De Caetano ao Rock in Rio, algumas estripulias para relembrar

16/09/2017 18:18

José Darcy da Silva Júnior foi um itajaiense que deixou saudades. Morava no bairro Vila Operária e notabilizou-se pela engenhosidade e genialidade em tudo que fazia. Cizinho, como era chamado pelos inúmeros amigos, apesar da estatura que beirava os dois metros, tinha a silhueta esguia e franzina e a mente repleta de ideias.

Teatrólogo dos bons, ganhou inclusive um prêmio da Fundação Catarinense de Cultura com a peça intitulada Em Tua Homenagem. O nome é propício para esta ocasião em que escrevo estas breves linhas. Nos conhecemos no Colégio Salesiano, mas logo após se formar ele sumiria do mapa.

Foi para Curitiba, onde depois de alguns anos de trabalho na área cultural, resolveu voltar à sua cidade natal. Assim como muitos que se vão e retornam a Itajaí pela inevitável dificuldade de permanecer longe por muito tempo desta terra abençoada.

Ele foi não apenas um inesquecível amigo, mas também uma espécie de cupido. Num curso de teatro por ele ministrado no salão paroquial da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, em 1982, conheci a mulher que vive ao meu lado até hoje, Maria José, que me deu três filhos: Carolina, Giácomo e Émerson.

Naquela época Maria José, ou Zeca como era conhecida no meio artístico, também dedicava-se ao teatro, atividade que lhe rendeu em 1983 o título de melhor atriz no Festival Catarinense de Teatro. A minha vida, portanto, tomou o rumo que tomou graças a este curso do Darcy, do qual também participei. Com Cizinho vivi passagens memoráveis!

No final da década de 70 fomos juntos a Curitiba para um show de lançamento de um disco do Caetano Veloso, no esplêndido Teatro Guaíra. A capital paranaense era uma espécie de termômetro para os músicos: se o disco fizesse sucesso lá, era sinal de que seria bem aceito em todo o país.

Mesmo com a estatura que possuía, Cizinho dirigia um fusca. Não sei como cabia dentro do pequeno veículo, ao qual chamava de útero. Saímos daqui no meio da tarde, e a mim foi dada a incumbência de dirigir.

Era início da noite quando chegávamos a Curitiba, neblina intensa. Quase atropelo um policial rodoviário que, sem que eu percebesse, postou-se diante do carro em sinal de parada! Foi por um triz!!! Bendito reflexo! No final, tudo certo. Apanhamos dois amigos no centro da capital e rumamos para o Teatro Guaíra.

Um deles, o escritor e cineasta Rui Vezzaro, que anos depois teria um documentário premiado no famoso Festival de Gramado. Chamava-me de filho bastardo de Paul Newman, pela semelhança que eu tinha, segundo ele, com o ator de Hollywood. Quisera eu que assim fosse!

Mas o show de Caetano foi um verdadeiro espetáculo, especialmente para nós quatro, todos fãs incondicionais do músico baiano. Tanto que, no final da apresentação, resolvemos tentar manter contato com o ídolo.

Seguimos atrás dos dois carros que levavam Caetano e seus músicos. Uma célere perseguição se sucedeu pelas ruas de Curitiba até chegarmos ao destino final, um restaurante em Santa Felicidade, passagem obrigatória do turismo gastronômico da capital paranaense.

Nos abancamos numa mesa próxima à de Caetano e depois de alguma relutância não resistimos: fomos até ele e puxamos conversa. De bom astral, Caetano nos recebeu e ali permanecemos, os quatro ao redor da mesa, por cerca de 10 minutos. Saciados da atenção do ídolo, fomos embora com o sorriso nas orelhas, todos com o desejado e valioso autógrafo de Caetano Veloso. Que glória!

Anos depois, em 1985, fomos eu e o Cizinho para a ‘Cidade Maravilhosa’. Era a primeira e antológica edição do Rock in Rio. Desta feita pegamos mesmo um avião.

Ficamos no apartamento de uma modelo, amiga de Darcy, que apareceu duas ou três vezes na capa do jornal O Globo, com trajes que lembravam o gênero musical dos artistas que se apresentavam no grandioso festival.

