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AS ONDAS

MAIS DO QUE VER, SENTIR 
AS ONDAS

Escola de Surfe dos Amigos da Atalaia inicia o ano proporcionando dia especial para Gabriel, o deficiente visual que, pela primeira vez, surfou

O gaúcho Gabriel Samersla Merçoni, 20 anos, talvez tenha sido aquele entre os alunos da Escola de Surfe Amigos da Atalaia (ESA) que mais aproveitou e curtiu seu primeiro contato com o universo das ondas na manhã de ontem, em Itajaí.
Apoiado nas lições do surfista e instrutor Ney Machado e dos demais instrutores voluntários da “escolinha”, como é conhecida, mais do que surfar sobre elas, Gabriel sentiu as ondas; vibrou; desafiou-as e conseguiu pelo menos três vezes um grande equilíbrio sobre elas.
Essa sensação toda se deu porque em Gabriel, a percepção e a sensibilidade são mais importantes do que qualquer outra coisa. O jovem gaúcho que chegou quarta-feira para morar com a família em Itajaí queria ir ao mar. Mas não pôde vê-lo. Gabriel perdeu a visão do primeiro olho aos três anos de idade, e aos 13, começou a sentir os problemas do glaucoma também no segundo olho. Em um ano, estava completamente cego.
Apoiado pelos pais e demais familiares, o estudante, que veio de Ijuí, RS, para morar na sempre boa e hospitaleira terrinha peixeira, não tem medo dos esportes. Já enfrentou outras modalidades, mas o surfe era mais que um grande desafio. “Eu tinha muita curiosidade, expectativa de aprender e dar o meu melhor nessa primeira vez”, narrou ao DIARINHO.
Nas águas da Praia do Molhe, em Itajaí, ele subiu na prancha pelo menos três vezes. E avançou sobre as ondas, firme e decidido. Caiu, claro. Todos caem. Mas em Gabriel, o sabor do desafio superado é ainda mais especial. “Virei nas demais aulas”, sentencia Gabriel, que se prepara para iniciar o curso de Direito.
O desafio de fazer de Gabriel um surfista não amedronta o surfista Ney, veterano das águas peixeiras e pelo qual passam mais de 1200 alunos da modalidade a cada ano. A ideia é que ele possa despontar na modalidade do surfe adaptado. Osny já teve alunos com deficiências visuais, físicas ou portadores de síndrome de Down, por exemplo, e ressalta que quem chegar com essas características na escola de surfe, será bem-vindo.
A atenção dos instrutores é dada também aos alunos convencionais, pois eles estão em maior número. Ontem pela manhã, na segunda aula do ano – a Escola de Surfe Amigos de Atalaia recomeçou após o recesso do final de ano – cerca de 30 crianças e adolescentes iniciaram o ano de aprendizado, pagando por isso apenas um quilo de alimento não-perecível e um litro de leite, que são revertidos às comunidades carentes. Gabriel chegou com os pais, foi apresentado e rapidamente se ambientou.
Ney e os demais professores, com a galerinha toda concentrada na areia, fez um estudo das correntes de retorno, explicando e simulando na areia como a coisa funciona, e passando dicas de segurança sobre as características tanto da Praia do Molhe como da orla da Atalaia. Como complemento, alongamentos na areia e uma oração de agradecimento a Deus.
A idade dos futuros surfistas, em geral, é variada – começa nos quatro ou cinco anos, e vai embora. O trabalho é acompanhado de pertinho pela Federação Brasileira das Escolas de Surfe, comandada pelo consagrado Rogério Santana Pinto, do Guarujá, SP, e o início na manhã de ontem não poderia ser com melhor astral: a gurizada atenta, o solzão a pino e a vontade de aprender estampada na cara da galerinha.

Lucas: surfe e caridade chamam atenção
Lucas Schwinden, 11 anos, aluno da Escola Básica Professora Maria José Hilze Peixoto, na Murta, é falante e cativante. Ele mesmo rodeou a reportagem do DIARINHO, ao vê-la em ação, e solicitou uma entrevista para falar o motivo de estar aprendendo a surfar. O pequeno, que já é ferinha do skate, conheceu a escolinha de surfe através de um dos instrutores, que é amigão do seu pai.
“Fui eu que quis vir”, fala, orgulhoso. “Antes eu não gostava muito. Agora vendo como o surfe é legal, acho que aprender vai ser fácil”, acrescenta. Lucas, entretanto, chega a dizer que não é só o surfe que a Escola da Atalaia proporciona. “Os professores são legais, gosto do Ney, e o que eu também acho bacana é o que eles fazem para ajudar o próximo”, revela o menino.
Lucas, o estudante da Murta que faz questão de frisar ainda que “tem boas notas” e “já sabe nadar”, acaba sendo o exemplo de que nesse projeto, como pode se ver, aprender a pegar onda passa a ser um detalhe. O mais belo destas almas dedicadas ao voluntariado é o despertar da capacidade de ajudar o próximo.

