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“A arte existe porque a vida não basta”

O Brasil perdeu no domingo, 4 de dezembro, um de seus maiores poetas. Ferreira Gullar morreu aos 86 anos no hospital Copa D’Or, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma pneumonia.
A entrevista que originou a matéria para esta edição do DIARINHO em homenagem ao poeta foi concedida em março de 2014, no apartamento de Ferreira Gullar, em Copacabana. Foi parte de um trabalho sobre os 50 anos do Golpe Militar de 1964. Ferreira falou de sua vida, de sua obra e fez uma análise lúcida da trajetória política do Brasil de Getúlio Vargas até então.
Publicamos aqui a síntese do que foi dito nas quase duas horas de conversa, o que dá ideia do pensamento, do talento e da trajetória de um dos maiores poetas brasileiros. E, também, da dimensão de um homem que participou ativamente dos fatos que marcaram o seu tempo.

Breve Biografia:
Ferreira Gullar nasceu José Ribamar Ferreira, em São Luiz do Maranhão no dia 10 de setembro de 1930.
Poeta, jornalista, autor teatral, crítico de arte e ensaísta, Gullar revolucionou a poesia brasileira com o livro “A luta corporal”, lançado em 1954, que foi o ponto de partida do movimento Concretista criado por ele e pelos irmãos paulistas Augusto e Haroldo Campos e por Décio Pignatari, em 1956. Ferreira participou, também, do Neoconcretismo, uma dissidência do movimento Concreto, em 1959, juntamente com Hélio Oiticica e Lygia Clark, entre outros.
Engajado politicamente nos anos de 1960, Ferreira participou do Centro Popular de Cultura da UNE, o CPC, e, mais tarde, já após o golpe de 1964, do Teatro Opinião.
Militante do Partido Comunista Brasileiro, ao qual se filiou em 1º de abril de 1964, foi perseguido pela ditadura e obrigado a entrar para a clandestinidade no começo dos anos de 1970. Em 1971 foi para o exílio, primeiro para a Rússia, depois para o Chile, Peru e Argentina, tendo voltado ao Brasil em 1977, após lançar, em 1975, sua obra mais conhecida, o “Poema Sujo”.
De volta ao Brasil, Gullar reconstruiu sua vida como artista, ensaísta e crítico de arte, tendo lançado outros livros de poesia, ensaios e peças teatrais, além de assinar crônica semanal no jornal Folha de São Paulo até seu falecimento.

O pensamento do poeta:
A poesia
“A poesia não é a revelação da realidade, como as pessoas costumam dizer. Que a arte é a revelação da realidade. Isso é bobagem. A arte é a invenção da realidade. Não é a revelação. Vai dizer que a verdadeira realidade é a que está no poema do Drummond? Não é! Aquilo é uma outra realidade criada por ele”.

“A poesia é isso. O que está no Poema Sujo não é exatamente a minha lembrança… Não estou dizendo “Ah! Aquilo era assim meesmoo!!!”. Não é. É invenção. Mistura do sentimento do poeta, da necessidade de transformar aquilo numa realidade outra. Numa realidade que seja feliz, que seja surpreendente, que seja, enfim, melhor que a verdadeira realidade. É como eu digo: a arte existe porque a vida não basta. Por mais rica que seja, a vida não basta, nunca.”

“A função da arte é dar alegria. Essa coisa de dizer que o cara sofre quando escreve poesia, é mentira! Não é nada disso. Você pode sofrer antes. Você pode fazer o poema sobre uma coisa sofrida. Mas, ao fazer o poema, você transforma sofrimento em alegria estética… E isso para mim é paz! Você não vai escrever para ficar sofrendo. Você escreve para superar o sofrimento. Para transformar aquilo em alegria, em felicidade, em beleza. Isso que é”.

O começo em São Luiz do Maranhão
“Nessa época eu e o Lago Burnett fizemos uma revista chamada “Saci”. Depois fizemos outra revista chamada “Afluente”. “A Ilha” foi feita pelo José Sarney e o Bandeira Tribuzi, não tem nada a ver conosco. Mas éramos amigos, éramos todos da mesma idade, mais ou menos, e fizemos uma revista cultural. Mas ninguém pensava em mercado. A gente escrevia nossos poemas, nossos contos, e fizemos a revista para divulgar, porque não havia outra maneira”.

