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Fátima Regina da Silva

Psicóloga
“De dia é a secretária, à noite a amante. Esse é o olhar macho sobre a mulher, independente de negra ou branca”

Mulher. Mulher negra. Mulher negra e trabalhadora. Mulher negra, trabalhadora e ativista social. Na semana em que o mundo traz a mulher para o centro das atenções, nada melhor do que sabatinar uma militante dos movimentos sociais e que tem na ponta da língua o debate sobre o feminismo. A psicóloga Fátima Regina da Silva, que integra conselhos estaduais e representa os trabalhadores da Previdência numa federação nacional, não é econômica quando trata do assunto violência contra a mulher e discriminação étnica. Um Entrevistão perfeito para tempos em que a intolerância também costuma estar na pauta do dia. O bate-papo foi com o jornalista Sandro Silva. Os cliques são da jornalista Mariana Vieira.

Nome Completo: Fátima Regina da Silva
Idade: 55 anos
Local de Nascimento: Itajaí
Estado Civil: Casada
Filhos: Dois
Formação: Psicóloga, cursando especialização em Psicologia da Organização e Trabalho
Experiências profissionais e de militância: Professora da educação infantil, coordenadora de creche; funcionária do INSS, militante do centro de Defesa dos Direitos Humanos de Itajaí e do Movimento Negro de Itajaí, integrante do conselho Estadual de Saúde e do Conselho Estadual das Populações Afro (Cepa), militante do sindicato dos Trabalhadores da Previdência Social, representante de Santa Catarina na federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social

“A polícia nos para, para o negro, e aborda de uma maneira diferenciada”

“De dia é a secretária, à noite a amante. Esse é o olhar macho sobre a mulher, independente de negra ou branca”

DIARINHO – Pesquisa da ONG internacional Salve a Criança aponta que o Brasil está entre os 50 piores países do mundo para se nascer mulher. O alto número de casamentos infantis e de meninas grávidas na adolescência ajudam a formar esse ranking. O que mais as estatísticas apontam que colocam o país numa situação tão desconfortável quando o assunto é a mulher?
Fátima Regina da Silva – Ser mulher no Brasil não é nada fácil. E falando de gravidez infantil, existe ainda um tabu muito grande sobre educação sexual e gravidez na adolescência. É cultural mesmo não se falar de sexualidade, não se cuidar, não se prevenir. (…). Mas nós não fomos educadas para tratar as questões de sexo. Nós, mulheres, ficamos além disso, né!? Fora, totalmente fora. Tudo isso era do homem, do macho. Então essa reprodução ainda é cultural. Daí o aumento de gravidez no início da juventude. O que é que aumenta? Aumenta o “não saber”. Se nós formos na periferia, vamos encontrar pais, filhos e não há uma educação de prevenção nas periferias sobre o tratamento adequado A gerar [um filho], como gerar, como se prevenir, como cuidar da saúde e como saber que uma criança que, aos 14 anos tá gerando outro bebê, não tem o físico formado para tal. Há toda uma formação orgânica para isso. Há todo um emocional, um preparo. Então isso só tende a aumentar. [Mas o problema das mulheres no Brasil estaria afeito somente a essa situação da precocidade?] Há vários problemas para a mulher. A mulher teve, entre aspas, o avanço de um crescimento no mercado de trabalho, no Brasil, especificamente, a partir da Constituição de 1988. A partir daí é que se criaram cotas para votar, cotas para trabalhar e o grupo feminista foi avançando cada vez mais através de mobilizações e paralisações e conferências internacionais (…). E hoje ainda vimos que isso não dá conta. Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Estamos no dia Internacional de Paralisação. Paralisar pra quê? Paralisar contra tudo isso que está posto. A mulher, por exemplo, ganha menos que o homem. A mulher tem a tarefa bem maior que o homem. Culturalmente, o homem sai para trabalhar fora e não contribui com os afazeres domésticos. Então ela tem os afazeres domésticos e tem o cuidar dos filhos, ela tem o cuidar do trabalho e é uma carga emocionalmente muito pesada, muito forte.

