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A decadência da rua Blumenau

Prédios abandonados e comércios fechando. A outrora agitada rua Blumenau foi transformada em via de trânsito rápido

Carla Superti
Especial para o DIARINHO

A primeira impressão que se tem da rua Blumenau, nas proximidades do porto de Itajaí, é de abandono. Um prédio na esquina que marca o começo da via, visivelmente sem ocupação, apresenta a edificação em ruínas e as paredes pichadas. Essa cena se repete em vários imóveis ao longo do trecho.
O que também chama atenção na rua Blumenau são os mais de 10 imóveis desocupados com placas de imobiliárias que os disponibilizam para aluguéis ou venda. Quem ainda mora ou trabalha por lá, lembra que a rua abrigava fábricas, estaleiros, empresas, pequenas e grandes lojas, mas vem registrando o fechamento de negócios há algum tempo. É como se a antiga agitada rua que abrigava comércios, escritórios, hotéis e até salão de baile começasse a se aposentar.

Sem vagas de estacionamento
Um número muito grande de pessoas passa diariamente pela rua Blumenau, especialmente a caminho de outros bairros da cidade, mas poucas param nos comércios. Os motivos são muitos. Alguns citam a crise, outros a falta de segurança. Há, também, quem atribui a decadência à falta de estacionamentos pela via.
“Acredito que o maior problema da rua é não ter vagas para os veículos pararem. Os comércios entre o porto e a Codetran precisam ter estacionamento próprio, ou fecham as portas”, avalia Maicon Rodrigues Pereira, que mora e trabalha na rua Blumenau.
Para ele, quem tá instalado em local onde há estacionamento, está melhor. “Os que estão mais para frente, onde dá para estacionar, já não sofrem tanto com esse problema”, completa.
O comerciante Hilson Kresuch acompanhou grande parte das transformações da rua Blumenau. Seus pais abriram uma lanchonete no trecho há 57 anos. “Eu cresci aqui. Era bem diferente, com muito mais movimento. Então, primeiro tiraram os estacionamentos. Depois, as firmas começaram a fechar”, narra o dono da lanchonete Hilson.
Hoje, Hilson tem 43 anos e não pensa em sair do local. Mesmo com a baixa do movimento da rua Blumenau, afirma que ainda tem clientes fiéis que frequentam a lanchonete diariamente.
Diego Noble, administrador de uma imobiliária da cidade, comenta que estava com duas salas comerciais para alugar na rua Blumenau. Uma delas foi locada e a outra continua disponível. “Naquela região não tem grande movimento. É mais uma via de passagem para outros locais da cidade”, conclui.
Giovani Alberto Testoni, secretário de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda de Itajaí, concorda que a rua Blumenau vem mudando. Ele ressalta que o local virou uma via rápida, que liga os bairros ao Centro. “Suas características, com pequenos comerciantes, deixaram de ser atrativas. Com isso, houve a migração de comércios para bairros mais movimentados, como Cordeiros, Fazenda e Centro”, analisa.
A crise também é um motivo para o fechamento de empresas e lojas. O secretário afirma que a cidade ainda sofre com essa situação, mas que começa a mostrar uma pequena reação. A quantidade de encaminhamentos no Balcão de Empregos ultrapassou a cinco mil cadastros em janeiro e a administração itajaiense comemora a chegada de uma empresa de distribuição de medicamentos, que gerou mais de 100 empregos diretos e indiretos em Itajaí neste mês, ressalta Giovani.

Se mudou para a rua Blumenau e aumentou clientela
Para alguns, os negócios podem não ter sido tão bons na rua Blumenau, ocasionando mudança de endereço ou fechamento permanente do estabelecimento. Para outros, os resultados são pra lá de positivos.
A empresa de autopeças onde Toniel Pereira é gerente é um desses negócios que andam de vento em popa na rua Blumenau. Até 2016, a loja funcionava em uma outra rua do bairro São João. Mas como o objetivo era ter mais visibilidade e facilidade de acesso para a clientela, no início deste ano o estabelecimento se mudou para a rua Blumenau em um pátio amplo com estacionamento próprio. “Depois da mudança, o movimento aumentou 100%”, comemora o gerente.
Apesar do sucesso nos negócios, Pereira concorda com a afirmação de outros trabalhadores e comerciantes sobre o fechamento de estabelecimentos e a falta de estacionamentos na via.

Secretário de Segurança promete dar atenção à rua
Os imóveis abandonados e mal fechados atraem viciados em drogas e andarilhos que precisam de um teto para dormir.
Por ironia, a secretaria de Segurança da prefeitura fica numa das pontas da rua Blumenau. Em contato com o DIARINHO, o secretário Francisco José da Silva garantiu que vai tomar as providências necessárias para mudar a situação do local. “Vamos fazer um levantamento de andarilhos, junto com o departamento responsável, para fazer os encaminhamentos aos abrigos”, afirma.
Francisco afirma que um levantamento dos imóveis abandonados também será feito. “Vamos pedir para o Urbanismo notificar os proprietários destes locais para que eles sejam fechados, murados e assim não tenham mais ninguém ocupando iregularmente”, anuncia.
Outra medida da prefeitura com relação à rua Blumenau apresentada pelo secretário de Segurança é a implantação de radares estáticos e móveis para que a velocidade dos veículos que passam pela via seja reduzida. “Essa medida também é de segurança para o local”, conclui.

Imóveis abandonados e em ruínas são um chamariz para viciados
Sem portas ou janelas, prédio ao lado da antiga Braskarne é sempre invadido
Imóveis abandonados são pontos certos de andarilhos e usuários de drogas. Além de dois postos de combustíveis em ruínas, a rua Blumenau tem diversos prédios desocupados sem portas ou janelas, o que facilita a invasão.
Sulamita Maximiliano é secretária de uma fábrica de móveis e passa por lá todos os dias. Para ela, um dos grandes problemas da rua Blumenau, atualmente, é a falta de segurança. Com muitos usuários de drogas, começaram a ter vários assaltos, especialmente a pedestres. “É horrível! Passo ali todos os dias com medo. Tanta gente usando drogas, mal iluminado. A pior parte é perto de um dos postos de combustíveis abandonados”, afirma. Ela conta que na loja onde trabalha a porta é mantida trancada para prevenir assaltos.
Um vendedor, que não quis ter o nome divulgado, lembra que já foi assaltado duas vezes e viu outras lojas sendo roubadas. Segundo ele, os andarilhos também são um problema. “Eles abordam as pessoas e pedem coisas. Cercam. Aqui na loja aparece mais de 10 por dia para pedir dinheiro, comida ou vender alguma coisa”, bronqueia.
Um dos postos de combustíveis abandonado virou motivo de queixas de vizinhos. Carla Barbosa, filha do dono de uma loja que fica em frente ao prédio desocupado, conta que vê bastante usuários rondando o local. “Já fomos até assaltados”, conta, acreditando que os bandidos são os viciados.
De acordo com o tenente-coronel Ronaldo de Oliveira, comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar, a rua Blumenau é patrulhada dia e noite. O comandante informa que somente em 2016 a PM prendeu 1750 pessoas em Itajaí. “O que acontece hoje é que as pessoas são presas, mas acabam sendo soltas por força da legislação. Aí retornam às ruas cometendo o que elas sabem fazer de melhor, que é roubar nas vias públicas”, critica o coronel.

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