““Um pouco acima do chão”, meu primeiro livro, eu desconsidero. É um livro meu, escrito por mim, mas é um livro imaturo, a minha poesia praticamente não está ali ainda. Por isso, eu considero a minha estreia, de fato, “A luta corporal”. Na época de “Um pouco acima do chão” a minha compreensão de poesia ainda era um pouco atrasada, um pouco acadêmica, parnasiana, e tal. Atrasada em relação ao tempo que estávamos vivendo. Só depois eu conheci a poesia moderna”.

A Luta Corporal
“(O livro) “A Luta Corporal” foi publicado aqui no Rio de Janeiro, mas foi escrito em São Luiz (Maranhão) a partir de 1950. Depois do meu primeiro livro, caíram em minhas mãos livros de poesia moderna: conheci Drummond, conheci Murilo Mendes, e a poesia de Paul Valéry, Mallarmé, e dos poetas contemporâneos, como T. S. Elliot, René Char… Então foi um salto no conhecimento do que era a poesia moderna. Foi isso é que deu no “A Luta Corporal”. A partir do momento que eu tomei conhecimento da poesia moderna, eu comecei a pensar à minha maneira sobre aquele problema. Foi isso que levou à desintegração das palavras num período em que a poesia moderna brasileira estava voltando ao verso clássico. A poesia brasileira dos anos 1920 é uma poesia do verso livre, que abandona o soneto, a rima, a métrica… Mas, em 1945, a poesia clássica começava a voltar. Todo mundo começa a fazer soneto – o Murilo Mendes, o Jorge de Lima, e a nova geração, o Lêdo Ivo e tal, uma poesia construída, com versos medidos”.

““A Luta Corporal” – não que eu fizesse isso de propósito, mas dadas às preocupações que eu fui elaborando – terminou indo numa direção contrária. Enquanto eles estavam voltando para as formas clássicas , com versos rimados e métricos,eu não só intensifiquei a busca do verso livre, como desintegrei a linguagem, as palavras, o discurso poético”.

“Eu não tenho ideia de como o leitor recebeu aquilo. Mas a crítica se dividiu. Uma parte disse que aquilo ali era uma bobagem, que eu estava maluco e tal, sei lá… Que eu estava querendo fazer uma revolução que já tinha acabado há muitos anos. E a outra parte dizia que o livro era genial, que era uma coisa surpreendente… Enfim, eram duas posições radicais com relação ao livro”.

“E “A luta Corporal” caiu na mão dos paulistas, que não eram concretistas ainda. O concretismo começa a partir do meu livro. O fato de eu ter desintegrado a linguagem levou os paulistas e a mim ao nosso debate, a buscar outra linguagem. Uma outra sintaxe, porque eu tinha desintegrado não só a palavra, eu tinha desintegrado a sintaxe”.

O movimento Concreto
“A poesia concreta é uma nova sintaxe: é uma sintaxe visual. Não é a sintaxe discursiva”.

“A poesia concreta deveria se chamar poesia abstrata. É uma coisa que eu penso hoje, porque de fato ela é abstrata. O que é concreto é o discurso”.

“O que é concreto do ponto de vista da definição filosófica e linguística? Concreto é a soma das determinações. Quer dizer, quanto mais eu defino uma coisa, mais concreta ela se torna. Não é verdade? A concretude é a soma das determinações que eu defino. Se eu escrevo: “mar azul/ mar azul marco azul / mar azul marco azul barco azul”… É abstrato! É diferente de um poema que entra na reflexão sobre o mar ou sobre… Tá certo?”.

“Quando eu termino um livro eu fico vazio. Não sei o que fazer… Aí, depois de “A Luta Corporal”, eu saí pra ler filosofia, fazer alguma coisa. Eu fiquei perdido”.

“Depois eu recomecei, escrevendo um livro a mão. Um livro que não tem sentido, e, aparentemente, é um livro sobre a tentativa de voltar a falar sem saber o que se vai dizer. Que é um livro chamado “Ordem e progresso”. Eu o publiquei trinta anos depois”.

O Neoconcreto
“O Neoconcretismo não é contra o Concretismo, não se trata disso. O Concreto é em 1957, e o Neoconcretismo é em 1959, dois anos depois. A ruptura é porque eles (os concretistas de São Paulo) publicaram um documento dizendo que a poesia concreta devia ser feita matematicamente e eu discordei disso dizendo que era impossível. Aí eles disseram: “Bom, então se você não concorda é problema seu”. Aí rompemos. Porque eu não ia ficar assinando embaixo de uma coisa que eu não concordava”.