O Brasil passava por grandes transformações. Após 21 anos sob uma ditadura militar, o país começava a dar os primeiros passos rumo à democracia. Nesse cenário, pela primeira vez uma nação da América do Sul, continente que vivia tempos semelhantes de cerceamento da liberdade, tortura e mortes, sediaria um evento musical dessa natureza.

Nele estiveram nomes como AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Queen, James Taylor, Rod Stewart, Scorpions, Yes e os brasileiros Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho. Ao todo foram 28 bandas nacionais e internacionais. Algo inebriante para os apaixonados pelo rock. O local especialmente montado em Jacarepaguá, abrigava nada menos que 250 mil pessoas. Era muita gente!

Numa das noites, eu e Darcy nos perdemos um do outro. Saí à sua procura olhando por cima no meio da imensa multidão. Afinal, ele tinha dois metros de altura e havia, naturalmente, alguma possibilidade de localizá-lo.

Depois de algum tempo resolvi dar uma parada para assistir ao show de James Taylor. Foi quando, nas minhas costas, uma bela garota passou a se esfregar. Pensei: nem tudo está perdido. Mas, assim como chegou, ela sumiu, repentinamente!

Um tanto chateado, saí do meio do mar de gente e fui comprar uma cerveja para esfriar a cabeça. Quando coloquei a mão no bolso de trás, onde está a carteira? Percebi então que havia sido vítima de roubo. A garota que se esfregava nas minhas costas tinha surrupiado a carteira.

E agora? Lá estava eu, sem documentos, sem dinheiro, sem o Darcy e sem saber exatamente onde se localizava o apartamento da modelo que nos hospedava. Desesperadora situação. A minha aflição durou uma boa meia hora, quando então, que alívio! Finalmente achei o Darcy!

Foi a última aventura que passamos juntos. Poucos anos depois, ele deixaria este mundo, ainda jovem, vítima de graves problemas cardíacos. A sua imagem, seu astral sempre nas alturas, a sua genialidade e sutileza, permanecerão para sempre na memória daqueles que com ele tiveram o privilégio de conviver!

Aventura na selva amazônica

13/09/2017 17:52

Quando vejo a situação de muitas rodovias no Brasil – se é que assim podem elas ser chamadas – lembro da viagem mais traumática que vivenciei. Era início dos anos 80 e eu resolvi botar uma mochila nas costas e sair por esse mundão em busca de aventura, conhecimento e luz. De carona, a pé, de trem, de carro, de ônibus e até pequenos aeroplanos atravessei a Cordilheira dos Andes e percorri durante seis meses de viagem nove países sul-americanos. 

Vi muitas barbaridades em termos de estradas, mas nada se igualava à inacreditável realidade brasileira. Para se ter uma ideia, a Rodovia Transamazônica, obra faraônica projetada pela ditadura militar para integrar o Norte brasileiro com o resto do País, possui mais de 4 mil quilômetros e corta sete estados brasileiros: Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas. Grande parte não era pavimentada e em épocas chuvosas ficava intransitável. A situação hoje é praticamente a mesma; o desleixo e a incompetência de sucessivos governos selaram o monumento ao desperdício, lá, bem no meio da selva amazônica. 

Mesmo assim consegui chegar aos destinos planejados, entre eles Belém do Pará. Naquela fantástica capital, o que mais apreciei foi a culinária, baseada nas culturas indígena, portuguesa e africana. Imagine os ingredientes vindos da exuberante natureza da Amazônia, como camarão, caranguejo, marisco, peixe, aves, caça – pato no tucupi é algo divino -, todos temperados com folhas, pimentas de cheiro e ervas. Delícia, mas já estou fugindo do tema central que são as rodovias. 

Pois então, o pesadelo ainda estava por vir. Continuando a viagem, acabei em Porto Velho, capital de Rondônia. Como desejava entrar na Bolívia e subir pelos países sul-americanos até a América Central, peguei um ônibus de Porto Velho a Guajará-Mirim, divisa com a Bolívia. Pouco mais de 300 quilômetros margeando a epopeica estrada de ferro Madeira-Mamoré, mais conhecida como a Ferrovia do Diabo. Milhares de trabalhadores morreram durante a sua construção no início do século passado, a maioria por doenças e alguns atacados por onças e outros bichos da floresta amazônica. 

