Home Notícias Entrevistão “É o 20º Festival de Música. Ele precisa ser o melhor de todos”

“É o 20º Festival de Música. Ele precisa ser o melhor de todos”

Entrevistão com Normélio Pedro Weber, superintendente da Fundação Cultural e da Fundação Genésio Miranda Lins

NOME: Normélio Pedro Weber
NATURAL: Frederico Westphalen
IDADE: 59 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: dois
FORMAÇÃO: Graduado em Filosofia, pós-graduado em História do Brasil e História Contemporânea e mestre em Ciências Sociais/Sociologia Política
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: 30 anos professor na Univali, onde também foi coordenador do curso de História, coordenador da Pós-graduação em História e maestro do Coral da universidade durante 25 anos. Já foi secretário-adjunto na secretaria de governo de Itajaí, diretor de indústria e comércio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e secretário de Comunicação. Atualmente é o superintendente da Fundação Cultural e da Fundação Genésio Miranda Lins.

Itajaí sempre teve uma vida cultural vibrante. Festivais de música, de teatro, salões de artes. A cidade tem uma classe artística sedenta por realizar. Normélio Weber, professor e maestro conhecido na região, é desde janeiro o novo chefão da fundação Cultural e da fundação Genésio Miranda Lins. Na entrevista à jornalista Franciele Marcon, Normélio explicou que consegue falar a “mesma língua” que a classe artística. Falou sobre o Carnaval modesto que a cidade organizou, mas que agradou quem se dispôs a curtir a festa. Respondeu, também, as críticas de alguns que classficaram o evento como elitista. Garantiu que a Marejada volta a acontecer em outubro e que a Festa do Colono também está confirmadíssima em julho. Ainda comemorou a mudança significativa na forma de avaliar os projetos da Lei de Incentivo à Cultura. E seus olhos brilharam quando contou sobre o projeto Arte dos Bairros e sobre a novidade: um caminhão contêiner levará shows e espetáculos para os bairros itajaienses. As fotos são de Sandro Silva.

“A lei de incentivo à cultura propõe: fomentar o produtor cultural para que ele consiga produzir a sua primeira obra e comece a viver dela”

DIARINHO – O carnaval foi organizado às pressas, mas deu certo e agradou uma parte dos itajaienses, que achou bonita a festa no Mercado Público. Por outro lado, houve críticas dizendo que o ambiente foi elitizado e que não houve participação do povão. Como responder essas críticas e elogios?
Normélio: Eu discordo em gênero, número e grau de que houve uma elitização, até porque não havia cobrança de ingresso. Foi um trabalho aberto para todas as pessoas. O que existe é que as pessoas têm algumas restrições com alguns espaços. As pessoas atribuem a propriedade de alguns espaços, como o teatro municipal, ou como o mercado público, a uma certa elite, porque até o que se comercializa ali, acaba sendo um pouco mais caro que o normal. Mas de forma alguma se pode chamar de elitizado um evento que é feito de forma gratuita. O acesso é livre, as pessoas se divertiram tranquilamente. A música foi com gente da terra, músicos de Itajaí e eu não consigo entender dessa forma.

DIARINHO – Uma outra crítica que se fez ao carnaval foi o fato de as atrações acontecerem no mercado público, que é explorado comercialmente por restaurantes particulares, que cobram pelo serviço. Esses mesmos restaurantes se beneficiam do dinheiro público, pois as atrações musicais foram bancadas pela prefeitura. Não há uma confusão entre o que é privado e público aí?
Normélio: A questão é a seguinte: o espaço continua sendo público. As pessoas que estão lá pagam aluguel para a prefeitura para explorar aquele espaço da forma mais legal que existe, que é através do processo licitatório. Por outro lado, este ano, a gente tinha uma determinação para que não houvesse nenhum tipo de repasse público para qualquer entidade que fizesse carnaval, por problemas no passado. Não se podia fazer nada na rua, estava proibido pela procuradoria do Tribunal de Contas do Estado. O que nós conseguimos fazer foi que, em função de ser o ano do centenário do Mercado Público, a gente conseguiu uma autorização especial para realizar o evento dentro do Mercado. Foi fruto de uma negociação, porque a princípio a determinação era nada de carnaval. A gente não podia deixar passar a data em branco. O argumento que eu pessoalmente usei com a procuradora, em visita ao Tribunal de Contas, já que era o aniversário do Mercado, foi: porque não fazer um evento barato, aberto para o público, e que custasse menos de R$ 30 mil?

