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Da diversão ao perigo de um acidente

Médico e instrutor de natação alertam para os riscos para a meninada nessa temporada de verão

João Batista
geral@diarinho.com.br

Água não é brincadeira, principalmente quando tem criança no meio. Para pequenos com idade entre um a quatro anos, bastam só 2,5 centímetros de profundidade de água para causar uma tragédia, conforme faz questão de frisar o médico pediatra Sandro Luís Uliano da Silva.
O médico, que atua em clínicas infantis de Itajaí e Balneário Camboriú e já viu muitos acidentes envolvendo crianças em piscinas, alerta para a necessidade de prevenção de afogamentos em ambientes domésticos durante o verão. Só na UTI do hospital Pequeno Anjo, de Itajaí, estão dois anjinhos vítimas de incidentes em piscinas.
As estatísticas também apontam para os riscos. Conforme dados da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), a piscina é a vilã dos acidentes envolvendo crianças menores de nove anos. A maioria (51%) das mortes por afogamento nesta faixa etária ocorrem em piscinas e residências.
Entre os tipos de acidentes, o afogamento também é a segunda principal causa de morte de crianças entre um a nove anos de idade. No Brasil, 17 pessoas morrem afogadas por dia, sendo três crianças.
O doutor Sandro explica que, entre os pequenos, as vítimas principais ficam na faixa de um a quatro anos. “Nessa faixa as crianças são mais curiosas e têm menos medo. Vendo a água, a maioria delas vai atrás e corre o risco de cair”, alerta.
Além dos cuidados com as piscinas, ele frisa que basta uma pequena lâmina de água acumulada em vasos, baldes, bacias, bacio do banheiro ou qualquer outro recipiente, para ocorrer uma tragédia.
Segundo o médico, crianças de até quatro anos têm a cabeça mais pesada que o corpo. “Se elas caem, não conseguem se levantar”, explica. Como medida preventiva, Sandro orienta os pais a manter as portas do banheiro fechadas ou mesmo trancadas com chave e não deixar água acumulada em recipientes. O ideal, conforme observa, é que materiais como baldes e bacias sejam deixados de cabeça para baixo.
Outro ponto importante que o pediatra considera é que as crianças nessa idade não costumam gritar ou fazer algo para pedir socorro. “Os pais sentem falta e não veem. É algo silencioso”, diz.
Além do caso das duas crianças internadas, no final do ano ele atendeu outra vítima, de cinco anos e que já recebeu alta do hospital. O acidente também foi em piscina doméstica.

Duas crianças estão na UTI
Criança e piscina exigem cuidados redobrados. Os dois últimos casos atendidos pelo doutor Sandro lembram que a atenção dos pais é indispensável. Ele tá cuidando de duas crianças, cada uma com um ano de idade, que se afogaram em casa, em dezembro, e estão internadas em estado gravíssimo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital Pequeno Anjo.
Uma das vítimas é de Itajaí e outra de Balneário. Os dois casos foram semelhantes. As crianças foram encontradas boiando na água e tiveram que ser reanimadas após várias tentativas.
As piscinas não tinham proteção. Em um dos casos, acontecia uma festa na residência, mas ninguém se atentou para o problema. “Foi um segundo de descuido. Falta de atenção de quem tava cuidando”, avalia o médico.
Como os pequenos ficaram muito tempo sem respirar, os riscos de sequelas neurológicas são grandes. O médico informa que, quando o cérebro deixa de receber oxigênio, as lesões podem ser irreversíveis. Quando não leva à morte, a vítima pode passar a viver em estado vegetativo.

Em piscinas públicas e de academias também é preciso atenção
O professor de natação Leonardo Werner de Oliveira, da W2 Aquademia, que atende mais de cem crianças em Itajaí, reforça as orientações de segurança para pequenos. Para o caso de piscinas públicas, como de academias e clubes, ele destaca que a primeira coisa que os pais devem fazer é reconhecer a profundidade da piscina, ver se o local tem acesso seguro e saber como são os ralos de sucção, para ver se as aberturas não oferecem riscos.
É preciso ter mais de um ralo e que os buracos estejam protegidos com tampas que enfraquecem a força da sucção. “E os pais têm que ficar o tempo todo de olho”, acrescenta.
Outra dica é que as crianças evitem mergulhar de cabeça, por não terem noção da profundidade. “Se for pular, que seja em pé”, ressalta.
Para os pais e instrutores, uma das principais preocupações é quando as crianças já acham que sabem nadar e passam a se arriscar. A partir dos três anos, diz Leonardo, as crianças já ficam mais liberadas mas ainda é preciso precaução. Se apoiar nas barras e nas boias e ficar perto das bordas estão entre as recomendações. “Saber nadar não representa isenção de acidentes”, resume.
Mesmo nas academias, os pais precisam estar perto. Na W2, até os três anos o aluno deve estar acompanhado dos pais ou responsável durante as aulas.
Para as crianças que estão em processo de aprendizagem, outra dica pros pais é fazer atividades de reforço em casa junto com os pequenos, para eles se acostumarem a ambientes diferentes. Exercícios de reforço na praia não são indicados. “Mar não é piscina”, adverte o professor.

