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Os problemas e as delícias da vida à beira mar

DIARINHO ouviu turistas e comerciantes que deram a real sobre as praias mais frequentadas de Balneário Camboriú, Itajaí e Navegantes

Texto: Renata Rosa
Fotos: Elton Damásio
Especial para o DIARINHO

Assim que o verão chega, o litoral catarinense é invadido por milhares de turistas ávidos pelas belezas naturais e atrações de um dos destinos preferidos de brasileiros e hermanos. Mas nem tudo é sombra e água fresca. Acompanhe o que a reportagem apurou no último finde sobre o que temos de bom e o que deixa a desejar na praia Central de Balneário, na praia Brava em Itajaí e em Gravatá, em Navegantes.
No sábado de manhã, a família do comerciante José Mannus, 58 anos, de Iretama, do Paraná, se refestelava debaixo de um gazebo na praia Central de Balneário, acompanhados do símbolo deste verão: o isopor. Ele conta que sempre traz a família para passar uma semana na Maravilha do AtlânticoBalneário Camboriú, depois do fervo de Ano-Novo, quando os preços caem. Mesmo assim, se assustou com o valor da hospedagem. “No ano passado, a diária de um apartamento de três quartos atrás do shopping Atlântico custava R$ 450. Este ano, pagamos R$ 700”, reclama.
Fora o preço salgado, ele é só elogios. “As meninas ficam na praia até tarde porque a praia é iluminada, o que aumentou a segurança. Gosto de cidade movimentada”, elogia. O comerciante também curte o fácil acesso à praia e o mar calmo, que acredita ser seguro para o banho. O que ele não sabe é que onde eles estavam é um dos pontos impróprios, segundo testes Fatma do dia 2. Segundo o relatório, dos 14 pontos coletados da cidade, apenas 35,7% são próprios, e dos nove impróprios, sete ficam na praia Central.

Cidade vibrante
Élio Manezani, 44 anos, e Wasghinton de Oliveira, 54, são motoristas de ônibus de turismo e também aproveitam a estadia para curtir o verão por aqui. Eles são de Uberaba (MG) e trazem os mineiros pra cá há 20 anos. Um dos problemas apontados é a falta de estacionamento. “Antes, havia uma placa para embarque e desembarque de passageiros e mudaram para carga e descarga. Isso confunde os motoristas. Além disso, somos ameaçados pelos agentes de trânsito, mas não podemos fazer nada, apesar de sabermos que o trânsito fica parado, que piora muito quando cai um temporal”, justificam. Élio sempre traz as filhas Brenda, 19, e Bianca, 16, que ficaram encantadas pela cidade cheia de barzinhos e praias. Elas preferem a de Laranjeiras por considerarem a Central muito poluída.
Já a produtora rural Maria José Trindade, 59, veio de excursão e visita Balneário pela segunda vez. Ela sempre fica hospedada no Camboriú Plaza, na esquina da Alvim Bauer com a Brasil, ou seja, no meio do burburinho. “É uma cidade 24h que tem menos ladrão do que na minha região”, afirma. Maria também elogia a quantidade de atrações da cidade, como o Parque Unipraias, os passeios de barco e o Bondindinho.
O gerente do hotel, Gilberto Nunes, disse que os brasileiros estão em maior número pela primeira vez. “Antes eram 60% de argentinos e 40% de brasileiros, agora inverteu”. O hotel está com 85% dos leitos ocupados e depois do dia 15, deve cair 75%.
Outro que está feliz com a temporada é o proprietário do restaurante de self-service Gralha Azul, Luis Bombardini. Depois de um ano difícil, ele viu o público aumentar. “Tem gente que vem de Curitiba provar meu galeto”, se orgulha. A funcionária Cristiane Dias, 28, disse que já tiveram que despedir funcionários em 2015, mas uma nova leva de clientes chegou, migrando de restaurantes mais caros. “Principalmente quem aluga casas e apartamentos tem vindo aqui através das indicações, e isso botou as contas em ordem”, comemora.

Táxis clandestinos
Mas, se hotéis e restaurantes populares não têm do que reclamar, o mesmo não acontece com os taxistas. Apesar do Ubber não ter chegado a Balneário, eles reclamam da concorrência com os táxis particulares clandestinos. “Se um ambulante aparecer sem o alvará os fiscais estão em cima, o mesmo não acontece com os táxis ilegais”, conta Márcio Martins, 38, há 15 anos no ponto da Alvim Bauer. Ele disse que, por isso e pela falta de grana, o movimento caiu pela metade.

