A trajetória de um político papa-siri

23/08/2018 17:47
 
Era meados de 1980 quando eu e o amigo Décio Lima pegamos um ônibus com destino ao Rio de Janeiro para participar do Congresso da União Nacional dos Estudantes, a UNE.
 
Tempos ainda de ditadura militar, que tinha então no comando do regime o general João Figueiredo, aquele que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Décio era presidente do Diretório Central dos Estudantes da Fepevi, hoje Univali, e eu diretor cultural da entidade.
 
Viajávamos tranquilos quando, ao entrarmos em São Paulo, um grande aparato de segurança bloqueava o trânsito. O Papa João Paulo II lá estava, em visita oficial ao país que possui o maior número de católicos do mundo.
 
Para chegar ao Rio de Janeiro, o ônibus teria que fazer um desvio por Belo Horizonte para então seguir até a Cidade Maravilhosa. As 17 horas previstas de viagem seriam acrescidas de mais umas cinco ou seis.
 
Fazer o quê, eram os desígnios do representante de Deus, e quem éramos nós para reclamar do incômodo causado pelo Sumo Pontífice! Relaxamos e, numa parada para um café, Décio e eu resolvemos comprar um garrafão de vinho para distrair o tempo e alegrar o percurso. Não deu outra, no final boa parte dos passageiros se rendeu ao chamado de Baco e a até então sóbria viagem mais parecia uma excursão.
 
Os sisudos passageiros já transpiravam alegria, parecia que todos ali eram velhos conhecidos. Eu e Décio entabulamos conversa com duas belas mulheres que sentavam no banco à nossa frente, uma com seus 18 aninhos e a outra com o dobro disto. A mais nova veio sentar-se ao meu lado, enquanto Décio passou para o assento ao lado da outra, que dizia ser modelo.
 
Não demorou e a euforia inebriante causada pelo vinho surtia seus efeitos e todos ficaram mais leves e descontraídos. Que festança! Tudo transcorria maravilhosamente bem até pararmos na rodoviária do Rio de Janeiro.
 
De repente, um batalhão de policiais armados cercou o ônibus. – Pronto Décio, fomos descobertos pelos agentes da ditadura e a prisão nos aguarda, falei, um tanto amedrontado. Imediatamente pegamos o calhamaço de panfletos subversivos que trazíamos em uma mochila e escondemos embaixo dos assentos. Um por um os passageiros iam deixando o ônibus, sob os olhares atentos dos policiais.
 
Para nosso espanto, duas pessoas foram detidas, justamente aquelas com as quais nos refestelávamos em embriagantes e sedutoras palavras e algo mais. Descobrimos que se tratavam de mãe e filha, e que esta havia sido raptada pela mãe em Blumenau, onde vivia sob a guarda do pai. Bom, pelo menos estávamos sãos e salvos, livres dos porões da ditadura.
 
Depois de deixar nossas coisas em um alojamento no bairro de Botafogo, destinado pela UNE aos participantes do Congresso, fomos até o local onde aconteciam os debates das lideranças estudantis que tinham vindo dos vários estados para discutir os rumos da educação brasileira e a pesada atmosfera de repressão às liberdades civis.
 
Após algumas horas ouvindo discursos, palavras de ordem e exaustivas discussões, resolvemos ir a um shopping para saciar a fome e a sede. Já era noite. Quando nos aproximávamos de uma lanchonete na área central do shopping, que coincidência: a garçonete do estabelecimento era justamente a mãe raptora, que depois de depoimento na delegacia já havia sido liberada e retomado suas atividades cotidianas.
 
Prestava serviço numa lanchonete. E gabava-se dizendo ser modelo. Para evitar constrangimentos, antes que ela nos visse nos afastamos rapidamente, saímos do shopping e fomos saciar a fome em um carrinho de lanche na praia de Botafogo. Estávamos os dois na maior pindura e comemos apenas um cachorro quente cada um, insuficiente para o tamanho do buraco em nossos estômagos.
 