“Muito bem. Então, seguimos o nosso caminho de uma maneira tal que foi se tornando cada vez mais diferente do deles. Porque com essas ideias, era evidente que eles iam se amarrando, enquanto que nós éramos mais livres, éramos mais inventivos. Aí nasceu uma forma de dizer as coisas, de construir, que eu achei que devia mudar de nome. Não tinha sentido continuar chamando de Arte Concreta uma coisa que não parecia mais com a Arte Concreta. É outra coisa”.

“Como nasceu da Arte Concreta, vamos chamar de Neoconcreto, eu disse. E eles concordaram. O nosso grupo concordou: a Lygia Clark, o Amilcar de Castro, a Lygia Pape, o Hélio Oiticica… E foi redigido um manifesto. O manifesto, que eu escrevi, não é uma coisa que anuncia o futuro, pelo contrário, ele nasce do que já existe. Não é como dizer: “vou fazer poesia matemática” e nunca fazer”.

O engajamento político
“Eu já tinha esgotado o meu caminho nessa experiência Neoconcreta e o Brasil estava vivendo um outro momento político, com luta pela reforma agrária, e uma série de coisas. Eu me envolvi nisso, e resolvi me empenhar muito mais. Abandonei o caminho que seguia e já estava esgotado e fui fazer arte participante, arte política. Fui fazer mais política do que arte”.

“O CPC (Centro Popular de Cultura da UNE – União Nacional dos Estudantes) era um grupo de jovens, sobretudo gente de teatro, que fazia na rua espetáculos de caráter político. Espetáculos protestando contra o governo, anunciando a reforma agrária, cobrando mudanças na economia do país… Era isso…”.

“Quando houve o golpe, alguns dias depois, nós estreamos o show Opinião que já era uma posição diferente. Era o CPC não só com outro nome, mas, também, com outra posição. Nós não podíamos continuar dizendo as mesmas coisas que dizíamos antes, na democracia. Como, também, tínhamos aprendido que o caminho era fazer teatro de qualidade, não apenas pregação política. Não tinha cabimento”.

O golpe de 1964
“Nada nasce com um peso próprio, nada nasce à toa, nada nasce do nada. Tem razões para nascer. De um lado, essa ação do golpe de 64 vem da história brasileira, da ditadura de Vargas. Em 1945, um grupo de jovens, políticos e intelectuais liderados pelo Carlos Lacerda e alguns militares põem abaixo a ditadura do Vargas… Porque o nazismo tinha sido derrotado, o fascismo tinha sido derrotado, e o governo Vargas tinha uma certa raiz ligada a esses governos: era uma ditadura. A democracia tinha ganho a guerra, então não tinha sentido o Brasil continuar na ditadura”.

“Tudo bem, puseram Getúlio abaixo em 1945. Aí, em 1950, ele se candidata e ganha a eleição. O Lacerda, e mais aqueles que o tinham derrubado, fica furioso e decide que ele (Vargas) não vai governar”.

“O Partido Comunista não era da base do Getúlio. Ele estava na legalidade, mas ele não apoiava diretamente o grupo de Vargas. Havia uma certa simpatia com relação às medidas trabalhistas que Getúlio havia tomado, mas, de fato, na hora que começou a campanha pra derrubar o Getúlio o Partido ficou neutro, sem se manifestar”.

“Aí Getúlio se suicida e mudam as coisas de rumo. O Lacerda ganha antipatia da maioria da população. É o corvo que assassinou Getúlio. O getulismo ganha força e, embora ele não mais exista, o substituto, o herdeiro dele, é o João Goulart. O Juscelino, experto como era, se candidata, impõe o Jango como seu vice, e ganha a eleição. O Lacerda fica furioso contra o Juscelino porque tinha como vice o Jango, que, evidentemente, ia se fortalecendo politicamente. Quando chegou o governo seguinte, do Jânio Quadros, o vice continua a ser o Jango, e Jânio, com outras ideias na cabeça, renuncia com o objetivo de dar o golpe”.

“Porque ele (Jânio Quadros) tinha outras intenções. Ele disse: o meu vice é o Jango, os militares estão contra o Jango, o Lacerda está contra o Jango. Se eu renuncio, o Jango vai ter que assumir e eles vão impedir o Jango de assumir, aí eu assumo o poder num golpe. Ele queria dar um golpe e virar um ditador. Era isso que ele queria. Só que na hora que ele mandou o pedido de renúncia – que ele pensou que não ia ser aprovado – o Congresso aprovou e destituiu-o direto (risos), e deu no que deu”.