Adentrei no ônibus em Porto Velho e lá fomos, carro lotado, em direção a Guajará-Mirim. Era época das chuvas. Estrada de barro, muita lama, atoleiros, enfim, um fim de mundo para alguém vindo do Sul maravilha. Para seguir em frente diante da situação extrema um caminhão era amarrado ao outro, que se amarravam ao ônibus para, juntos, tentarem atravessar o imenso lodaçal. Carros de passeio, nem pensar. Meu Deus, onde fui me meter! E os mosquitos não davam trégua. 

Eram apenas 300 e tantos quilômetros de viagem, mas 14 horas já haviam se passado. Um padeiro que pretendia levar um saco de pães a uma cidadezinha no meio do caminho não teve outro remédio senão distribui-los aos passageiros famintos. Anoiteceu e o pior aconteceu: ficamos irremediavelmente atolados. A única salvação era chamar um trator em uma localidade a cerca de cinco quilômetros. O motorista avisou: não saiam porque no meio dessa selva tem muita onça, cobras e sabe-se lá que animais perigosos. 

E eu lá vou ficar parado, no meio da selva, sendo comido por mosquitos, com fome, sede, suando até a sola dos pés!!! Resolvi bancar o herói e avisei: quem tiver coragem, siga-me. E saí do ônibus, acompanhado por dois outros corajosos passageiros. A lama chegava ao joelho. A escuridão era total, tínhamos apenas uma pequena lanterna com as pilhas no limite. O rosnar de onças e o sibilar de cobras, entre outras manifestações animalescas foram ouvidos no caminho. 

Medo? Imaginação nossa? No fundo estávamos apavorados, mas fomos adiante, olhos arregalados tentando vislumbrar tudo ao redor. Tenebroso. Em frente!! Temos que seguir senão acabaremos comidos por onças do mato. Já amanhecendo, até que enfim, chegamos à tal localidade e conseguimos o trator. Que alívio, já mal me aguentava em pé com o cansaço que tomava conta do corpo e até da alma. O pesadelo havia terminado. Depois de 33 horas de viagem, chegávamos enfim a Guajará-mirim, sãos e salvos.

Escritura e solidão

06/09/2017 17:15
 
Escrever é o mais solitário dos atos. E escrevemos, sobretudo, para sobreviver à morte, ao inevitável esquecimento a que somos relegados quando desaparecemos! (Émerson Ghislandi)

Saudável loucura

05/09/2017 16:32
 
Juízo demais é falta de juízo! (Émerson Ghislandi)

Jornalismo de verdade

01/09/2017 19:10

O Brasil é um dos países mais perigosos para jornalistas. Todo cuidado é pouco quando desenvolvemos com autonomia, destemor e competência a nobre profissão que abraçamos. Mas é justamente ao contrariarmos interesses escusos e poderosos na defesa dos excluídos e oprimidos é quando exercemos na plenitude o verdadeiro jornalismo! (EG)

Sou múltiplo

 
Meu pensamento voa para lugares inimagináveis, às vezes sombrios, outras vezes deslumbrantes. Mas é dos bons pensamentos que procuro me ocupar, buscando elevar cada vez mais as virtudes d’alma. (Émerson Ghislandi)

Saudades imensas

29/08/2017 17:59
 
Meu saudoso pai e inigualável mestre, professor Pedro Ghislandi. Falta-lhe uma homenagem póstuma. Ele não merece cair na vala comum do esquecimento! Preservar a sua memória dando o nome dele a alguma biblioteca, escola ou mesmo praça, espaços que meu pai muito apreciava…Foram quase 50 anos dedicados ao sagrado ofício do magistério, formando médicos, jornalistas, engenheiros, advogados, vereadores deputados e até Governador do Estado. Descanse em paz meu estimado pai, exemplo de luta e obstinação por aquilo que mais o encantava: ENSINAR.

A imaginação nas asas da pandorga

28/08/2017 17:12
 
Joguei muita pelada no campinho da fábrica de tecidos Tecita, ali na rua Uruguai, área central de Itajaí. Lembro daquele divertimento quase diário que empolgava minhas tardes de uma saborosa infância que já não mais existe nos dias atuais. A urbanização da cidade baniu os espaços destinados ao lúdico e às prazerosas brincadeiras ao ar livre.
 
