, olhando no entorno e pensando nele, e estar ali, com aquela água linda e aqueles colares de luzes me dava a sensação de estar dentro de um presépio, daqueles que o Frei João Maria o.f.m. fazia na igreja de Nossa Senhora da Glória, na Garcia, em Blumenau, quando eu era pequena, e então ficou mais forte a sensação de que ele estava ali comigo, quiçá em mim, pois se vim dele…
Só queria contar que tenho pensado muito nele, naquele meu bisavô Katzwinkel que um dia veio lá do Mar Báltico, da cidade de Kaunas, na Lituânia. Como ele é forte em mim!
Enseada de Brito, 25 de dezembro de 2016.

Blumenau, agora, é o Norte – nestes nove primeiros dias nos quais já não sou mais daquela cidade, a cada um dia um pouco (ou muito) fui me dando conta das tantas diferenças, que imaginava e que de vez em quando são maiores, mui mui maiores do que supunha, mas só hoje é que se impôs esta realidade ainda não pensada: Blumenau, agora, é o norte.
Estou aqui como que um pouco espremida entre esta enseada de beleza e calma ímpares, que lá por traz, numa distância que impede que se ouça o resfolegar de um caminhão, por maior que ele seja, é contornada pela BR 101, e entre o aqui e os horizontes que não são marinhos só há, mesmo, a rodovia a cortar o contato direto entre o meu quintal arborizado e a reserva ecológica do Parque do Tabuleiro, onde está guardada ciumentamente a água que abastecerá a região da grande Florianópolis pelos próximos 1000 anos. Tanto quanto entendi até agora a reserva começa a duas casas daqui – se não fossem as uvas, os diversos tipos de laranjas, plantas alienígenas, eu diria que este meu espaço já é plena reserva, ainda mais com a água pura das montanhas que corre aqui gratuitamente em todas as torneiras e em pequenos ribeirões pela praia, ainda mais com coisas como jabuticabas e maracujás-doces que habitam cá à minha frente. Meu cachorro, aqui, corre livremente por todo o terreno amplo, e pela ruazinha que neste lugar se chama servidão e por toda a amplidão da praia, quanto queira, e quando penso como um cachorro bonzinho como o meu viveu uma vida reprimida lá naquela terra do Norte…
Blumenau, agora, é o Norte, e como ficou clara tal coisa desde esta manhã, quando despertei sabendo que aqui já não era o vale, que estava muito, muito mais próxima dos campos onde geou na noite passada, e me lembrei de uma vez em que sobrevoei o estado de Santa Catarina no sentido leste-oeste num dia inteiramente sem nuvens, passando mais ou menos aqui por cima de onde estou, vi como se sucederam, rapidamente, as praias, os vales litorâneos, e de repente… UPA!!! – Santa Catarina deu um salto de muitos metros, mais de mil, com certeza, coisa inteiramente visível pela janela do avião, numa escarpa de pedra lisa perpendicular ao chão, e se num instante antes se viam os altos dos vales, num instante depois se sobrevoava os campos planos onde neva e onde a geada pode aparecer ainda no final da primavera, como aconteceu na noite passada.
Tudo é muito perto, conforme pude ver no avião, naquele dia, e conforme o ato de estar viva fez com que eu sentisse hoje. Houve geada lá por cima, e o frio que desceu a encosta e chegou aqui é diferente de qualquer frio que porventura eu já possa ter sentido algum dia no Vale do Itajaí, com sua umidade e seus horizontes apertados – talvez com o tempo saiba explicar isto melhor. Mas foi uma descoberta enorme essa de entender que Blumenau, agora, é o Norte, pois aqui se vive diferente, se sente diferente, se respira diferente, e quando o frio adstringente que rolou lá do alto e alisou as águas da enseada como se ela fosse uma lâmina de vidro, eu fui me sentar na beira da praia e só então entendi o quanto estava ao sul. O que queria registrar é que, principalmente num dia como o de hoje, de lua quase cheia, maré alta e geada nos campos, é infinitamente bom estar no sul!

Enseada de Brito, 12 de novembro de 2016.

