Lançamento do livro A Inquieta Poética da Busca + 05 perguntas ao ator e pesquisador Jônata Gonçalves

08/12/2018 10:23

Hoje (08/12) o jornalista, ator e pesquisador Jônata Gonçalves lança seu primeiro livro, A Inquieta Poética da Busca: um olhar sobre o corpo no corpo da Téspis Cia. de Teatro, na Itajaí Criativa – Residência Artística, às 20h30.

O livro é fruto de sua dissertação de mestrado na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e narra a trajetória de vinte e cinco anos da Téspis Cia. de Teatro. Além disso, a obra analisa a relação do grupo catarinense com a Periplo Compañia Teatral (B.As – Argentina) e o processo de construção do espetáculo Esse Corpo Meu, um dos mais recentes da Cia.

Financiado pela Lei de Incentivo à Cultura de Itajaí, o livro integra uma série de ações que ao longo dos anos vem colocando Itajaí como protagonista como exemplo de políticas públicas eficientes para difusão da cultura.

Autor Jônata Gonçalves. Foto: Nelson Jr.

Jônata Gonçalves da Silva integrou elencos de diversos grupos da região de Itajaí, como Anchieta Artes Cênicas, Ilustríssimos Senhores e, atualmente, a Téspis Cia de Teatro. Foi um dos membros da comissão organizadora do II Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha e foi coordenador geral em sua terceira edição. Com forte atuação nas políticas culturais da região, fez parte da equipe de Departamento de Programas e Projetos Culturais da Fundação Cultural de Itajaí e foi assessor de direção do Teatro Municipal de Itajaí.

Abaixo, cinco perguntas sobre o livro A Inquieta Poética da Busca, e sua relevância para a historiografia da artes cênicas em Santa Catarina.

1 – Seu livro fala sobre a trajetória da Téspis Cia de Teatro, a relação do grupo com a Periplo Compañia Teatral e o processo de construção do espetáculo “Esse Corpo Meu”. Você poderia falar um pouco sobre como se deu a escolha desses temas específicos para elaboração do livro, e em como eles se correlacionam para constituir uma linha historiográfica da trajetória da Téspis?

O livro “A inquieta poética da busca” é fruto da dissertação que defendi no mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Teatro na Udesc. A ideia de elaborar um estudo sobre esses temas veio muito naturalmente, pois sempre me interessei no trabalho do ator e o seu corpo ou, como eu menciono no livro, a unidade corpo-ator. Assim que comecei a delimitar o projeto de pesquisa, percebi que tinha, muito próximos a mim, exemplos práticos daquilo que eu queria estudar. Percebi que a Téspis, embora esteja sempre em busca de novas linguagens que atendam às suas inquietações artísticas, mantinha um tipo de poética corporal que era possível identificar em toda a sua obra. Sendo assim, defini a companhia como meu objeto de estudo e trouxe teóricos que pensam a questão da corporalidade do ator na cena para me ajudar na elaboração da pesquisa.

Ao me aprofundar na história do grupo, percebi também um marco em sua trajetória quando do contato com a Periplo Compañía Teatral de Buenos Aires. Em 1997, quando a companhia argentina veio pela primeira vez ao Brasil, já houve a identificação e o interesse, por parte da Téspis e de outros grupos de Santa Catarina, em estudar a metodologia do trabalho do ator que Diego Cazabat (diretor artístico da Periplo) e o seu grupo demonstravam em oficinas e espetáculos. A Periplo apresentava uma poética pautada no método de ações físicas, de partituras corporais e do aprofundamento da característica do corpo do ator, de ser também detentor potencial de dramaturgia. E desde esse contato inicial na década de 1990 até hoje em dia há uma relação fraternal entre as duas companhias. Um intercâmbio criativo que já rendeu muitas parcerias, seja a Mostra Internacional de Teatro de Grupo, organizada pela Téspis com a curadoria de espetáculos internacionais pela Periplo, seja a criação de espetáculos juntos. O último capítulo do livro se ocupa justamente da construção do espetáculo Esse Corpo Meu?, uma coprodução das duas companhias.

Capa: A Inquieta Poética da Busca

2 – A documentação sobre a história recente do teatro brasileiro é repleta de lacunas. Nesse contexto, como você localiza sua obra no sentido de contribuir para um possível mapeamento ou mesmo reflexão sobre o fazer teatral em Santa Catarina?

Esse é um questionamento interessante que reverberou até mesmo na defesa da minha dissertação. Uma das professoras que participaram da banca foi a Fátima Lima, que comentou, justamente, sobre a ausência de estudos sobre os grupos teatrais de Santa Catarina na academia. Disse que viu e vê muitas pesquisas a respeito de grupos e movimentos culturais da Europa, da Ásia, do Rio de Janeiro ou de São Paulo. “E os nossos, como ficam?”, foi a intervenção que ela fez, apontando para a produção da Téspis, cujas obras não devem nada a exemplos mais tradicionais e reiteradamente estudados do fazer teatral.