Mas tudo bem, afinal estávamos na paradisíaca cidade do Rio de Janeiro e queríamos mais do que simplesmente saciar a fome. O espírito de nos aventurarmos pela noite carioca era latente. Precisávamos tomar uma decisão: ou comemos ou vamos beber uns tragos e nos divertir. Saiu vitoriosa a segunda opção, óbvio!
 
Altas horas, de cara cheia, alma leve e bolsos literalmente vazios, sem dinheiro nem para as passagens de volta a Itajaí, caminhávamos trôpegos mas felizes pelas reluzentes avenidas do Rio. Até que, debaixo de uma marquise nos deparamos com um casal e várias crianças, amontoadas, dormindo sobre andrajos de cobertor e pedaços de papelão.
 
A visão deixou Décio transtornado. Comovido, abraçou-se a mim e, aos prantos começou a discursar, dizendo que somente quando a esquerda tomasse o poder aquilo iria acabar, que era urgente derrubar a ditadura, que a injustiça social era algo extremamente desumano, que a fome era uma chaga aberta que matava diariamente dezenas de brasileiros etc etc.
 
E assim fomos, caminhando abraçados e emocionados, até chegarmos ao alojamento. No dia seguinte, uma vaquinha feita entre participantes do Congresso da UNE nos proporcionaria dinheiro suficiente para o retorno a Itajaí.
 
Apesar de franzino, Décio e a oratória sempre entraram em comunhão. A eloquência nos discursos sempre foi uma característica marcante de sua personalidade. Em tenra idade já demonstrava capacidade inata para liderar, e muito cedo elegeu-se presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Salesiano. Foi lá que o conheci e tive a certeza de que ele futuramente exerceria cargos públicos, de que seria um bom político.
 
E o tempo passou… Depois de formar-se em Direito na Fepevi, Décio acabou indo exercer o ofício em Blumenau, mais precisamente no poderoso Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Têxtil. Elegeu-se vereador, reelegeu-se, candidatou-se a prefeito de Blumenau, venceu a eleição, foi reconduzido ao cargo e mais adiante foi candidato reeleito para um terceiro mandato como deputado federal pelo PT.
 
A proximidade de Décio com Lula é tão grande que foi convidado para padrinho do neto do ex-presidente. Na sua trajetória, Décio Lima certamente acumula muitos méritos, mas provavelmente também alguns deméritos. Aquele adolescente destemido e idealista ficou no passado. Infelizmente a política tem o poder de conspurcar a alma daqueles sonhadores mais incautos.
 
Há algum tempo, Décio me confidenciou estar cansado de tudo, que pensava seriamente em deixar a política. Mas qual, é certo que foi só um desabafo num momento de natural desilusão com os métodos e as práticas que é obrigado a cumprir em obediência às diretrizes ditadas pelo partido, que por vezes podem provocar naqueles mais bem-intencionados um transe de consciência. Tanto que agora, em 2018, é o candidato do partido ao Governo catarinense.
 
A política já impregnou-lhe há muito a mente, o corpo e sua alma. Décio Lima jamais conseguirá desvencilhar-se do mundo em que se meteu, a não ser no inevitável desenlace final dos seus dias aqui neste fascinante e maltratado planeta.
 
Como amigo sincero que sempre fui, só posso desejar a ele que escolha sempre o melhor caminho. E o melhor caminho é e sempre será aquele que contemple as aspirações do povo. Afinal, são do povo os mandatos que mantêm Décio onde está!

Alguma semelhança com a realidade atual?

17/08/2018 12:26

“Senti então que toda minha boa fé, acreditando nas promessas de um pleito livre, havia sido ludibriada, porque, acima mesmo dos princípios de humanidade, os meus adversários colocavam o orgulho imenso de vencer as eleições, mesmo que para tanto novas e maiores violências tivessem que ser efetivadas.

Se na campanha presidencial mantive-me forte ante uma série inominável de violências, é que ali eu defendia uma causa nacional. enquanto que nesta estava em jogo o meu nome, e minha resistência cedeu diante de uma pobre viúva, de 70 anos, alquebrada, que, abraçada comigo, chorava convulsivamente, apontando para seus dois filhos que haviam sido açoitados de modo que nem os grandes malvados fazem aos próprios cães.