“O golpe nasceu, de um lado, disso: dessa luta brasileira, desse conflito entre militares e civis, ameaça de ditadura, sindicalismo, e tal. Do outro lado, internacionalmente, há a Revolução Cubana. Que assusta os americanos. Porque uma ilha pequeninha revolucionou a América Latina inteira e começa a surgir guerrilha em tudo quanto é canto. Então o americano pensou: “Se o Brasil virar comunista, eu tô ferrado, né?”. Imagina! É claro que eles não iam deixar a coisa acontecer aqui”.

“A Revolução Cubana incendiou a imaginação da juventude em tudo quanto é país, inclusive no Brasil. Isso atiçou os militares brasileiros formados na escola americana do Panamá: O medo do comunismo… Na cabeça dos militares, eles estavam impedindo o Brasil de virar comunista. Na cabeça deles é isso. Mas não havia perigo desse nível naquele momento porque a força política da esquerda era pequena, e o Jango não era comunista. Entendeu? Mas o pretexto do golpe foi esse”.

A luta armada
“Nesse grupo que tomou o poder em 1964 tinha gente de extrema direita e tinha gente conservadora. Quem assumiu o poder, Castelo Branco, não era extremista. Ele era de direita, ele queria realmente derrubar o Jango, mas ele não queria instalar uma ditadura militar. Tanto que eles deixaram o Congresso Nacional funcionando. Mas outra parte do Exército queria levar a ditadura às últimas consequências. E havia essa luta interna. Aí, uma parte do nosso pessoal resolveu fazer luta armada. E isso deu força para os radicais do Exército fazerem o Ato Institucional nº 5”.

“A luta armada foi uma bobagem. Foi o Mário Alves – que era um dos cabeças desse negócio – quem me convidou. Fez uma reunião comigo, de madrugada, para me convidar pra luta armada. Eu falei assim: “Ô Mário, vocês vão enfrentar o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e as trinta Polícias Militares do Brasil inteiro? É isso? É você e quem mais? Vocês estão loucos, cara! Para com isso! Você vai chamá-los para lutar exatamente num terreno em que eles têm força e nós não?”. Mas ele foi. Ele, o Marighella e outros, e se deram mal. Morreram assassinados e acabaram dando justificativa pra repressão”.

“Em dezembro de 1968, no dia do Ato Institucional, invadiram minha casa e me prenderam. Bem na hora em que a televisão estava transmitindo o Ato Institucional. Quando eu cheguei no Quartel do Exército para onde me levaram, o cara falou: “O senhor é prisioneiro de guerra!”. Eu perguntei: Que guerra? Eu não faço parte de guerra nenhuma. E o cara: “Nós estamos sabendo da luta armada aí de vocês”. Pô, eu falei: Que história é essa? Eu sou contra luta armada… Tá entendendo? Na cabeça deles, o negócio era esse: “Nós estamos agora em guerra. Eles são prisioneiros de guerra porque são a favor da luta armada”.

“Embora o partido não fosse pra luta armada, eles sabiam que o partido era muito mais perigoso do que esse detalhe da luta armada. Tanto que eles mataram a direção do partido quase inteira. Foram assassinados”.
(Era um jeito de matar as ideias?)
“Sim, sim. Porque eles sabiam que era o lado fraco deles. Eles sabiam que a opinião pública ia terminar esclarecida e se voltar contra eles”.

O exílio
“Aí chegou num ponto em que eles, com essa pressão, prenderam uma porção de gente, e eu acabei denunciado por um dos prisioneiros. Eu era membro da direção do partido no Rio de Janeiro, e o partido me aconselhou a ir pra clandestinidade. Porque, embora eu não participasse de fato da direção, eu fazia parte. Foi uma forma de derrotar os partidários da luta armada dentro da direção do partido. Então, pros militares, eu fazia parte da direção. Aí o pessoal me falou: “Você não sabe nada, eles vão te torturar, você não vai dizer nada, e eles vão te matar”. “Você tem que ir embora”. Aí eu fui pra clandestinidade, fiquei um tempo, não aguentei mais e fui embora”.