Josué quer fazer pranchas para doar quem precisa
Josué Oneda é um garotão tímido, mas que se solta ao começar a contar o quanto gosta do surfe. Aos 12 anos, o aluno da Escola Elias Adaime, no Cidade Nova, tem uma história diferente com o fascínio com as ondas. Ele via o surfe na TV desde pequeno, e sempre pensou em procurar uma forma de aprender. Na internet, ele pediu a doação de sua primeira prancha e alguns apetrechos. E conseguiu.
Hoje, Josué não pensa apenas em aprender a surfar e disputar eventuais campeonatos, mas sobretudo, a fazer da modalidade uma profissão. A primeira aula, com o professor Ney, foi marcante, e a história de vida do Ney chamou atenção.
“Eu quero ser fabricante de pranchas como o Ney. Aí vou poder doar para quem quer surfar e não pode, assim como eu ganhei a minha”, destacou Josué ao DIARINHO, após entrar pela primeira vez na água. A mãe Cristiane é a companheira e incentivadora, que sai do Cidade Nova de busão para levá-lo até as aulas.
“Esses relatos de alunos como o Josué, como o Lucas, são importantes. É a sementinha do bem que fica, pois precisamos ocupar essa turminha longe dos celulares, dos tablets, e principalmente das drogas”, destaca Ney, cujo fone de contato é o (47) 99718-936.

Um surfista das antiga que manda bem com a galerinha
Ney Machado é um abnegado. Aos 47 anos de idade, o peixeiro conhece bem cada ondinha que rolaACONTECE em Itajaí. É surfista há 35 anos – começou aos 12, quando pegar onda era “só coisa de maconheiro e bandido”, como ele mesmo diz, bem-humorado. Nestas três décadas e meia, superou preconceitos e ganhou espaço com um trabalho de respeito, que conta com pelo menos 10 instrutores, todos voluntários, e sobretudo, é desenvolvido pelas famílias dos surfistas – em geral, mulheres e filhos também comandam a Escola de Surfe Amigos da Atalaia.
Ex-gerente de uma empresa famosona de telefonia, Ney resolveu, anos atrás, mandar pras cucuias o dia-a-dia confinado num escritório. Começou a dar aulas particulares de surfe, e paralelo, montou sua oficina de confecção de pranchas. Hoje, tem até uma marca de roupa registrada no seu nome, a Local Mar, ainda em fase de estruturação.
A grana que Ney ganha durante a semana, com produção de pranchas, roupas e claro, com as aulas profissionais de surfe – dadas a profissionais liberais, advogados, corretores, médicos e outros velhões bambambãs do Itajaí – serve para deixar o veterano surfista afiadão para o projeto social com a criançada.
Na ESA, além das aulas propriamente ditas para a criançada, rolaACONTECE treinamento para campeonatos da modalidade, aulas de stand up paddle e ações ambientais, como limpeza das praias e educação ambiental. Com todas essas atividades, Ney diz que fica difícil sobrar um tempinho para participar de campeonatos em Itajaí e região. “Eu até vou, mas priorizo o projeto social nos finais de semana”, comenta ele, que integra a categoria gran máster, a dos veteranos do surfe.
Junto de Ney, surfistas voluntários como Marcio “Pitchio” e Cassiano Portes também fazem sucesso com a galerinha. Cassiano começou aluno, aprendeu a surfar, e hoje é instrutor e universitário. Depois dele, veio a esposa, o filho mais velho, e todo mundo foi se integrando. “Hoje, as aulas são dadas por uma grande família”, celebra “Pitchio”.

Rodas ao Mar: mais de 30 banhos 
refrescantes para os cadeirantes
O domingo não foi só de voluntariado e inclusão social por parte da Escola de Surfe Amigos da Atalaia. Integrantes do Rotary Clube também estavam a postos, na etapa final do projeto “Rodas ao Mar”, que proporciona banhos de mar para cadeirantes, também na Praia do Molhe.
O projeto totalizou neste ano cerca de 30 banhos de mar oferecidos a quem tem dificuldade de locomoção ou mesmo não consegue andar. A iniciativa é da Fundação Municipal de Esportes e Lazer (FMEL), com atuação dos voluntários rotarianos. Ontem, a previsão não se concretizou – era de tempo ruim, mas o que rolou na Praia do Molhe foi um solzão bonito.
Talvez essa previsão inicial afastou os cadeirantes banhistas. Não houve procura pelo projeto na manhã de ontem. Mas desde janeiro, uma média de quatro a seis banhistas por dia de atividade dos voluntários buscou o “Rodas ao Mar”, que conta com três cadeiras anfíbias, criadas e preparadas para cadeirantes. Elas não afundam na areia e flutuam na água, bastando apenas um voluntário na hora do banho.
A estrutura das cadeiras é simples – as pernas ficam esticadas, há coletes salva-vidas e cada roda já é uma boia – os pneus servem como flutuadores, para banhos de 15 a 30 minutos. Em geral, cinco a seis rotarianos se revezaram com servidores da FMEL para atuar na praia. A quarta edição foi encerrada ontem com jeitão de dever cumprido, mas o projeto volta no finzinho do ano, segundo informou o Rotary Clube Itajaí-Norte.

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