Pediatra atenta para os cuidados
O pediatra Sandro Luís Uliano da Silva aponta alguns cuidados básicos para evitar as tragédias nas piscinas. O primeiro é, se a criança estiver num ambienta com piscina, os pais ou responsáveis não devem desgrudar do pequeno.
De acordo com o médico, os socorristas observam que não se deve ficar mais de um braço de distância longe da criança. Assim, no caso de algum imprevisto, é possível segurá-la rapidamente.
Outras orientações passam por adotar medidas e equipamentos de proteção. A indicação é que a piscina seja cercada com estrutura de, ao menos, 1,5 metro de altura.
No caso de grades, o vão entre as grades não pode ser maior que 12 centímetros, o suficiente para evitar que uma criança enfie a cabeça. A porta da cerca também precisa ficar bem fechada, seja com cadeado ou algum sistema de trava.
De acordo com Sandro, alguns pais optam pela colocação de lonas sobre a piscina, mas a medida não é recomendada por não ser totalmente segura. O isolamento com grades é melhor, faz questão de dizer.
Outra coisa a ser evitada é confiar nas boias infantis. Mesmo com o equipamento, destaca Sandro, crianças menores de quatro anos podem pender a cabeça para baixo e se afogar.
Para evitar que os menores tenham os cabelos puxados pela força de sucção dos ralos, o médico indica a compra de tampa e ou uma das mais diversas válvulas de segurança disponíveis nas lojas. “Quando se trata de piscina residência, na hora do banho se deve desligar o motor”, orienta.
No caso de algum acidente pela sucção das piscinas, o médico observa para não se tentar puxar a criança à força. “Nessa hora não adianta puxar a criança mas, sim, desligar o motor. Por isso, é preciso saber onde fica motor e saber como desligá-lo”, ressalta.
Mesmo crianças maiores de quatro anos precisam ser monitoradas pelos pais. Quando os filhos estão mais crescidinhos e já sabem nadar, muitas famílias se descuidam, mas o pediatra indica que, pelo menos até os nove anos, não se pode deixar os filhos sozinhos.
Além de ficar de olho, os pais devem orientar as crianças a não correr ao redor da piscina e evitar que mergulhem na piscina devido aos riscos de bater a cabeça no fundo.

Lojas especializadas têm soluções de segurança
Nas lojas especializadas em produtos para piscinas existem produtos feitos para evitar acidentes, principalmente envolvendo crianças. A proprietária da Água Marinha Piscinas, em Itajaí, Morgone Grando Cichowicz, informa que um dos materiais com mais procura são as capas de proteção. O equipamento tem fios de reforço que suportam o peso de até 50 quilos e é colocado de modo que a criança não tenha condições de soltar. Os modelos podem ser adquiridos a partir de R$ 35 o metro quadrado.
Outro equipamento são as telas removíveis feitas de material sintético, que podem ser tiradas ou colocadas ao redor da piscina conforme a necessidade. A rede tem suporte firme para fixação no chão e conta com portão com trava, tendo um metro de altura. Outros modelos podem ser feitos sob medida para o cliente. O valor é de R$ 220 o metro corrido.
Mais do que a preocupação em evitar deixar a criança cair na piscina, Morgone observa o perigo de estar na piscina. Nesse sentido, os ralos de sucção podem representar grandes riscos. Ela informa que as piscinas, por norma técnica, precisam ter duas sucções. “Não pode ter um buraco só, tem que ter dois, e interligados”, avisa. Na abertura do ralo, é preciso ainda a colocação de uma válvula de segurança. Para a lojista, alguns acidentes acontecem exatamente por erros e falhas de instalação do sistema.
No mercado ainda há produtos mais sofisticados, como pulseirinha com alarme e tecla anti-surto, sistema que é implantado junto com a rede elétrica da residência.

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