Um festival contra a barbárie

12/05/2019 08:00

É um tempo difícil para os artistas e profissionais da cultura no Brasil. Como se não bastassem os cortes de verba no principais meios de fomento federal do país, há ainda a criminalização das artes por uma parcela da população que se diz conservadora, mas acaba se revelando apenas dotada de uma ignorância atroz. Não dá pra ser crítico às artes sem nunca ter ido ao teatro,  sem ter prazer com a literatura e música brasileira. Não dá para confundir Kafka com Kafta, não saber sequer pronunciar a palavra cônjuge e ainda querer decidir os rumos do país. Como almejar uma pátria capaz de escolher seus governantes com gente que apoia a sangria desenfreada no orçamento da educação e da cultura? É por isso que toda iniciativa de fomentar as artes acaba por se tornar revolucionária nesse cenário dado è emergência de ideais facistas no Brasil, e é por isso que um festival como o Toni Cunha é marcante no contexto da produção das artes no país.  

Público em frente ao Teatro Municipal de Itajaí, na expectativa da abertura do Festival Toni Cunha. Foto: Leonam Nagel

Já há anos que observo com atenção e admiração o movimento cultural de Itajaí, em Santa Catarina. A organização dos artistas em sugerir e lutar pela aprovação de pautas culturais ao poder público e a participação na gestão de projetos que visam difundir e profissionalizar os artistas da cidade são um exemplo a ser seguido por todos os municípios de médio porte do Brasil. Itajaí possui um mecenato municipal que funciona há anos, oxigenando a produção e inserindo a participação das empresas na consecução dos objetivos da cultura no município. A cidade conta com editais de circulação de espetáculos locais nas escolas, de lançamento literários de autores do município, espaço para as artes visuais e musicais da região. Essas são apenas algumas das iniciativas que fazem da cidade um pólo de artistas criadores com repercussão e premiações nacionais.  

O Festival de Teatro Toni Cunha, já em sua 6ª edição, é uma dessa iniciativas realizadas pelo poder público municipal de Itajaí, com ampla participação de toda classe teatral da cidade. São bem raros os festivais municipais de teatro realizados especificamente com verba municipal, e mais rara ainda uma participação tão ativa dos artistas locais em um festival do porte do Toni Cunha. Neste ano, em que as verbas da educação e da cultura sofreram cortes significativos, para não dizer asfixiantes, o Toni Cunha expandiu não apenas sua duração, mas o número de espetáculos. Além disso, através da sua curadoria, colocou em questão temas imprescindíveis e urgentes da política nacional. 

A atriz Renata Sorrah em cena no espetáculo de abertura, Preto, da Cia Brasileira de Teatro. Foto Leonam Nagel

A curadoria levou em conta em suas escolhas as discussões sobre o perigoso clima de ódio ao diferente e a valorização do obscurantismo na sociedade brasileira contemporânea. Os experientes Felipe de Assis, Jorge Vermelho e Luciana Romagnoli salientam no texto curatorial que “neste momento de constantes esforços de aniquilamento das diferenças, das sensibilidades e do pensamento crítico no país, propomos nesta edição do Festival Toni Cunha um encontro com obras que nos convidam a ousar imaginar outras possibilidades de ser e de conviver”. E de fato, em tempos em que o genocídio negro avança a passos largos no país e que uma ala de evangélicos que propaga o ódio e a ignorância a grandes borbotões, e juntamente com os militares, assume ministérios estratégicos, pensar pacificamente o convívio entre os diferentes é uma ousadia. 

 

Espetáculos de grande relevância nacional, que colocam em evidência o preconceito e o assassínio indiscriminado de populações vulneráveis, como Preto, da Cia Brasileira de Teatro; Vaga Carne, solo da atriz e dramaturga Grace Passô, uma das vozes mais atuantes da dramaturgia contemporânea brasileira, que discute questões ligadas à identidade e pertencimento, ou mesmo  Nós, do Grupo Galpão, que a partir de uma perspectiva política discute questões ligadas à violência e à intolerância, entre outros, demarcam uma mensagem bastante clara ao público, e o convidam a refletir sobre os destinos da sociedade brasileira a partir de suas representações através do teatro. 

Cena do espetáculo Cartografia do Assédio, da Karma Cia de Teatro. Foto: Leonam Nagel

A produção local e catarinense, fortemente presente no evento, também evidencia essas questões. Cartografia do Assédio, da Karma Cia de Teatro, discute a presença do feminino em um mundo urbano caracterizado pela violência masculina; Índice 22, da Téspis Cia de Teatro, fala sobre a espetacularização da violência; Jogo de Guerra, do Erro Grupo, se inspira nos protestos de maio de 68 para questionar o que é possível fazer na rua neste maio de 2019. Além disso, e dos vários outros espetáculos que movimentaram a cena do município nesses dias, debates, atividades formativas e encontros com os artistas aprofundaram as temáticas levantadas em cena. 

 

Em uma época em que os ânimos estão exaltados em lados opostos, e em que a cadela do fascismo ladra com insistência assustadora, a iniciativa de um festival que traga à tona questões tão urgentes a partir de seus espetáculos assume não um ar meramente de revolta ou conscientização, mas de participação de um público que não busca apenas entretenimento ao ir ao teatro, mas também discutir os rumos de um país onde a maluquice de governantes que preferem armas aos livros e atiradores a professores é notícia no mundo. É o momento histórico, como afirmei em outro texto, onde os espectadores tem a possibilidade de se distanciar da massa opaca que vê a tudo inerte na escuridão do teatro, e falar sobre os temas que viram em cena, de debater, de construir com sua visão um novo olhar perante as arbitrariedades e os perigos que emergem na atualidade brasileira. 

 

Serviço:

Espetáculo de encerramento do Festival Toni Cunha

Nós - Grupo Galpão

Quando: 12/05 às 20h

Onde: Local: Teatro Municipal de Itajaí 

Classificação indicativa: 16 anos 

Duração: 1h30 

Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia entrada)


 

 

Autor: Afonso Nilson

Este blog é atualizado também por Karoline Gonçalves e Daniel Barros

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