Ele nasceu no finalzinho do século passado, e seu sonho era o de viver em três séculos diferentes. Com o maior bom humor, planejava alcançar o ano 2.000, coisa difícil, que acabou não dando certo, mas que o fez sonhar muito.
Seu Frederico Kilian tinha 54 anos quando eu nasci, mas só fui conhecê-lo quando ele já passara dos oitenta. Era um homem pequenino e baixinho, que parecia ter encolhido com a idade. Como não o conheci quando mais jovem, fiquei sempre com a impressão de que encolhera mesmo.
Seu Frederico Kilian me deu a maior lição de vitalidade e de amor à vida que jamais tive. Lúcido, alegre e brincalhão quase até o fim, cheio de incontestável energia física, ele me impressionou desde o dia em que o conheci. Fiquei a observá-lo com muita atenção por algum tempo, até que nos tornamos amigos. Que amigo que era seu Frederico! Beirando os noventa anos, tinha um pique difícil de acompanhar. Todas as tardes podia se encontrá-lo a caminhar pelas ruas, no seu passinho ágil e miúdo, sempre com destino certo.
– Para onde vai, seu Frederico?
Ia sempre visitar alguém, e parava para me contar que na véspera visitara o amigo tal, que tivera um derrame e estava paralítico, e abanava a cabeça com pena:
– Os meus amigos estão acabando! Quase todos estão doentes ou morreram!
Era uma constatação lúgubre, normal na avançada idade dele, mas ele não se deixava abater. Mudava logo de assunto:
– Hoje à noite…
Sempre tinha um plano para a noite, depois da visita da tarde. Comparecia a todos os coquetéis, vernissages e outros eventos que acontecessem na cidade. Eu freqüentava os mesmo ambientes que ele, e nas festas, abismava-me com o seu pique: se havia uísque, ele bebia uísque: se havia vinho, ele bebia vinho; se havia cerveja, ele bebia cerveja, e assim por diante, numa demonstração de vitalidade que a gente julga presente só nos jovens.
Nas manhãs, ele trabalhava. Exercia sua antiga profissão de fazer inventários, fazia traduções para a revista Blumenau em Cadernos, escrevia textos. E era galante o nosso velhinho, ah! como era! Não perdia manifestação pública, e lembro bem da Copa do Mundo de 1986, quando, numa das primeiras vitórias do Brasil (só houve as primeiras, mesmo), eu fui com minha turma festejar no carnaval que, aqui em Blumenau, acontece na Rua XV de Novembro. Seu Frederico Kilian, com seus 88 anos, lá estava no carnaval do Brasil, dançando e fotografando. Dançou samba comigo no meio da rua, num arrasta-pé que abriu a roda e fez todo o mundo por perto aplaudir. Agradeceu, depois, a ‘marca’, como se estivesse em elegante salão de baile.
Ele gostava da minha companhia, e, galantemente, convidava-me para festas mais solenes, aos sábados, aonde íamos de braços dados. Tenho as fotografias dessas ocasiões para lembrar-me com saudade.
Mais que ninguém, seu Frederico gostava de viajar. Beirando os noventa anos, decidiu fazer viagem em navio de turismo até o extremo sul da América do Sul. Era um mês no mar, e a família julgou que voltaria morto. Preocupados, os familiares sequer o deixaram volta com o navio até Santos: forma de carro, buscá-lo no porto de Rio Grande/RS. Esperavam encontrar lá um velhinho derreado, mas seu Frederico saltou do navio lépido e faceiro, delirantemente aplaudido por todos os passageiros. Tinha sido eleito o passageiro mais simpático, tinha gravado entrevistas com todo o mundo do navio, e, ah! ele delirava ao contar! – num baile à fantasia, fantasiara-se de beija-flor para poder beijar todas as moças! Assim era seu Frederico!
Depois dos noventa anos, ainda fez muitas viagens. Creio que a mais ousada foi ter ido conhecer o Egito, e se aventurado a andar de camelo, lá pelos 92 anos. A família já não o deixava viajar sozinho, e a gente via que aquilo não lhe agradava muito.
Ele faleceu nos primeiros dias de 1995. só ‘baixara a bola’ nos últimos meses, e quando o vi pela ultima vez antes da sua morte, ele ainda estava planejando escrever um romance. Contou-me todo o enredo do romance, sobre uma moça que se suicidara em Blumenau no final do século XIX. Talvez, algum dia, eu escreva o romance por ele.
Seu Frederico Kilian sonhava em viver em três séculos diferentes, e não conseguiu. Mas como viveu intensamente os 96 anos de vida que Deus lhe deu! Quero, um dia, ser uma velhinha como ele!