“Eu tinha certeza que a ditadura não ia durar pra sempre. O exílio fazia parte da luta. Fui pra Rússia. Depois da Rússia eu fui pro Chile, e a gente se comunicava com o pessoal do Brasil. Aí teve o golpe no Allende e eu fui obrigado a ir pra Argentina”.
(E a poesia nesse tempo?)
“Aos poucos, a minha poesia, por incrível que pareça, em vez de se tornar mais política se tornou menos política. Ela continuava a ter conteúdo político em muitos poemas, mas eu tinha compreendido que poesia tem que ser, sobretudo, poesia, e não política. Quer dizer, a qualidade literária tem que prevalecer sobre a sua atuação política. Que era o erro do CPC: botar a política diante da coisa estética, da coisa artística”.

O Poema Sujo
“Aí uma situação foi se criando. Saí do Chile, que virou uma ditadura com a queda do Allende, fui pro Peru. Mas no Peru não dava pra sobreviver. Muito pobre, tudo muito difícil. Aí eu fui pra Buenos Aires. Em Buenos Aires, eu fiquei numa situação ruim, porque o Peron morreu, a Isabelita assumiu, e começou a conspiração pra botar a Isabelita embaixo e instalar uma ditadura militar na Argentina, como estava acontecendo em toda a América Latina”.

“Alguns amigos meus, alguns argentinos, outros exilados, começaram a ir embora, sumir, porque a situação estava se tornando perigosa. O meu passaporte estava vencido e eu fui à embaixada do Brasil conseguir outro. A embaixada se negou a me dar o novo passaporte. Então, eu fiquei sem saída. Eu não podia ir para os países em volta porque eram todos ditaduras, e não podia ir pra Europa porque não tinha passaporte. A situação ia se agravando e a gente via que o golpe militar argentino ia acontecer a qualquer momento… Então, eu escrevi o Poema Sujo como se eu fizesse a última coisa da minha vida. Eu pensei: Vou dizer a última coisa que eu posso dizer enquanto é tempo. Aquilo foi escrito assim, nessas condições”.

“Então, eu acho que o conteúdo dele, a intensidade, enfim, o que ele é como expressão, é consequência, claro, de minha vida toda, mas também é consequência dessa situação dramática. É a última coisa a dizer… E como eu estava escrevendo a última coisa da minha vida eu falei da minha vida. Mas não é que o meu problema fosse memorialismo, não se trata disso. Era querer entender a vida, querer entender a existência. Era isso que era”.

“Quando eu já não aguentava mais o exílio e vi que com a publicação do Poema Sujo criou-se uma situação difícil para a ditadura brasileira acabar comigo, eu resolvi informar a todos: ao comandante do Exército, à Polícia, à OAB, ABI, a todos, que eu ia chegar, que eu ia voltar pro Brasil no dia tal. E voltei… Pra não dizerem que eu sumi, eu resolvi informar a todo mundo antes”.

“Foi legal. Eu estava louco pra voltar pro Brasil. Eu jamais gostei do exílio. Eu jamais quis viver fora do Brasil. Para mim foi um sofrimento. E ao voltar pra casa eu comecei a reconstruir a minha vida, minha família, meus filhos, meus amigos, enfim. Um recomeço de vida”.

O sonho da esquerda, Marx e o Capitalismo
“Com o fim da União Soviética, só maluco vai achar que vai instaurar comunismo no mundo, né? Tem que estar doido. Depois da União Soviética ser a segunda potência econômica, militar, e tudo, ela desaba? Vai acontecer comunismo aonde? Aqui? Na Bolívia? Para lá, né? Só se estiver delirando. (…). A China? A China não é comunista, é capitalista”.

“Porque a intenção do socialismo é louvável, querer a sociedade justa é louvável, lutar por isso é louvável. Ninguém tem que se envergonhar por ter lutado por esse ideal. Isso está certo. Lutar pela sociedade. Agora, o caminho escolhido pelo Marx está errado, dizer que só o trabalhador produz riqueza, está errado. Sem o empresário não existe riqueza também. Então, é trabalhador e empresário. A riqueza é produzida pelo trabalhador e pelo empresário”.

“O empresário é um intelectual que em vez de fazer poesia faz empresa”.