DIARINHO – Essa proibição de repasse de dinheiro às ligas foi resultado de anos de problemas com a a prestação de contas dos grupos. Como o senhor pretende resolver essa situação pro carnaval do ano que vem?
Normélio: Essa questão é da Liga. A prefeitura não tem como resolver. O Tribunal de Contas está exigindo que a Liga devolva o dinheiro. Isso é decisão tomada. O que a gente quer fazer é achar outras alternativas para o carnaval do ano que vem. Nós temos uma reunião marcada para o dia 13 de março para começar a discutir o próximo carnaval. Qual é a ideia? Nesse período do carnaval, eu montei uma espécie de escritório do lado de fora do Mercado, onde as pessoas vinham dar suas contribuições, contar as suas histórias e, ao mesmo tempo, fazer as suas críticas e as suas sugestões. Existem várias possibilidades: uma delas é voltar a fazer o carnaval de rua, mas para isso, as escolas de samba vão ter que resolver o problema delas com o Tribunal de Contas. [Qual o valor do repasse?] Se não me engano: R$ 136 mil é a condenação, esse dinheiro é o que precisam devolver. Mas existem outras formas de fazer o carnaval. Por exemplo, ao invés de se fazer o carnaval convencional, com escolas de samba, fazer um misto daquilo que está pegando muito bem, tanto em São Paulo como em Salvador. Há muito tempo, no nordeste, no Rio de Janeiro, se fazem os blocos. As escolas e blocos transformarem o seu principal instrumento, que é a bateria, no centro do carnaval. Isso desenvolve, ao longo do ano, uma série de atividades. Por exemplo, oficinas de percussão para escola de samba para o carnaval – para tirar a criançada da rua e aprender a tocar um instrumento. Fazer um ateliê de fantasias, de customização de camisetas, de fabricação de máscaras. São coisas para comercializar. E a gente centrar a questão dos desfiles entre essas pessoas. A prefeitura, eventualmente, pode fazer um edital para a contratação das baterias para o carnaval. E ao invés de fazer o carnaval em uma rua só com arquibancada, fazer um belo carnaval de rua. Um dia faz na Hercílio Luz, outro dia faz na Estefano José Vanolli, outro dia faz na Beira-rio. Um belo carnaval de rua espalhado pela cidade. Poderíamos fazer o carnaval sustentável. [Esse é o norte para o carnaval do ano que em?] Essa vai ser uma das propostas. Eu pretendo propor isso para as escolas de samba e os blocos, e com isso criar um envolvimento com a comunidade. Não tem melhor fiscal das coisas que a comunidade.

DIARINHO – Esse fato que culminou com a proibição de repasse de dinheiro às ligas começou há alguns anos. Seguidamente havia a dificuldade de prestar contas do dinheiro recebido e os grupos iam mudando de nome. Como organizar o carnaval nessas condições?
Normélio: Essas pessoas podem participar de toda a discussão, mas certamente não poderão estar encabeçando, por exemplo, uma Liga, uma nova Liga ou uma Super Liga. Eu acho que a questão está vencida. É um modelo que não funcionou. Exatamente por todas essas tentativas, é um sistema que não deu certo. As pessoas não se profissionalizaram. Na cultura, Itajaí tem várias áreas que se profissionalizaram de forma absurda, muito competentes. Fazem projetos, sabem fazer, prestar contas, se especializaram nisso, mas não aconteceu a mesma coisa com o pessoal do samba. Primeiro tem que reformular isso tudo para depois pensar de novo nesse formato antigo. A gente tem que optar por um formato novo. O que as pessoas mais pediam na saída do mercado: “Isto aqui no mercado não pode acabar. Vocês podem fazer outras coisas, mas isso que aconteceu no mercado tem que continuar…”