Balneário Camboriú

Bom:
• Mar calmo
• Cidade 24h
• Boa infraestrutura
• Boa acessibilidade
• Muitas atrações

Ruim:
•Praia poluída
•Falta estacionamento
•Engarrafamentos
•Preços altos
•Alagamentos

O que as autoridades falam das críticas do povão
Segundo o gestor do fundo Municipal de Trânsito, Émerson Dias Gonçalves, a carência de vagas é provocada pela falta de rotatividade, já que a empresa que prestava o serviço teve o contrato cancelado no ano passado. Quanto aos táxis, o secretário de Planejamento e Obras, Edson Kratz, disse que vai chamar os sindicatos dos municípios vizinhos. “Não temos mais fronteiras, então é natural que taxistas de fora tragam turistas, mas não podem ficar circulando”, afirmou.
Em relação aos alagamentos, ele disse que se deve a falta de manutenção dos 25 pontos de coleta de esgoto. “Já foi feita a macrodrenagem, mas não atuaram de forma preventiva. Estes equipamentos devem funcionar permanentemente”, avalia. Edson disse que o governo deve dar atenção especial à mobilidade urbana, principalmente para os pedestres, além de criar tarifas diferenciadas de estacionamento. “Não dá para tantos carros circularem com só uma pessoa dentro”, conclui.
Sobre a poluição, o secretário de Meio Ambiente, Luis Henrique Gevaerd, disse que vai precisar de um esforço conjunto para despoluir a baía de Camboriú. “Os oito cursos d’água estão comprometidos. Precisamos intensificar a fiscalização das ligações clandestinas e cobrar da Fatma a colocação de placas de balneabilidade. Dos nove pontos da praia Central, há só duas”.

PRAIA BRAVA: Turistas reclamam de falta de wc e ducha
Se em Balneário, a reportagem não encontrou argentinos, na praia Brava eles estavam marcando presença, apesar de se hospedarem num hotel da cidade vizinha. A trupe formada por Santiago Cometto, 25, Carolina Vitola, 30, Rocio Vinderola, 23, e Nicolas Julliar, 34, era só elogios. Eles costumavam ficar na praia de Canasveiras, em Floripa, mas este ano, decidiram passar uma semana no litoral norte por indicação de parentes. “As pessoas daqui são muito simpáticas e prestativas. Sempre nos ajudam a nos orientar e tentam falar nossa língua porque não entendemos o português”, disse Carolina.
O grupo elogia a beleza da paisagem, a boa qualidade da água e a sinalização sobre os locais mais perigosos, assim como o trabalho dos salva-vidas. São sete postos na Brava e quatro salva-vidas em cada um deles. Na manhã de sábado, a reportagem chegou no exato momento em que retiravam um jovem de 21 anos da água, arrastado por um canal que se formou no mar. O único ponto impróprio para banho da praia é próximo à lagoa.

Cadê o rango?
Os hermanos também curtem a água mais caliente do que em Mar del Plata, que costumam frequentar na Argentina. E trouxeram um isopor para que o dinheiro renda mais. “O câmbio para nós também facilitou, e não precisamos mais trazer dólares, só cartões de crédito”, comenta Rocio. Para a Brava ser melhor, eles sugerem a implantação de banheiros com duchas e mais quiosques de comida. “Adoramos a comida brasileira!”
Quem abastece a galera que frequenta a Brava há quase 30 anos é o Érico, ícone da praia, outrora selvagem. O quiosque tem clientes fiéis e trabalha em esquema familiar. “Minha mulher estourou a bolsa enquanto estava na fritadeira. Depois, minha filha ficava no bebê-conforto em cima do balcão e hoje trabalha no bar”, relata. Profundo conhecedor da praia, Érico testemunhou as mudanças e disse respeitar as normas, atualizadas em 2013, e estampadas em seu quiosque. Mas reclama da invasão de empresários de fora e da falta de água nos quiosques, que lotam de gente querendo usar o banheiro. “Os turistas acabam refém de bares e restaurantes, que loteiam a praia e cobram o que querem”, relata.
Outro comerciante insatisfeito é Ricardo Tarantino, 57. Ele aluga cadeiras e guarda-sóis, mas, apesar de ter alvará, não tem local certo para trabalhar. “Eu tinha um carrinho de milho e ficava do lado de lá da avenida, mas venderam o terreno, por isso passei a alugar as cadeiras para as pessoas que vem de avião e ônibus. É um serviço de utilidade pública”, acredita. Ele aluga cerca de 60 itens por dia na alta temporada e trabalha bem em frente a placa de Wi-Fi aberto, cujo serviço nunca funcionou.
Ricardo conta que o turista, este ano, tem pechinchado mais. A proprietária da pousada Soleil da Brava, Fabiana Magalhães, 34, confirma que a grana anda escassa. “Temos feito promoções e oferecido bicicletas para andar na orla, onde não se pode mais estacionar. Isso foi muito bom porque diminuiu o barulho”, elogia. Ela abriu o empreendimento há quatro anos, mas nos últimos dois, viu o fluxo diminuir. “Falta valorizar a nossa praia e falta táxi. Parece que a prefeitura esquece que a Brava fica em Itajaí”, reclama.
A gerente da Academia do Açaí, Priscila Schina, 30, admite que o movimento este ano caiu 20%. Ainda assim, dobrou o número de funcionários de seis para 12. Ela não reclama da galera que vem com isopor. “Cada um sabe o quanto pode gastar, é natural”. O que ela acha ruim é a falta de estacionamento. “Nossa, é uma tragédia! As pessoas ficam rodando, rodando e não conseguem encontrar vaga ou fica muito longe, é uma pena!”