* Para Márcio e Sandro, que eram meninos

Desta vez, ao crepúsculo, eu caminhei em direção das Minas da Prata. Nem só em Potosi houve minas de prata na América – em Blumenau/SC, também as houve, e tomei o rumo delas, à tardinha, lembrando dos tempos em que era muito jovem, tinha meu primeiro fusca e vinha acampar diante das minas com minha irmã Margaret, mais os nossos vizinhozinhos Márcio e Sandro, garotos de primário, que estavam descobrindo a vida e aos quais eu ensinava a usar a imaginação, quando entravam de férias. É daquele tempo que me lembro das minas, já então abandonadas de há muito – como as de Potosi, sua prospecção se tornara antieconômica.
Sobraram as bocas das galerias, e os túneis avistados lá dentro, pois era proibido entrar, por temor de desmoronamentos – mas havia toda uma magia ao ir-se lá – naquela altura, embalados pelos quadrinhos de Walt Disney, ficávamos a imaginar as minas do tio Patinhas. Éramos muito inocentes, então: não sabíamos dos 8.000.000 de índios mortos de fome e maus-tratos em Potosi. Mas lembro como qualquer pedra que se achasse no chão, podia ser quebrada com facilidade, e como o seu interior faiscava todo de veios de prata. O problema é que era muita pedra para pouca prata, o que fez os mineradores irem embora.
Tais minas estão a apenas três quilômetros desta pousada onde venho me abrigar, e quando saí, na tardinha, tinha a intenção de ir lá ver, e reviver, quem sabe… Fiquei conversando com um velho morador que conhecia os Klueger, no entanto, durante tanto tempo, que quando fui vencer o último trecho do caminho, a noite caiu. Pelo que me disse uma outra rara moradora, eu estava chegando, mas voltei sem ir lá.
Há uns raros postes com lâmpadas acesas ao longo da estrada escura, muito distantes um do outro, e a estrada está mergulhada entre morros e ladeada de nascentes que se juntam num rio, e mesmo sendo de quarto crescente esta noite fria, em algumas curvas, onde as árvores eram muito altas, a escuridão era total, e eu acabei montando na minha imaginação e viajando no tempo.
Um dia também anoitecera ali, naquele lugar, quando um antigo povo ia por ali passando, e todos, homens, mulheres e crianças procuraram logo o lugar mais abrigado para passar a noite. Pensei: e se estivesse chovendo torrencialmente? Conheceriam os antigos moradores alguma gruta, alguma cova, algum abrigo onde se enfiar? Hoje a geografia está toda alterada por conta do colonizador – como teria sido um dia? Os abrigos estariam por ali desde tempos imemoriais, ou seriam construídos rapidamente, como aqueles que Sílvio Coelho dos Santos[1] nos conta em Índios e Brancos no Sul do Brasil?[2] Água não faltaria: aquelas nascentes todas e aquele rio estavam ali, decerto, há MUITO tempo!
Numa dessas curvas bem escuras, fui ultrapassada por uma van que transporta estudantes, e fiquei ali olhando como ela se escondia no breu de mais adiante, onde suas luzes traseiras vermelhas se multiplicavam muitas vezes na escuridão.
– Como uma fogueira! – pensei. Sim, devia ser a mesma sensação – um grupo humano andando por ali – pois aquele caminhozinho provavelmente um dia foi uma trilha entre as nascentes e o rio – e alguém mais atrasado chegando no escuro, quando a fogueira já estava acesa! Foi como se visse lá, ao abrigo do fogo, os adultos e as crianças cozinhando e se preparando para passar a noite, e a grande sensação de conforto que sentiu quem vinha chegando atrasado, pois lá no fogo haveria abrigo, solidariedade, comida. Talvez fosse frio como hoje e as pessoas estivessem usando suas mantas de fio de urtiga, como há uma lá no Museu da Família Colonial[3], mas não chovia naquela noite da minha imaginação.
Há coisas que devem ser atávicas dentro da gente: eu era capaz de sentir cada sensação daquela pessoa de muito tempo atrás avistando o conforto daquela fogueira no meio da escuridão de breu.
Há que andar muito mais por este lugar que hoje chamam de Nova Rússia, pois aqui os vestígios da História ainda podem ser tão visíveis, tão visíveis! Basta a gente ter olhos de querer ver e atavismo no coração!

Blumenau, 13 de maio de 2008.