Ou seja, a própria academia reconhece que nossa história teatral ocupa ainda um espaço muito marginal. A própria Fátima Lima, nesse momento, foi quem apontou a importância de se publicar a pesquisa. Da conservação e do registro da nossa história. Embora o livro seja focado na Téspis, a produção da pesquisa exigiu que se elaborasse também o contexto social, político e cultural que permeou os 25 anos da companhia. E como a Téspis sempre realizou muitos circuitos e participou de muitos festivais, escrever sobre a companhia também foi escrever sobre a história de desenvolvimento e profissionalização de um movimento teatral maior, que se iniciou na década de 1990 aqui no estado.

3 – Você é ator da Téspis Cia de Teatro, possui uma relação de trabalho de anos com o grupo. Como foi escrever o livro estando imerso nos processos de criação e gestão do grupo? De que maneira isso facilitou ou dificultou a sua escrita?

Essa também foi uma preocupação minha no início da pesquisa. Eu me perguntava como seria essa escrita, estando envolvido e sendo cúmplice de um período da história da companhia. No fim, o que me deixava receoso acabou me auxiliando, porque pude iniciar a investigação a partir das impressões que eu colhia como alguém que participou dessa história, para então ganhar o distanciamento necessário e desenvolver um senso crítico na elaboração da pesquisa. Por causa dos anos em que estive na Téspis (2012-2017), conheci muitas pessoas que também puderam me dar informações sobre a companhia e que também me ajudaram a apurar os fatos. Devo muito desse exercício de escrita, de aproximação e distanciamento do objeto de estudo, aos anos de jornalismo.

4 – Quais outros grupos você destacaria como preponderantes na história teatral recente de Santa Catarina? Você, em algum momento, pretende escrever sobre eles também?

Eu poderia citar alguns grupos que, na minha opinião, são responsáveis pelo desenvolvimento, manutenção e construção de uma produção e pensamento sobre um fazer teatral catarinense. Mas não quero correr o risco de esquecer algum nome e parecer leviano. Porém, tem algo que me inquieta dentro da pesquisa da nossa história teatral. Quando a Periplo veio ao Brasil em 1997, coincidentemente ou não, foi também um momento onde alguns grupos e artistas independentes começaram a se interessar pela linguagem do teatro físico. Conceito esse que foi trazido da Europa e que aqui ganhou um sotaque latinoamericano. Alguns foram a Buenos Aires estudar com a Periplo, outros foram a Campinas estudar com o Lume. Como foi o caso da Cia. Carona de Teatro de Blumenau, Dionisios Teatro de Joinville, Cia Experimentus de Itajaí, entre outros. Acredito que há aí um campo de pesquisa bem interessante. Mas isso é apenas um recorte da nossa história. Hoje em dia, Santa Catarina detém muitos grupos que realizam circuitos e festivais mundo afora. Gostaria de pensar que a publicação da “A inquieta poética da busca” provocasse mais pesquisadores a olhar para as produções e artistas locais. Precisamos de mais bibliografia sobre a nossa produção artística. E isso não é bairrismo, é manutenção da nossa história.

5 – Você poderia, de modo resumido, falar sobre a contribuição social e artística da atuação dos grupos de teatro, e mais especificamente da Téspis, objeto da sua pesquisa, para a cidade de Itajaí e região?

Itajaí tem uma particularidade em sua história. Desde a década de 1940, houve festivais por aqui, de todas as formas e expressões artísticas. Uma característica, eu diria, singular em seu DNA para reunir artistas e público. Isso se deve, majoritariamente, às pessoas que estiveram à frente de projetos ou ações que favorecessem a realização de eventos artísticos, assim como políticas públicas que amparassem e viabilizassem essas ações. Da mesma forma como a Téspis, outros artistas e grupos da cidade, seja de teatro ou outras áreas artísticas, protagonizaram lutas por melhorias dos espaços públicos para suas apresentações ou oficinas. Exemplo disso foi a batalha incansável de 10 anos em pressionar o Poder Público para construir o Teatro Municipal de Itajaí. Os artistas foram protagonistas na realização de mostras e festivais que viabilizaram o intercâmbio de suas obras para fora de Itajaí, e permitiram que o fluxo contrário se estabelecesse também. Quanto à Téspis especificamente, esse trabalho vem sendo executado, a par de todas essas lutas e movimentos dos quais a companhia também participou, com os cursos e as oficinas que ela tem oferecido desde a sua origem, seja na Casa da Cultura Dide Brandão de Itajaí ou em suas sedes, sempre no intuito de ensinar, promover e fomentar a arte teatral. Foram e são muitas as pessoas que também traçaram caminhos parecidos como importantes agentes culturais da cidade, mas não tenho dúvidas de que a Téspis, completando este ano seus 25 anos de história, deu uma contribuição muito importante para Itajaí.

Serviço:

Lançamento do livro “A Inquieta Poética da Busca: um olhar sobre o corpo no corpo da Téspis Cia. de Teatro”, do autor Jônata Gonçalves

Quando: Dia 08 (sábado), às 20h30

Onde: Itajaí Criativa – Residência Artística (Rua Dr. Pedro Ferreira, 222 - Centro, Itajaí – SC)

Quanto: Gratuito

Autor: Afonso Nilson

Este blog é atualizado também por Karoline Gonçalves e Daniel Barros

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