Saudade dos amigos Calir, Ademir, Aliomar, Arninho, Maurício, Camarão, Natinho, Veco, Dico, Barreto, Xande, Lincoln, Lúcio Botelho (que chegou ao cargo de reitor da UFSC) e vários outros que, naquele campinho, disputávamos aguerridas partidas de futebol, pés descalços e tendo como única testemunha a natureza ainda exuberante daqueles anos 60.
 
Todos seguiram seu caminho e, deles, agora pouco sei. A vida é assim mesmo: alguns permanecem no seu cotidiano como amigos inseparáveis, mas a maioria acaba se distanciando por força do ofício e de oportunidades que surgem em outras paragens, muitas vezes longínquas.
 
Devia ter uns 11 ou 12 anos de idade. E também fiquei meio assombrado quando, já falida e abandonada, entrei com um amiguinho nas instalações da fábrica de tecidos, a Tecita. Parecia algo surreal, com linhas e grandes carretéis espalhados por todo o lado, formando teias que se misturavam à fiação elétrica e ao aspecto tenebroso das máquinas de tecelagem já em processo de deterioração.
 
Mas, que legal! Com os enormes carretéis de linha soltei muita pandorga por aí. Era muita linha e as pandorgas se perdiam no céu, estimulando a imaginação de lugares mágicos e inatingíveis.
 
Mas, cá dentro d’alma, o sentimento era de que realmente estava eu lá, junto com a pandorga, naquela astronômica distância, alcançando estrelas e planetas, numa viagem ao infinito desconhecido!
 
O espólio da extinta fábrica de tecidos ainda excita os meus pensamentos, que teimam em retornar àqueles velhos e bons tempos!

A vida flui…

25/08/2017 15:27
 
Se olhares em volta, verás que a vida flui incessante em cada movimento. E que nada vale mais do que o privilégio de estar vivo e aberto a novas sensações! (Émerson Ghislandi)

Decorando o calabouço com livros e almofadas

24/08/2017 17:13

Não acontece nada; pelo menos nada que me interesse, que me faça exultar o coração. Espero, espero sempre. Minha vida tem sido uma eterna expectativa de algum acontecimento grandioso – uma catástrofe, uma alegria extraordinária, qualquer coisa de sublime e de maravilhosamente belo.

Censuram-me ultimamente por ser pouco sociável. Realmente, foi-se o tempo em que me sentia à vontade na vida social. Como jornalista, os convites para os mais variados eventos chegavam quase que diariamente. E eu não os perdia. Participava deles com a alma repleta de inquietude e prazer.

Os anos passaram e com eles veio o recolhimento, quase um enclausuramento voluntário. Já não me seduz o mundo das fugazes aparências a que chamamos de vida social. A ambição de ocupar um lugar importante no que se designa por sociedade é-me completamente estranha.

Minha existência tem outra finalidade, que sou incapaz de definir com justeza; apenas sinto vagamente que vivo à espera de algo de inefavelmente belo, que um dia chegará quem sabe a concretizar-se. Essa maravilhosa e estranha sensação, foi de meu saudoso pai que a recebi; e, fato curioso, ela vive em mim com cada vez mais intensidade depois que, em 2013, o meu querido pai e mestre nos ensinamentos que me alargaram a visão de mundo, professor Pedro Ghislandi, partiu para outra dimensão. Será que ele vive tão profundamente em mim?

Encontro com diversas pessoas interessantes. Porém, encontros sem encanto, porque pouco ou nada têm a me dar. Meu espírito busca o essencial, e todas essas criaturas parecem aceitar tranquilamente a vida, ignorando o espanto e o terror que representam o sentir-se rodeado de um mundo desconhecido.

A existência me aparece como um caos de dor infinita. Como explicar esse fato estranho de que, sobre uma criatura feliz segundo o conceito terreno, como é o meu caso, venha ecoar de forma tão atroz a dor universal?

Perpetuamente, por sobre a face da terra, há criaturas sofrendo cruelmente, seja no corpo ou na alma. E esses padecimentos, essa penosa e ininterrupta tortura, carecem totalmente de sentido. Mas é esse o pensamento e a visão que teimam em me atormentar! E eu aqui, letárgico, a decorar o calabouço que me cabe com livros e almofadas…

Jornalista Émerson Ghislandi