Minha avó não tinha dentes. Eu passei a conviver diariamente com ela quando ela tinha se tornado irremediavelmente velha, aos sessenta anos, e ela me fascinava por ser um poço sem fundo de histórias para contar, e também pelo fato de não ter dentes.
Minha avó ensinou-me coisas estranhas. Por exemplo, no começo do verão, naquelas maravilhosas tardes de começo de verão em que os pepinos estavam começando a formar os frutos no nosso quintal, minha avó fazia coisa estranhíssima: colhia um pequeno pepino ainda em formação, tenro pepino de casca verde, e sentava-se à sombra, numa grande pedra que havia no nosso jardim. Com uma faca afiada, ela ia cortando o pepino em finas fatias translúcidas, com casca e tudo, e punha-se a mascá-las. É claro que eu não arredava do pé dela, totalmente fascinada por aquela pessoa estranha que comia pepino sem sal e sem vinagre, e COM CASCA!, e podia ficar por horas acocorada perto dela, a espiar como suas gengivas sem dentes mascavam as finas fatias do pepino, que ela saboreava com tanto prazer. É claro, também, que em pouco tempo eu também comia pepino do mesmo jeito que ela, e aquele é um gosto que ainda hoje tenho na boca, de tão bom que era!
Nas amenas tardes do começo do calor, minha avó, além de me dar o espetáculo das suas gengivas desdentadas trabalhando, me deu o incomensurável presente das suas histórias.
Ela chegara ao Brasil prestes a fazer sete anos, oriunda da Lituânia, que a gente não sabia bem onde era e ela dizia que era na Rússia. Hoje sei muito bem que a Lituânia é, de novo, um país soberano, depois da dissolução da União Soviética, mas, naqueles idos de 1960, a Lituânia era apenas um lugar nebuloso na minha geografia pitoca, que, de certo, só existia nas histórias da minha avó.
Ela se lembrava muito bem de como as coisas eram lá, e aquilo era muito mais empolgante do que qualquer livro com histórias de fadas, ainda mais contado por ela, a comer pepino com casca com as suas gengivas vazias.
Do que ela se lembrava? Do inverno, com certeza a coisa mais marcante que guardara da sua primeira pátria. No inverno, andava-se de trenó por cima de muito gelo e, se se jogasse para cima um punhado de água com a mão, a água caía transformada em pedrinhas de gelo. Eu a ouvia contar totalmente fascinada; daria qualquer coisa para conhecer um lugar assim, onde eu poderia produzir o meu próprio granizo o inverno inteiro, e não ter de esperar pelos raros granizos que já vira na minha terra de Blumenau.
Nem tudo tinha sido fascinação nos invernos de gente pobre da Lituânia no final do século passado, claro que não. A família da minha avó morava em casa exígua, que tinha como peça e/ou objeto principal o que ela chama de forno. Considerando que ela nunca aprendeu corretamente o português, eu creio que com “forno”, ela queria dizer lareira. Era em torno desse “forno” que a vida da família decorria no inverno. Dormia-se em torno dele; degelavam-se diante dele os repolhos e as batatas das parcas refeições, repolhos e batatas contados e recontados, para que durassem até o final do inverno, sempre mais escassos conforme a estação se adiantava.
E no forno, pensam que havia farta lenha para as chamas crepitantes? Nada disso, a lenha era racionada, o governo lituano só permitia que cada família cortasse pequeno trecho da floresta por ano, insuficiente para o calor na época das grandes neves. Era mister secar todo o esterco do gado e armazená-lo, para queimar quando a lenha acabasse.
O mais incrível de tudo o que a minha avó contava, porém, era sobre as visitas. Se se fizesse ou recebesse visita, ficava implícito que os visitantes trariam sua própria comida, já que o anfitrião não tinha o que oferecer à uma boca a mais. Seria isto possível, em algum lugar no mundo? Esse fato ficava além da minha imaginação de menina criada em terra de fartura, e para exorcizá-lo, eu ia correndo buscar grosss fatias de pão de casa com manteiga e mussi de banana, o quitute preferido da minha infância. Enquanto eu mastigava o meu pão com mussi, minha avó, placidamente continuava mascando suas finas fatias de pepino novo, a olhar, lá atrás dos morros, o sol que se escondia.
Minha avó não tinha dentes. Mas como ela sabia contar histórias!

