Quarentena a bordo de um veleiro, por Beto Pandiani

18/03/2020 10:54

Beto Pandiani é um dos principais navegadores e exploradores do mar do planeta.

O velejador já fez diversas travessias nesses 20 anos de carreira e deve somar muitos anos confiado a bordo de um veleiro pelos mares do mundo.

Em suas palestras, como iria fazer no Velashow em abril (cancelado pelo CORONAVÍRUS) divide essas experiências com o público.

Em 2021, o navegador fará a Passagem Noroeste, entre o Norte do Canadá e o Alasca. A equipe vai fazer a regata no sentido Pacífico para Atlântico, saindo do Alasca e indo para Groenlândia.

Mas, como o tema do momento é a quarentena, vale a leitura.

 

Leia o post na íntegra

Quero falar sobre a experiência de ficar confinado em uma quarentena.

Talvez o que eu melhor aprendi nestes últimos anos foi viver com o estritamente necessário em um espaço confinado.
A vida a bordo no meu catamaran me deu muita vivência para poder compartilhar algumas ideias e situações que passei.
A princípio um barco a vela no meio do mar é uma minúscula ilha cercada de água por todos os lados. No nosso caso, ainda estamos expostos ao Sol, ao frio e a chuva.

Existe uma postura fundamental para diferenciar a experiência em meu barco. Ela poderia ser traumática se fosse imposta, pois seria como viver em uma prisão flutuante privado de tudo. Amigos, cama, conforto, geladeira, caminhada, alimentação adequada, etc. Por outro lado, por ter sido uma escolha, mesmo sendo um barco super espartano, pois não tem cabine e nem motor, as viagens foram experiências inigualáveis, mesmo com todas as dificuldades, e apuros que passamos.

Mas qual é a postura que transformou um castigo em um prêmio? A vontade de se lançar em uma vivência nova, sem precedentes, onde não sabíamos como seria mesmo com um excelente planejamento. Desde a primeira viagem percebi que tão legal quanto viajar é aprender, se desenvolver, e voltar para casa muito melhor do que quando sai. Sou fascinado pelo novo, pelo inédito, pois creio que não experimentamos nada que não somos capazes de lidar.

Vou enumerar o que eu considero elementos chaves em uma travessia.
1. A equipe. Tudo começa com quem você vai viajar. Este item traz uma complexidade enorme, e certamente é o maior desafio. O que percebi? O melhor jeito de fazer uma grande viagem com o meu companheiro foi focando nas necessidades dele. No caso das travessias do Pacífico e Atlântico, com o meu querido amigo Igor Bely, adotamos um procedimento espontâneo de um cuidar do outro. Assim eu estava sempre atento ao seu comportamento e vice-versa, desta forma criamos uma sintonia e uma extraordinária confiança que foi fundamental nos momentos de quebras de peças e nos dias de mau tempo. Ou seja, criar confiança e companheirismo é imprescindível.

2. Como vamos viajar? Vamos em uma embarcação limitada, onde viveremos restritos e limitados aos recursos. Sabemos que no barco teremos o básico, essencial e nenhum desejo terá espaço. Qual a chave deste aspecto? Aceitação. Não tem nenhuma situação que possa acontecer que mude esta condição, ou seja, não vamos nos frustrar pois não criamos expectativas.

3. O que fazer com o tempo? Aqui na vida da cidade todo mundo reclama que não tem tempo, eu mesmo já me queixei muitas vezes. Ai de repente você tem todo o tempo do mundo, e não sabe o que fazer com ele. Sim, isso aconteceu comigo várias vezes, e toda a vez que isso acontece eu preciso de um tempo para me adaptar. Na verdade, a pergunta é outra. O que eu faço comigo diante do tempo? Pois bem, esta questão não posso responder de forma genérica, pois cada um é um oceano, mas comigo aconteceram vários mergulhos nas minhas lembranças relativas as minhas experiências emocionais, e como eu me via com tempo para refletir em cada uma destas situações, pude reequilibrar e rever posições. Foram muitas semanas de catarse. Vieram choros, risadas, e uma sensação muito boa de alívio, de não levar as coisas de maneira tão séria e rígida. O mar tem destas coisas, pois a água salgada amolece o coração. Conclusão, perdemos muito tempo em enredos emocionais que poderiam ser resolvidos com muito mais rapidez. Percebi que o tempo é o bem mais precioso que nos é dado, mas que na maior parte da vida o tratamos com irresponsabilidade e leviandade. Somos perdulários do tempo.

4. Em toda viagem vamos ter períodos de mau tempo, vento favorável, calmaria, vento contra, exatamente como na vida. Neste momento aparece uma força dentro de mim que se chama de resiliência. A resiliência só pode continuar a existir se você sabe aonde quer chegar, e tudo passa a ter sentido, pois esta experiência te dá a noção do que é um propósito. Caso contrário não é possível buscar motivação para ir além. Tenho plena convicção que nascemos neste planeta para ir além da programação, além dos maus costumes, dos vícios, da ideia de que somos imperfeitos. Tudo isto é uma ilusão que está presa na mente. O ato de nos lançarmos em uma travessia qualquer, já é uma demonstração de que viemos para cá para transformamos uma realidade.

5. Sem planejamento uma viagem se torna um inferno. Deve se ter bem claro onde vamos chegar e o que vamos precisar levar, e o que devemos deixar em terra. Os apegos nesta hora vão aparecer. Quem não tem apegos? Todos nós temos. O bom planejador olha o futuro na tela da sua mente e faz um exercício imaginativo tentando prever todas as situações. Mas tem algo que nenhum ser humano é capaz de fazer. Prever o imponderável. E quando ele acontece, o que fazer? Ah, esta é a questão fundamental deste texto, pois o que estamos vivendo é exatamente isto. O imponderável.
Pela minha experiência e depois de sete grandes viagens, aprendi que o imponderável é uma constante. A vida é uma jornada imprevisível com alguns momentos de constância. Criar uma expectativa diferente desta afirmação gera muito sofrimento.
Muita coisa deu o que eu chamava de errado. Hoje eu mudei a palavra. Aconteceu o que eu precisava aprender. No começo eu caia na vala do fatalismo, da reclamação, praguejava com a peça que quebrou, ou com a tempestade, mas logo vi que estava indo na contra mão da vida. De certa forma o imponderável é uma força, ou evento incontrolável, impossível de prever que acontece para nos testar. É assim que eu vejo. Depois de cada crise vencida, de cada situação resolvida, soluções criadas, fomos ganhando o principal atributo que um ser humano precisa ter na vida. CONFIANÇA.
São duas as confianças. A confiança na própria capacidade, e em seus atributos, e a confiança de que tudo acontece da maneira mais adequada na sua vida.

Bem minhas amigas e meus amigos, estamos literalmente no mesmo barco, e isso é muito positivo. Este barco que me refiro é a nossa vida aqui no planeta, e esta travessia será feita por milhões de pequenos barcos, onde todas estas equipes terão que enfrentar todo tipo de turbulência, mas nunca se afastem do objetivo, do propósito e do entendimento que o mar que vamos cruzar é fruto de um merecimento. Como disse no início, se ele será um aprisionamento ou uma oportunidade de desenvolvimento, depende da sua escolha.

Um grande abraço e ótima navegação.
Beto Pandiani.
Foto Beto Pandiani
Travessia do Atlântico com Igor Bely