DIARINHO – As brasileiras têm a percepção de que, aqui, elas pagam um preço alto por serem mulheres ou esse sentimento fica restrito ao círculo dos ativistas e feministas?
Fátima – Há um conhecimento disso, sim. Ele é bem amplo. Não dá pra dizer que fica restrito. O ativismo traz com maior consciência, porque tá ali, tá na ativa, tá no movimento e é um aprendizado. O movimento é uma faculdade. A mulher periférica não tá aquém desses conhecimentos. Ela precisa ser lapidada. Ela precisa, cada vez mais, ter conhecimentos. Mas é geral saber dos nossos direitos. Mas o problema não tá no saber. O problema tá no como fazer pra mudar. Como mudar este homem ou este trabalhador, que possa olhar a mulher com diferencial.

DIARINHO – Se fala muito hoje em “empoderamento” da mulher. O que isso quer dizer? Como, na prática, a mulher vive esse conceito?
Fátima – Empoderar-se é estar presente. É ser firme. “Eu vou usar um turbante!”. “Pô, mas que mulher é essa que tá de turbante vermelho, com um laçarote enorme?”. “Eu! Sou eu que estou me sentindo forte e firme para estar presente em qualquer lugar da forma como eu achar melhor”. A mulher tem isso hoje. Antigamente, a mulher ficava, né, sentadinha, quieta. A bela e recatada. Hoje não. Hoje estamos nos espaços, brigando cada vez mais. Empoderada, sim. Com direito a voz, a voto e a tudo o que tem direito de buscar melhorias para o gênero feminino.

DIARINHO – Já que você citou turbante, no mês passado, uma polêmica surgiu nas redes sociais: uma moça negra abordou uma garota branca e a criticou por estar usando um turbante, acusando-a de apropriação cultural. Como você interpreta isso numa sociedade miscigenada e multicultural como a brasileira?
Fátima – (…) Particularmente, eu vejo que o turbante qualquer um pode usar. Nós temos tantas questões a discutir sobre a questão étnica e racial, que o turbante é o mínimo. E se eu me sinto bem enquanto negra, o branco também pode sentir. Há uma necessidade de usar porque está com problema de saúde ou não. Nós usamos produtos, nós usamos materiais e simbologias que são feitas por pessoas não negras. Então não vejo problema nenhum nisso. E reafirmo que há no Brasil e fora dele questões étnicas que devem ser mais pontuadas, do que apenas o uso do turbante por pessoas não negras.

DIARINHO – Os números apontam que as mulheres negras sofrem ainda mais que as brancas, mas outras pessoas falam em “discurso vitimista”…
Fátima –É fato. Não é vitimista. Nós não precisamos nos fazer de vítimas porque a situação taí, no dia a dia. Falar sobre isso me emociona, porque enquanto mulher, negra, trabalhadora, militante, mãe, isso é se sentir usada, é se sentir um produto. Nós somos vistas como a mulher que tá aí pra fazer o trabalho, mas que pode ser passada como a “gostosinha”. Os termos mais baixos ou vulgares na questão da mulher negra. E isso também usado como algo mesquinho por parte dos homens negros e não-negros também. A mulher negra é discriminada no trabalho, ela é discriminada nas questões salariais. Estatisticamente é comprovado que a mulher negra ganha menos. A mulher ganha menos que o homem. E a mulher negra ela ganha menos que a mulher branca. Isso aí é fato mesmo.

DIARINHO – As políticas de cotas a estudantes negros e pobres nas universidades sempre foram alvo de debates acalorados. Já temos avanços na democratização do acesso à universidade no Brasil? Se temos, isso ainda é o suficiente?
Fátima – Nós negros sempre lutamos por mais! (…) Não, as cotas não são suficientes. Quando a gente pensa que tá avançando, há um retrocesso. Nós tivemos avanços, né, nos governos anteriores. Houve um número expressivo de negros nas universidades. Ainda falta muito. Mas falar de cotas é bem complicado. A cota é uma forma de reparar. Então eu vou cumprir todas as regras de fazer um vestibular, de passar num concurso, mas existe a cota de 20, 30% para os negros e para os pobres. Essa reparação e essa informação tem que ser muito debatida, com bastante tranquilidade, para que outras pessoas possam entender o que é cota. Existem cotas nas empresas que distribuem passagens aéreas para os seus empregados ou para os seus associados. E isso é tranquilo. Mas quando chega para uma reparação ao pobre e ao negro, “Ah! Tá invadindo o meu espaço”. Nós não estamos invadindo o espaço de ninguém nem pegando o lugar de ninguém. Existe um número X para os não-negros e existe a porcentagem X para os negros. Então, vamos ter igualdade de oportunidades. É só isso.