(Para Elizabete Tamanini, Cesar Zillig e Juarez Aumond)

Um dia, lá na aurora dos tempos, este planeta Terra se formou todo quente e explodindo em vulcões e derrames de magma; um dia, também, ele esfriou e veio uma primeira glaciação, e depois, uma série delas, e aí nesse entremeio foi surgindo a Vida nas suas mais diversas formas, e ontem à tarde eu caminhei por um pedacinho privilegiado deste planeta, e era tão visível, ali, tantas destas coisas que vêm desde lá dos tempos mais remotos!
Era uma estradinha no lugar que quando eu era criança a gente chamava de Russland – hoje, aquele lugar tão lindo é conhecido como Nova Rússia. Fica em Blumenau/Brasil, e é uma reserva ecológica, que abriga nascentes de bicas, arroios, riachos – e todas essas águas juntas acabam formando um rio, à beira do qual costumo acampar.
E era no finalzinho da tarde, assim já depois que o sol se pusera por detrás dos morros altos, e uma fina camada de névoa azulada pairava sobre tudo e dentre tudo, principalmente dentre as árvores daquele resquício de Floresta Atlântica ali preservada, embora aqui e ali, dentro da floresta nativa, surja um Tannenbaum, ou um eucalipto, ou florescidos antúrios plantados sob a mata, à beira da estradinha – e embora exista por ali algumas casas de campo (eu diria: casas-de-mato), escondidas nos lugares mais inesperados, e umas três ou quatro propriedades rurais onde, em pastos de grama rasteira, vacas holandesas nos olham bondosamente com seus grandes olhos líquidos e mansos, e também alguns campings, e algumas outras curiosidades, como uma roça de cana, alguns jardins e cachorros, pode-se dizer que a preservação ambiental, ali, é boa, e pode-se embarcar nela e viajar para a história do passado deste planeta.
O que sempre me chama a atenção primeiro é a estradinha, quase pendurada na encosta dos morros altos e quase caindo sobre o rio, lá embaixo – como venho muito a este lugar, tenho podido observá-lo nas mais diversas situações e estações do ano, e sei que o único lugar onde ela poderia existir é onde está, que na outra margem do rio é tudo perau tão escarpado, rochas abruptas disfarçadas sob a camada da floresta, que não haveria como se ter criado tal estradinha do lado de lá – assim como vejo hoje, depois de prestar muita atenção, muita gente, nos últimos milênios, também viu onde era a passagem possível, e aquela estradinha, um dia, começou a ser aberta e se tornou um caminho feito a pé de índio. Generalizo a palavra índio por não saber o nome das tantas possíveis nações que um dia por aqui passaram – afinal, desde a última glaciação, quando o mar recuou destes lugares onde estou, quanta gente deve ter passado por aqui?
Faz um século e meio, lá por volta de 1860, que um jovem imigrante chamado Julius Bernhard Klüger, que foi o meu bisavô, também passou por aqui uma primeira vez, e foi cultivar a terra da sua primeira colônia lá mais para os confins da Russland, e o caminho já estava aberto. Mais adiante deste camping onde costumo ficar, bem mais adiante, há um pequeno cemitério com muitos parentes meus enterrados, comprovação inequívoca dos tantos meus antepassados que um dia aqui vieram trilhar a estradinha aberta a pé de índio – e que pouca modificação sofreu depois que os engenheiros e os imigrantes deram uma melhorada nela, com tratores e enxadas.
Então, ao pôr do sol de ontem, também eu estava a trilhar a estradinha, o rio espumante e encachoeirado de um lado, lá embaixo, e as rochas partidas pelo resfriamento do planeta, em outros tempos, a formar a base dos morros, do outro – e era-me espantoso observar a quantidade de vida que se agarrava àquelas rochas, musgos, líquenes, samambaias e outras plantas, cada uma tentando fazer o seu trabalho de desmanche daquelas rochas que talvez estejam ali desde um antiquíssimo primeiro derrame de lava aqui nesta região. Talvez aquelas rochas já tenham passado por todo o calor e por tantas glaciações, e sejam testemunhas de todo o tanto de vida que já aconteceu por aqui, desde a das plantas, quanto a dos animais de diversos tipos, sabe-se lá quantos já extintos, e das diversas nações de gente que por aqui desfilaram, inclusive a dos imigrantes, e sabe-se lá em quantas delas havia pessoas do meu passado – e ali estão, portando seus musgos e seus líquenes, e esperando que a próxima glaciação chegue, embora, por enquanto, o mundo ainda esteja a esquentar, desde o último grande frio… como queria eu poder perguntar tantas coisas àquelas rochas! O quanto poderiam elas me contar, que me escapa a este olhar limitado com que as olho!