DIARINHO – A grande reclamação da classe artística na antiga gestão era que o superintendente não era da área. A classe se queixava por não ser ouvida. Isso mudou?
Normélio: Eu tenho impressão que sim. O núcleo central da fundação hoje é todo da área. O prefeito Volnei Morastoni prometeu isso para o conselho de cultura e cumpriu. Ou seja, os seis postos chaves da cultura estão totalmente integrados e envolvidos com as questões culturais da cidade. Eu fui maestro durante 25 anos no Coral da Univali e no da igreja Matriz também. Essa é grande diferença: não é a pessoa ser ou não ser da área, é a pessoa conhecer a linguagem dessa área específica. Fizemos 13 reuniões, com 13 grupos das artes no início do governo. A reunião acontecia sempre às 17h30, todos os dias, nas primeiras duas semanas que a gente esteve na fundação. Conversarmos com todo mundo, em dois momentos distintos: apresentando a direção, esse é o nosso norte, a gente pensa isso da cultura. Se vocês pensam diferente, nos ajudem a repensar. Conseguimos reunir todos os grupos, todo mundo já falou, todo mundo vai continuar sendo ouvido nas câmeras setoriais, nos conselhos de políticas culturais – esse é um princípio de governo. O prefeito Volnei desde o começo disse: valorize os conselhos. A população fala através dos conselhos. Então vamos ouvi-los sempre, o tempo inteiro. Na última análise da Lei de Incentivo à Cultural a gente deu uma demonstração de como vai funcionar. A Comissão Itajaiense de Avaliação de Projeto Culturais (Citac), que sempre determinava o processo no final e, de certa forma, desconsiderava completamente os pareceres que vinham de fora, nós fizemos exatamente o contrário. [O que mudou no julgamento dos projetos de lei de incentivo este ano?] Antes se chamavam os pareceristas, eles vinham individualmente, em dias diferentes, faziam os seus pareceres, voltavam para suas cidades. Não se encontravam, não se reuniam e a Citac recebia essas avaliações e decidia escalonadamente dentro das cotas e das inscrições que foram feitas. O que nos fizemos dessa vez? Reunimos todos os pareceristas no mesmo dia, eles trabalharam na mesma sala, cada um analisando a sua área, a área de sua competência e no final da tarde, a gente reuniu todos e eles discutiram, negociaram. Aí fizeram um seminário e buscaram contemplar os melhores projetos em todas as áreas e ao mesmo tempo não deixar de fora nenhum projeto que fosse muito bom. Isso foi fundamental. A Citac recebeu a avaliação e só fez uma coisa diferente. Foi por conta de um conselheiro, o Flávio, que deu a ideia que tinha uma proponente que tinha dois projetos aprovados de R$ 10 mil. Ele achou que não era interessante e a gente substituiu. Foi a única coisa que a Citac fez nesse processo. [Essa mudança acaba com aquela impressão de que são sempre os mesmos contemplados pela lei?] Isso tende a acabar. Por que as pessoas vão ver que o processo é totalmente transparente. Absolutamente aberto e discutido. A tal ponto que hoje encerra o prazo de recurso e não teve recurso. Nos também decidimos outra coisa: tem muito projeto bom que ficou fora porque as pessoas não souberam elaborar o projeto. Então nos decidimos que, antes de lançar a lei de incentivo à cultura do ano que vem, vamos promover uma oficina de elaboração de projeto para que as pessoas que não estão tão preparadas, possam se preparar e competir em igualdade de condições com as que já fazem isso há mais tempo. [Existe intenção da fundação de abraçar no orçamento alguns eventos que já acontecem tradicionalmente em Itajaí e não deveriam mais depender da lei de incentivo à cultural?] O que a gente decidiu: tem eventos que se tornaram permanentes, mas como a gente não quer impor absolutamente nada, na reunião de segunda-feira que vem, dia 13, a gente está propondo montar um grupo de trabalho para: a reformulação da lei, e, principalmente dessa questão: movimentos que já se tornaram permanentes, que não tem mais que estar disputando espaço com quem está iniciando. A lei de incentivo à cultura propõe: fomentar o produtor cultural para que ele consiga produzir a sua primeira obra e comece a viver dela. De repente, não dá na primeira, na segunda ou na terceira, mas depois da quinta edição, o produtor já tem que começar a viver da sua obra e não mais depender do incentivo da prefeitura. Essa independência a gente precisa criar e estimular.