“Hoje, neste instante, há milhões de brasileiros fazendo pequena empresa. Faz empresa aqui, faz empresa ali, uma boa quantidade vai falir, mas isso é a força do capitalismo. Agora, lá na União Soviética, eram seis burocratas dizendo o que é que a economia ia ser. Te pergunto: podia ganhar? (…) Contra milhões fazendo? Lá era uma coisa burocrática, tá entendendo, bem intencionada, só que não dá… Nunca ia surgir um Bill Gates lá, mesmo porque é proibido. Porque tem que obedecer as normas do partido que é o dono da verdade. Então, deu errado… O erro está aí” .

“Não foi à toa que União Soviética caiu. Alguém invadiu a União Soviética? Não. Ela fracassou. Desabou dentro dela mesmo. Fracassou. Claro, porque a economia não cresce! Você não pode competir contra alguém que tem milhões fazendo economia contra seis burocratas fazendo economia, pô!”.

“O capitalismo é o regime da exploração. O lema dele é o lucro máximo. Então, não é o capitalista que é ruim. É o Capitalismo. É o regime da exploração. Com o capitalismo, o cara que não obedecer essa regraMENSTRUAÇÃO está ferrado, não tem saída. Ao mesmo tempo, sem a livre iniciativa não há riqueza. E a prova está aí em Cuba. Cuba é uma miséria. É a mesma coisa. A intenção é legal, Fidel é uma figura extraordinária, mas entra no mesmo esquema. Anula a iniciativa das pessoas, então não cresce. Você chega, como eu cheguei, em Havana e é aquela pobreza miserável. Carros todos velhos, as lojas caindo aos pedaços… Isso era a mesma coisa que você encontrava nos outros países comunistas. Não produzem riqueza. Tem que saber que a riqueza tem que ser dividida, mas se não produzir riqueza, não tem o que dividir”.

“Você tem que manter a iniciativa privada criadora e tem que obrigar a chegar na divisão da riqueza. Eu não acredito na sociedade justa inteiramente igual. Porque as pessoas não são iguais. O cara que conserta computador não é o Bill Gates. O cara que conserta o automóvel não é o Henri Ford. Não é. Tem que ter, para criar uma empresa, um cara de talento, de criatividade. Nem todo mundo é Pelé. É Pelé? Então o mundo é desigual. Mas você não pode nivelar por baixo. Que era o que a União Soviética fazia, que é o que Cuba faz”.

Torturadores e a anistia
“Isso aí é um problema delicado (tortura). É o seguinte: para acabar a ditadura tudo foi negociado com a oposição. E uma das partes fundamentais do negócio foi a anistia geral, ampla e irrestrita. Dos dois lados. Não pode agora resolver punir depois de ter aceito a anistia. Não é certo”.

“Eu acho isso: o acordo foi feito, também, porque do nosso lado tinha gente armada. E gente que matou gente também. Quem pega em armas quer matar e quer morrer, não é? Nós do partido que não pegamos em armas não estávamos nessa. Uma coisa é morrer brigando. Outra coisa é pegar um cara, botar num cárcere e matar torturando. Isso nem na guerra é aceito. Tem leis que impedem isso. Você não pode torturar. Que é que é isso? Isso é inaceitável. É uma desonra, é uma vergonha pras Forças Armadas Brasileiras. É uma vergonha. Uma coisa repugnante”.

Ter 83 anos
“Ninguém chega aos oitenta e três anos impunemente. (risos). Eu sou saudável, comparativamente com outras pessoas que têm até idade menor que a minha, mas já tenho alguns achaques aqui e ali, e tal, e vou indo. Mas pesa muito no fato de você viver todo esse tempo a quantidade de pessoas que você perdeu. Em amigos, e o filho, mulheres, parentes, irmãos… Fica pesado. A todo momento você lembra disso. Você abre um jornal, abre um livro, ouve uma coisa qualquer, ou, mesmo, abre o guarda-roupas (riso)… E lembra. É uma presença permanente do passado, de coisas doídas, e isso é difícil”.

Quem você pensa que é?
“Eu sou uma pessoa comum como outra pessoa qualquer. Meu interesse pela arte e pela poesia me distingue um pouco, não qualitativamente, apenas me dá um papel determinado dentro da sociedade e tal. No mais, é a mesma coisa”.

Pra quem você pensa que está falando?
“Eu falo pra quem queira ouvir. (…). Antes de mais nada, eu não falo pra ninguém. Antes de mais nada, eu falo pra mim. O primeiro leitor do meu poema sou eu”.

(*) Ivan Rupp, entrevista e texto. Fotos: reprodução.

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