A ganância e o criminoso extermínio indígena

12/01/2018 18:02

Manaus,1980. Na aventura que fiz por nove países da América do Sul, de mochila nas costas e pedindo carona, a capital amazônica – tida como a “Paris dos Trópicos” – foi um dos pontos marcantes da viagem.

Ao lá chegar, sentei-me no banco de uma praça onde, de um lado, via-se uma belíssima igreja, do outro, descortinava-se majestoso o Teatro Amazonas, de características barrocas, construído com a dinheirama vertida pelo pujante Ciclo da Borracha, gerando no final do século 19 uma casta de milionários que investiu na obra o que havia de melhor na arquitetura dos países de Primeiro Mundo.

A execução do projeto contemplou a riqueza dos detalhes e quase todo o material foi trazido da Europa, principalmente da França, país que representava o bom gosto e servia de exemplo para as classes sociais mais abastadas, que de lá traziam roupas, obras de arte, tapeçaria, perfumes e até no comportamento social os brasileiros buscavam espelhar-se nos franceses. Em suma, a França representava o crème de la crème da sofisticação.

E eu, andarilho faminto, sentado no banco da praça, ou Largo de São Sebastião, no centro de Manaus. Era sábado e homens e mulheres em trajes elegantes começaram a sair da igreja, onde naquele momento terminava uma cerimônia de casamento, dirigindo-se todos para um vistoso salão de festas logo ao lado. Não me fiz de rogado e meti-me no meio dos convidados para também usufruir do ágape que seria servido.

Passados alguns minutos, a minha presença começou a ser notada. E não era para menos. Afinal, no meio de tanta gente finamente trajada, estava eu, de camiseta, bermuda, chinelos e ainda com uma mochila nas costas. Pronto – pensei comigo – vou ser escorraçado justamente agora, quando os garçons passam com bandejas e mais bandejas de deliciosos manjares, aguçando ainda mais o meu apetite.

Não demorou muito e o noivo veio até mim, inquirindo-me sobre o que eu estava fazendo ali. Fui sincero, disse que estava viajando a América de carona, com parcos recursos no bolso e vi na festa a oportunidade de matar a fome. Esse noivo certamente terá um lugar especial reservado no céu! Sensibilizado com a história que contei, arranjou-me de pronto uma mesa e, depois de fartar-me, segui meu caminho, saciado de corpo e alma. Bom que ainda existe gente solidária neste mundo.

Armei minha barraca ali mesmo, na praça. Por sorte não fui incomodado e dormi sossegado o ingênuo sono dos anjos. No dia seguinte resolvi ir para uma área na periferia de Manaus e adentrei em uma densa mata. Foi quando, depois de algum tempo de caminhada, me deparei com uma autêntica aldeia indígena.

Um pouco assustado, pensei em dar meia volta quando um grupo de índios veio ao meu encontro. Para minha surpresa, que já pensava que seria amarrado em uma árvore e ritualisticamente devorado no almoço, eles se mostraram receptivos e me convidaram para conhecer a aldeia.

E olha, chegamos até a jogar uma desentrosada pelada num pequeno campo de futebol contíguo às choças amontoadas próximas à beira de um caudaloso rio. Quem iria imaginar tal coisa. Terminada a partida, acabei sentando-me à mesa enquanto alguns nativos preparavam em uma tosca churrasqueira um enorme pirarucu. Que delícia! Parece que ainda me vem à boca o saboroso paladar daquele peixe símbolo da Amazônia.

Ali passamos a tarde em uma longa e profícua conversa. Contaram da sua história recente, sobre a furiosa e cruel caça aos índios na maior floresta do planeta, que de gigantesco espaço tropical aberto à lenda e à aventura, converteu-se, simultaneamente, no cenário de um novo sonho americano.

Em ritmo de conquista, homens e empresas dos Estados Unidos avançaram sobre a Amazônia, numa invasão que incendiou a cobiça dos aventureiros brasileiros. Muitos índios morreram sem deixar rastro e as suas terras foram vendidas em dólares aos norte-americanos e outros interessados no ouro, na madeira e na borracha, riquezas cujo valor os nativos ignoravam.

Com olhos marejados, relataram que os índios chegaram a ser metralhados de helicópteros e pequenas aeronaves, que lhes foi inoculado o vírus da varíola, que foi lançada dinamite sobre suas aldeias e que receberam de presente açúcar misturado com estricnina e sal com arsênico. Nas escassas investigações que se procederam quando estourou o escândalo, em 1968, o próprio diretor do Serviço de Proteção aos Índios, na ditadura de Castelo Branco, foi acusado, com provas, de cometer mais de 40 diferentes tipos de crimes contra os índios. Ficou por isto mesmo e ele acabou impune.

Das 230 tribos existentes no Brasil nas primeiras décadas do século 20, pelo menos a metade desapareceu, exterminada pela violência das armas e pelas doenças trazidas pelo contato com o homem branco. Os textos de todas as Constituições brasileiras são unânimes quando frisam que “os índios são os primitivos e naturais senhores das terras que ocupam”. Porém, quanto mais ricas são essas terras, mais grave se torna a ameaça que pende sobre suas vidas: a generosidade da natureza os condena à espoliação e ao crime.

O seringueiro Chico Mendes, que lutava contra a devastação da Amazônia e a exploração dos índios, morreu covardemente assassinado e se tornou um símbolo e exemplo de combate à cobiça que vem destruindo aos poucos o maior patrimônio natural da humanidade.

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