DIARINHO – O Brasil é o maior país de população auto declarada negra fora da África e o segundo do planeta, só perdendo para a Nigéria. No entanto, os negros e as mulheres negras continuam fora das universidades. Há um número inexpressivo de participação dessa população nas universidades. A educação passa também pelo reconhecimento da população negra como agente social que precisa estar nas universidades?
Fátima – A identidade do negro é muito difícil. Dizer “eu sou negro”, reafirmar essa identidade é complicado. Porque no Brasil ser negro é sinônimo de não ter emprego, de ser vagabundo, pois se não tem emprego não trabalha, é alcoólatra, não quer nada com nada. Tem todo um histórico atrás disso. Na escola, nas séries iniciais, o Joãozinho não é o João. Ele é o Neguinho. Então ele já perde a sua identidade aí. Hoje, nós mulheres, independente de negra ou não negra, também perdemos a nossa identidade quando nos casamos. Há um corte no nome da tradicional família, que passa de Silva para Costa para…. enfim, para o nome do marido. Então isso é perda de identidade, sim. Nós temos que lutar cada vez mais para a continuidade de melhorias, de avanço, para a mulher e para a sociedade em geral.

DIARINHO – Recentemente, um segurança do Habib’s matou com um soco um menino de 13 anos, negro, que pedia comida na porta da lanchonete aos clientes. Apesar da brutalidade, não se viu uma comoção social sobre o assunto, como se vê em tantos outros casos. Por que isso?
Fátima – É bastante comum. É uma criança e além de ser uma criança, é uma criança negra. Pelo olhar do segurança, ela tá ali para roubar. Isso é muito comum, acontece. A polícia nos para, para o negro, e aborda de uma maneira diferenciada do não-negro. Tudo isso é uma questão que nós temos que discutir com a sociedade itajaiense, com o estado de Santa Catarina. Nós temos que abrir a nossa mente de que o racismo ele está presente. Então essa criança morreu e não houve uma comoção, porque ela é um Zé Ninguém. Ele é o filho da Mariazinha, que é empregada doméstica. Ou não tem pai ou ele tá na rua e ponto. Agora, se ele fosse o filho de um empresário e acontecesse de ele estar correndo com um skate na calçada e ocorresse esse acidente, teria uma passeata, uma mobilização no Brasil inteiro, como a gente já viu. Então, há um diferencial do negro nesse país.

DIARINHO – As mulheres negras são mais vítimas de violência se compararmos com as mulheres brancas?
Fátima – (…) Há um forte índice de preconceito, porque a negra no Brasil é a que está na mídia para rebolar, ela é a que tá pra ser traficada. É a mula, a mulata. Vamos passar adiante, vamos passar a mão. De dia ela é a secretária, à noite ela é a amante. Esse olhar macho sobre a mulher, independente de negra ou branca, é culturalmente muito forte ainda aqui no Brasil. Nós temos que mudar isso. É fundamental conhecer, saber que a mulher tem um emocional, que ela tem um diferencial e que isso agrava, muito, o estado de saúde da mulher. Às vezes não aparece que ela está com uma dor, porque não é uma dor no estômago. Mas é o que está dentro, o que é emocional desta mulher? Ela tem isso e ela não pode ser colocar. E por que ela não se coloca? Porque ela tem medo, ela tem filhos, ela tem emprego pra manter. Ela tem que cuidar da família. Ela contribui financeiramente. Então isso é muito forte e é um tema para horas de discussão.