A Brava é nossa!
O secretário de Turismo, Evandro Neiva, disse que, como morador da Brava, sente as mesmas dificuldades. “Parece que o poder público nunca teve visão de longo prazo. Os quiosques estão defasados e falta padronização para oferecer outros serviços, além de um cardápio apropriado de praia, com preço acessível”, afirmou. Ele garante que já colocou a equipe na rua para fazer um diagnóstico e revitalizar a orla até Cabeçudas e incluir os dados no plano Municipal de Turismo.

PRAIA BRAVA

Bom:
• Praia limpa
• Bons restaurantes
• Bom atendimento
• Belas paisagens
• Serviço de salva vidas eficiente

Ruim:
•Falta de divulgação
•Falta de infraestrutura (duchas, estacionamento, wc, quiosques)
•Falta de táxis
•Mar bravo
•Falta de água nos quiosques

• GRAVATÁ
Falta estrutura e sobra sujeira
O empresário Ronei Pontizelli, 31 anos, é de Pouso Redondo e tem uma casa no bairro de Gravatá, em Navegantes. Ele estava acompanhado de Adílio Sardá, 29, que tem casa de veraneio em Bombinhas. Ronei conta que prefere ir para a casa do compadre, mas neste finde, está recebendo amigos da cidade natal. Ele diz que as vantagens do Gravatá são o trânsito tranquilo e muito lugar para estacionar. “Eu venho aqui desde pequeno e, infelizmente, a praia está cada vez mais suja. Não vejo a prefeitura limpar como em Bombinhas ou Balneário”, lamenta. O canto do Gravatá é um dos pontos impróprios para banho, segundo a Fatma. Outro ponto impróprio é em frente ao posto 7.
Não precisa ser muito observador para constatar os problemas do Gravatá. Depois da última ressaca que detonou a orla, é visível a sujeira deixada pelos destroços que descem o rio e pelos turistas, além dos muitos canos levando o esgoto para o mar. O deque também precisa de manutenção e faltam corrimões, podendo ocorrer acidentes. Já Adílio se ressente do atendimento dos ambulantes. “Eles não têm culpa porque não foram capacitados, mas falta gente para atender ao turista na praia, como em cidades”, acredita.
O vendedor de churros e coco Luis de Azevedo, 53 anos, também reclama da falta de recolhimento do lixo. “Eles tiraram as lixeiras e colocaram apenas sacos de lixo pendurados no deque, mas como tem mais lixo que lixeira fica sobrando”, relata. Luis disse que já colocou mais sacos, mas, em vez de recolher, a empresa colocou de novo em frente ao seu barzinho. Ele disse que a prefeitura poderia ter uma programação de verão com atrações musicais para chamar os turistas e também revitalizar a pracinha. A situação de descaso contribuiu para a piora nas vendas. O movimento caiu 20%.

Poucos leitos
Quem está na contramão da chiadeira é o casal Andressa Roecker, 27 e Leonardo Pavesi, 30. Como sempre vinha surfar na cidade, o casal juntou as economias e reformou uma pousada, cujo movimento cresce a cada ano por causa da falta de leitos na região. “É a nossa segunda temporada e já temos reservas para fevereiro”, conta Priscila, que quer aumentar o número de funcionários. Eles contam que na baixa temporada o movimento é garantido por causa do Beto Carrero. Mas sabe que nem tudo são flores. “Só existem dois pontos de táxi, no aeroporto e no centro, por isso fizemos parceria com um taxista”. Priscila também se ressente da falta de atrações. “Os turistas perguntam sobre passeios de barco, de caiaque, quadras de vôlei e não tem nada disso”, lamenta. O DIARINHO tentou entrar em contato com a prefeitura para questionar sobre os problemas, sem sucesso.

Gravatá

Bom:
• Trânsito tranquilo
• Próximo ao Beto Carrero
• Próximo a aeroporto
• Preços acessíveis
– Não faltam vagas de estacionamento

Ruim:
• Faltam atrações
•Falta infraestrutura
•Praia suja
•Deck quebrado
•Falta de capacitação dos ambulantes

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