DIARINHO – Quais os planos para o festival de música?
Normélio: Os maiores e os melhores possíveis. Primeiro a gente sabe que o grande problema nos últimos anos foi a falta de captação, de fazer projeto, de aprovar na lei Rouanet. Não dá pra jogar o festival de música nas costas da prefeitura. Ela não dá conta. Tem muitas necessidades básicas que a população precisa. Projeto da lei Rouanet, buscar o recurso fora para não depender da prefeitura. É o 20º, são 20 anos, ele precisa ser o melhor de todos. Também na segunda-feira vamos instalar a comissão do festival. Tudo que você não planeja, não começa a preparar antes, você acaba gastando mais e mal. O ideal é planejar. [Tivemos dois modelos de festival: um com shows ao ar livre e nos bairros e outro com shows em teatros. Como vai ser este ano?] Com certeza vamos voltar a atingir o público. Embora alguns discordem, é uma questão conceitual, mas a arte, na cidade, ela precisa ficar à disposição do maior número possível de pessoas. Não dá para fechar isso. A gente precisa abrir. Uma das propostas foi tentar conquistar públicos novos. Porque se você faz sempre para o mesmo público, ele vai definhando. Você tem que buscar públicos novos, tem que sair dos casulos. Vamos fortalecer o Arte nos Bairros, vai ser a nossa grande bandeira. Vamos ter 12 núcleos também. Mas vamos ter principalmente eventos nos bairros. O mesmo evento que a gente faz no Mercado Público, nós vamos fazer nos bairros. Hoje estamos fechando os orçamentos do contêiner que vai servir de base para o Arte nos Bairros. É um contêiner de 12 metros, que vai abrir um dos lados e vai ter um palco de 12 metros por seis metros, e vai ter dentro todo o equipamento de som, iluminação e uma cobertura. Teremos tendas e 200 cadeiras plásticas para as pessoas sentarem e assistirem comodamente. Em qualquer lugar, vamos montar um teatro ao ar livre. Nas praças e bairros da cidade. Isso vai gerar toda uma movimentação que, com certeza, vai trazer público para o nosso artista. Vai dar a visibilidade que o artista precisa. Porque a visibilidade do teatro é muito pequena. O artista precisa ser visto pela maior quantidade de pessoas possíveis.

DIARINHO – Há intenção de reviver o Festival de Inverno, que foi tão marcante na década de 70? Ele vai acontecer novamente?
Normélio: É o sonho do prefeito. Cada vez que me encontra, ele diz: “não esquece o festival de inverno”. Existe um movimento, um pouco saudosista, para volta do festival. Este ano a gente vai ter Festival de Teatro, Salão Nacional de Artes, Festival de Música, Marejada, Festa do Colono, Natal. O ano vai estar efervescente. Não sei se no formato convencional, o Festival de Inverno vai fazer efeito. Mas estamos trabalhando seriamente na possibilidade, principalmente, porque existe uma área que está descoberta, que é a área do cinema, das artes visuais, que pode ser o carro chefe desse movimento que podemos chamar de “Festival de Inverno”. Como existe o coral, que participou ativamente daqueles tempos, que pode se movimentar muito no mês de julho, e a gente revive o Festival de Inverno principalmente em alguns setores muito fortes em Itajaí.

DIARINHO – Como o senhor e a secretaria de Turismo pretendem organizar a Marejada este ano?
Normélio: Até a agora a gente só conseguiu definir que vai ter a Marejada em outubro. Ela vai ter que voltar, como a festa do Colono vai ter que voltar a ser a festa para os colonos… A gente também tem convicção que a Marejada vai ter que ser uma festa voltada à tradição açoriana e portuguesa. Isso tem que estar presente. Isso não precisa ser exclusivo, mas precisa ser muito forte e chamar a atenção da festa. O formato está em discussão. Mas já se pensou em várias coisas, como o grande dia do Festival de Boi de Mamão. Chamar todos os grupos e também propor para as escolas começaram já a fazer uma competição de boi de mamão na Marejada. Trazer grupos semiprofissionais para fazer as apresentações. Ao mesmo tempo a gastronomia tem que mandar na Marejada. Bem como a questão musical ser dirigida para o formato específico da festa açoriana e portuguesa.

DIARINHO – A festa do Colono volta nos moldes antigos, com os shows nacionais?
Normélio: Com certeza não vai voltar naquele molde de grandes shows nacionais. Vai voltar com música rural. A música rural, o sertanejo, por exemplo, tem uma diferenciação. Ele se urbanizou e, quando ele se urbanizou, ele perdeu a raiz rural. Se o sertanejo vai voltar? Vai voltar. Temos também movimento de rock rural no Brasil. Lembra Sá e Guarabyra, Expresso Rural, Zé Geraldo e tantos outros? Temos muitos músicos que são da música rural, que têm identidade rural e, por isso, a gente fala: a festa do Colono vai ser a festa do colono e para o colono. Nós, os outros, vamos participar e bater palmas para eles, que merecem.

“ […] Ao invés de fazer o carnaval em uma rua só com arquibancada, fazer um belo carnaval de rua espalhado pela cidade. ”

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