DIARINHO – Você, além de ser militante do movimento negro, também é militante sindical, dos trabalhadores na Previdência Social. Como você interpreta a reforma da Previdência proposta pelo presidente Temer? Até que ponto essa reforma prejudicará as mulheres?
Fátima – Eu fui funcionária da Previdência Social em Itajaí. Trabalhei 34 anos na Previdência. Hoje estou aposentada. Mas continuo na luta. Sou representante da federação Nacional dos Trabalhadores na Previdência e Saúde. O que é que eu digo da reforma da Previdência: Ela prejudica, sim. Prejudica as mulheres do campo e da cidade. A aposentadoria por idade, nós temos hoje, como regra, 60 anos para a mulher e 65 pro homem. O governo Temer, tá trazendo uma regra geral. Pra todos, 65 anos de idade e mais o tempo de contribuição. Pra chegar a esse tempo de contribuição, há a necessidade de 95 pontos. Não basta só ter a idade. Você tem que ter a idade e mais o tempo de contribuição, que vai chegar quase a 100 pontos. É muita coisa. É muita mudança. O que é que eu posso falar disso? Que a sociedade em geral se atente. E aí é ir pra rua, sim, contra essa reforma. Eu já estou aposentada, mas eu não penso só no meu umbigo. Eu penso em todas as mulheres, na minha família, na minha comunidade, no povo em geral. E que as pessoas possam se ater sobre esse temor que o governo está aí apresentando e que não é nada bom. “Ah! Mas eu não entendo e eles mudam mesmo”. Eles mudam porque nós deixamos mudar. Então nós precisamos ir pras ruas. Pra rua de Itajaí, pro estado, e falar sobre isso e discutir. “Eu tenho medo das mobilizações”, você pode dizer. Tá, então vamos dentro da igreja, na escola, e vamos discutir. Eu me coloco à disposição. Não sou expert, mas é juntando os nossos conhecimentos que a gente chega a melhores realizações e conhecimentos e discussões sobre esse tema que não é nada fácil. [Tem marcado algum dia nacional de luta em relação a essa reforma, que vai atingir em especial as mulheres?] Dia 15 de março agora é dia de paralisação no Brasil sobre a reforma da Previdência. [Em quanto tempo a mulher vai conseguir se aposentar caso a reforma seja aprovada?].É muito complicado. […] Ela vai atingir lá pelos 70 anos. É muito tempo de trabalho. Eu me aposentei aos 52 anos. É um tempo razoável para que a gente possa curtir um pouco a casa, fazer outras coisas, outras atividades. E a gente sabe que a mulher faz tudo isso, os afazeres da casa. Ela é multifuncional. Ela administra as finanças, ela dá conta do mercado. Enfim, ela faz mil e uma coisas. Ela faz várias coisas que o homem não faz. Não é questão de ser folgado, é a cultura do Brasil. O Brasil nos trouxe um patriarcado muito forte e hoje, nós mulheres, estamos pagando por isso. Então é mudar. É trazer o seu filho, o menino, a arrumar o seu quarto, a lavar a sua caneca. Isso não vai afeminá-lo e, se isso acontecer, é dele. É ele, é o corpo dele. Essa questão do respeito ao trabalho da mulher, a contribuir com as tarefas de casa. Começando por nós mães, irmãs e com os esposos, os filhos, os primos. Repassar isso é muito bom.

DIARINHO – Nesta semana se comemorou a o Dia Internacional das Mulheres. Qual o recado que você deixa?
Fátima – Não se deixe temer pelo pavor. Não se deixe temer pelo homem. Aos poucos você avança. Avança no saber que você é forte. Você é tão forte, que você faz mil funções. Então, se você consegue fazer as funções da casa, do filho, do trabalho, você consegue dar um basta à opressão, à opressão contra a mulher, contra a violência. O número de violência é muito grande. Basta de violência contra a mulher. Vamos viver em outros tempos. O que eu mais bato na tecla é a violência emocional, que não aparece. A depressão está demais. Então tá na hora de botar pra fora tudo o que você sente e dizer assim, ó: “Eu não quero mais isso na minha vida!”. Vamos lutar por igualdade. Não é andar atrás. Uso muito o chavão “atrás de um grande homem sempre tem uma mulher”. É do lado de um homem que tem uma mulher. É lado a lado. É caminhar junto. É conquistar junto. É dizer não junto. É se amar conjuntamente.

“Na escola, nas séries iniciais, o Joãozinho não é o João. Ele é o Neguinho. Então ele já perde a sua identidade aí”

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