05 perguntas à escritora Vanessa Trajano, que está em Itajaí para ministrar oficina de escrita criativa

19/06/2017 09:11

A escritora Vanessa Trajano está em Itajaí para ministrar uma oficina de escrita criativa no Sesc. Serão 20 horas de exercícios de escrita, análises dos textos dos participantes e dicas sobre o mercado editorial, alternativas de publicação.

Vanessa é piauiense, e vem alcançando notoriedade com seus livros, principalmente o livro de contos eróticos Mulheres Incomuns. Ela é um dos novos e mais importante nomes da literatura feminina do nordeste brasileiro. Está em Itajaí através do projeto Arte da Palavra, que possibilita o intercâmbio de escritores por todas as regiões do Brasil

Abaixo, cinco perguntas para escritora Vanessa Teodoro Trajano:

1) Como você vê a participação da mulher e de temáticas sobre o feminino no mercado editorial brasileiro?

Sou suspeita pra falar do assunto, até porque vejo o óbvio de quem está dentro da situação. É claro que a mulher hoje publica muito mais que outrora, e desconfio que finalmente tenhamos nos equiparado aos homens no mercado editorial. Todavia, quando o assuno é cânone, ainda me sinto um tanto incomodada com a lista ínfima de escritoras ao lado de outra quase interminável de escritores. Sinto que a mulher ainda não é vista com a devida seriedade, se for jovem então… Porém, as temáticas me agradam. Desde que Sofia de Quincas Borba mudou a minha vida aos 14 anos não tenho muito do que reclamar.

2) O que te motivou a escrever e quais foram suas principais influências?

Eu aprendi a ler e a escrever antes de ir a escola. Quando completei 3 anos, minha mãe sentou comigo e disse, como que profética: será alguém na vida. E me ensinou o alfabeto e a escrever algumas palavras como bola, pato, gato… Ao perceber que eu tinha curiosidade pelo resto, meu pai comprou-me livros inafantis e revistas em quadrinhos. E desde então não parei mais. Devorava. Quando entrei na escola, no ano seguinte, a diretora pretendia me remanejar do Jardim 1 direto para a alfabetização, mas a minha mãe não queria que eu pulasse etapas. O detalhe interessante nessa história toda é que minha mãe é semi-analfabeta e meu pai não terminou o ensino médio, mas não queriam que isso se repetisse comigo. Imagine que escrever foi inicialmente mera consequencia de muita leitura. Eu sempre quis ser escritora. Hoje eu posso dizer que sou. E claro que algumas das minhas influências mudaram ao longo dos anos, mas outras permaneceram. Por exemplo: Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Machado de Assis nunca vão sair da minha estante.

A poetisa Vanessa Trajano, que ministra oficina de escrita criativa de 19 a 23/06.

3) Você vai ministrar uma oficina para escritores em Itajaí. Pode adiantar alguma dica ou conselho para quem pretende ou está começando a escrever literatura?

Certa vez vi uma jovem escritora dizendo que não gostava de ler os clássicos. Não preferir a eles é diferente de não lê-los de jeito nenhum. Isso reflete em sua escrita. Creio que se não ter na sua bagagem uma boa leva de clássicos nunca passará de um jovem escritor, que não tem nada a ver com a idade. A maturidade linguística vem com a humildade em querer aprender com aqueles que já vieram antes de você e lá ficarão, sempre, quer você os procure ou não. Certa vez ouvi de um escritor nosso, Assis Brasil: leia 10 livros, no mínimo, e escreva um. Acrescento: leia mais dez e faça a reescrita. Finalize com mais dez antes de fazer a última revisão.

4) Em 2014 você lançou a antologia de poemas eróticos, Poemas Proibidos. Como você vê a relação entre erotismo e literatura?

A relação do erotismo com a literatura é a mesma da poesia marginal: transgressão. Colocamos o sexo à margem porque nos ensinaram a ter medo dele, da mesma forma que o povo, ao manifestar pelos seus direitos, é sempre tido como vândalo na mídia. Ainda bem que temos a arte para ficarmos mais à vontade: desnudos, longe de amarras e mordaças, fatalmente humanos. O erotismo está intrínseco ao ser humano, e é de difícil conceituação. No entanto, a literatura é justamente a arte responsável em dizer as coisas indizíveis.

5) Muito raramente temos a oportunidade de ter contato com escritores das regiões norte e nordeste. Da mesma forma, acredito que escritores do sul também tenham dificuldade em encontrar leitores nessas regiões. Além da distância, a que você atribui essa dificuldade de comunicação entre escritores de regiões tão distintas?

Não acho que a distância seja exatamente física entre esses extremos. Acredito que se no Brasil tivéssemos mais projetos que possibilitassem esses encontros e trocas seria, sem dúvida, muito mais proveitoso. Mas certa vez um artista daqui a quem admiro muito, disse: quem tem que fazer alguma coisa pela arte são os artistas! Os políticos fazem suas politicagens, e etc etc etc. Quem fará esses projetos? E o que seria esse projeto, afinal? Desconfio que se você não faz parte do eixo Rio-São Paulo não é visto, simplesmente. Ou eu posso estar enganada. Espero que o projeto Arte da Palavra, a qual sou imensamente grata, se reproduza e se multiplique em diversos outros formatos, e nunca, em hipótese alguma, acabe. Risos.

Serviço: 

Oficina de escrita criativa com Vanessa Trajano

Onde: Sesc Itajaí

Quando: de 19 a 23 de Junho, das 19h às 22h

Quanto: gratuito

Autor: Afonso Nilson

Gestor de cultura, crítico e dramaturgo. Participa regularmente de curadorias para mostras e festivais nacionais de artes cênicas. Publicou em 2014 o livro Pequenos monólogos para mulheres (E-Galáxia / Chiado Editora) coletânea de textos teatrais curtos. Doutorando em teatro pela Udesc com pesquisa sobre crítica teatral brasileira. Mais informações em www.afonsonilson.com.

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