Esta e outras atrocidades levei ao conhecimento do governo do Estado e as providências mais prontas tomadas foram o envio, no dia seguinte, de mais soldados para manter a violência contra meus correligionários.

Estamos possivelmente sob o jugo de um verdadeiro despotismo que não é mais que o reflexo do que ocorre por todo o Brasil. Nestes dias tristes em que as liberdades públicas e os direitos dos cidadãos são frases ocas para iludirem os incautos, ser oposicionista é faltar com o respeito às autoridades, fazer propaganda comunista, anarquizar as instituições republicanas.

Manter a ordem, fazer respeitar as autoridades, acatar os direitos políticos, é ter numa mão o açoite e na outra a carabina, para arrancar do trabalho da terra ou das funções na oficina aquele que tiver a ilusão de pensar que o voto do cidadão é livre, que a justiça não é um mito com o qual se enganam os ingênuos e se castigam os humildes.

Crer na justiça dos homens, no Brasil de hoje, é crer na carícia do felino que esconde as unhas para melhor nos inspirar confiança e para nos atraiçoar no primeiro momento. A justiça dos homens públicos do Brasil é esta. A outra, a que se faz respeitar pelo aparato da toga, é também por vezes falha; por vezes emaranhada nas tramas dos políticos profissionais.”

OBS. – Parte da Carta de Renúncia de José Eugênio Müller à candidatura a prefeito de Itajaí em 1930, diante dos ataques físicos violentos promovidos pelo candidato da situação Irineu Bornhausen aos eleitores de Müller, diuturnamente espancados pela polícia para que mudassem seus votos. Irineu era cunhado do então prefeito Marcos Konder, que por sua vez tinha no governo do Estado Adolpho Konder. Era o clã Konder/Bornhausen mandando e desmandando em Itajaí, em Santa Catarina e até no País.

A vergonha do Brasil

15/08/2018 17:48

No ano passado houve 63,880 assassinatos no Brasil, no léxico de relatórios oficiais aparecem como “mortes violentas”. Ou seja, 175 assassinatos a cada dia a partir de 2017. Mais de sete por hora.

Isso significa que houve mais assassinatos no Brasil no ano passado mortos na guerra civil na Síria.

Macabro que totalizam 4.539 eram mulheres. E 5.144 foram mortos pela polícia: 14 por dia. A média nacional indica 30,8 assassinatos por grupo de cem mil habitantes. Mas em alguns estados a taxa é extremamente impressionante: 59,1 homicídios por cem mil habitantes no nordeste do Ceará, e 63,9 no Acre amazônico, e também ultrajante 68 no nordeste do Rio Grande do Norte.

Havia pelo menos 60,018 violações oficialmente relatados, o que significa que 164 por dia, cerca de sete por hora. E 606 mil casos de violência doméstica foram registrados. É bom lembrar que esses dados referem-se apenas às reclamações emprestados às autoridades, e que o costume de vítimas que escolher para silenciar diante da perspectiva, bastante comum em todo o país, sendo humilhada por aparecer em uma delegacia persiste no Brasil polícia, especializada neste tipo de crime, inclusive. Estudiosos e pesquisadores de tal violência indicam que o número real seria pelo menos duas vezes, que é, refrigeração 120 mil estupros, 328 por dia, quatorze por hora.

Caráter

14/08/2018 15:51

A natureza de muitos assemelha-se à de camaleões, que mudam de cor quando melhor lhes aprouver! (EG)

Duvide sempre

11/08/2018 16:59

Os que se acham os donos da verdade são justamente aqueles que fazem de sua vida uma grande mentira! (Émerson Ghislandi)

Jornalismo

O Brasil é um dos países mais perigosos para jornalistas. Todo cuidado é pouco quando desenvolvemos com autonomia, destemor e competência a nobre profissão que abraçamos. Mas é justamente ao contrariarmos interesses escusos e poderosos na defesa dos excluídos e oprimidos é quando exercemos na plenitude o verdadeiro jornalismo!