Home Notícias Entrevistão Adriano Cipriano“O sucesso pelo acesso à série A credito ao grupo”

Adriano Cipriano“O sucesso pelo acesso à série A credito ao grupo”

Afastado desde 1972 do futebol profissional, no primeiro ano em que o clube Náutico Almirante Barroso voltou às atividades, já conseguiu o acesso à elite do futebol catarinense. O alvi-verde representará Itajaí na série A do Catarinense 2017. Com pouco investimento financeiro, apostando no entrosamento do grupo e fazendo um planejamento com pé no chão, o clube alcançou rapidamente o sucesso dentro e fora do campo. Nesta entrevista à jornalista Franciele Marcon, Adriano Cipriano, um dos sócios-proprietários do time, fala das diferenças entre uma empresa de futebol e um clube associativo. Conta o segredo da campanha bem sucedida em 2016, os planos para 2017 e os investimentos que o time precisará fazer. Adianta que, no ano que vem, o time pretende investir mais na base e conta que a inspiração para montar a equipe veio toda do futebol amador. Os torcedores barrosistas, segundo Adriano, estão aumentando a cada nova partida. As fotos são de João Batista.

“Na montagem desse elenco, perdemos muitos jogadores porque não entramos em leilão”

“A gente costuma dizer que não é um time, é um grupo”

Raio X
NOME: Adriano Cipriano
NATURALIDADE: Penha
IDADE: 34 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: dois filhos
FORMAÇÃO: técnico em eletrotécnica e engenharia de refrigeração industrial
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: começou trabalhando na área de refrigeração industrial, onde atua até hoje. A primeira experiência profissional foi como operador de sala de máquinas, na Costa Sul Pescados, e ao longo dos anos adquiriu experiência em outras empresas e cursos de especialização até montar o próprio negócio. A Frioserv tem sete anos atuando na área de refrigeração industrial. A relação com o futebol começou em campeonatos amadores, onde ele tanto jogava quanto financiava. Em 2015, surgiu a oportunidade de investir em futebol fazendo uma parceria com o primo Neto Custódio e com a experiência do gestor Renê Marques, hoje técnico do time.

DIARINHO – O Barroso conseguiu um feito espetacular: retornou à elite do Catarinense no primeiro ano de recomeço do futebol profissional. Qual o segredo do sucesso desta empreitada?
Adriano Cipriano: O segredo vem do planejamento que a gente fez no início, quando resolveu entrar no futebol. O projeto é de março de 2015. Nós juntamos três empresários, compramos um CNPJ e montamos um clube de futebol. Montamos uma coordenação, onde o nosso treinador Renê [Marques], fazia parte da diretoria. Montamos um elenco onde conseguimos o acesso da série C para a série B do campeonato Catarinense. No final do ano, a gente montou uma parceria com um clube do Mato Grosso do Sul, o Naviraiense. A gente mandou a base da equipe, os atletas que tinha contratado, para o Mato Grosso e enviamos alguns atletas que tínhamos monitorado na região para montar uma base forte. A gente apostou no conjunto. Conjunto, desde a comissão técnica até o grupo de atletas. Eles foram para o Mato Grosso do Sul disputar uma competição da série A e depois os trouxemos de volta. A gente fez algumas contratações pontuais. Hoje o sucesso pelo acesso eu credito muito ao grupo e ao entrosamento dessa equipe que a gente montou no ano passado.

DIARINHO – Qual o segredo de ter uma folha salarial três vezes menor que seu principal concorrente (Tubarão) e conseguir o mesmo resultado na tabela do campeonato?
Adriano: O Tubarão fez uma bela campanha. A gente começou a montagem do elenco muito lá trás. Quando a gente deixa pra cima da hora para fazer as contratações, acaba tendo uma concorrência maior. A gente nunca entra em leilão de jogadores. Na montagem desse elenco, a gente perdeu muitos jogadores que tínhamos interesse, porque não entramos em leilão. Apresentamos o projeto para os atletas e seguimos até o limite do nosso orçamento, até para não extrapolar e não se perder no meio do caminho. A gente conseguiu apresentar o projeto do Barroso para 2016 e mostramos para o atleta a visibilidade que o futebol catarinense vive. Por isso, conseguimos montar esse elenco forte, com uma folha bem acessível e conseguimos esse sucesso. É um elenco muito forte. A gente costuma dizer não é um time, é um grupo. Hoje conseguimos esse sucesso justamente por começar as negociações com os atletas bem antes que as outras equipes.

DIARINHO – O Juventus está tentando tirar a vaga do Barroso no tapetão. O time alega uma irregularidade no CNPJ do clube. Há risco de o Barroso ficar fora do Catarinense?
Adriano: Na verdade ontem mesmo [segunda-feira], a federação Catarinense já se manifestou. O jurídico, através do doutor Rodrigo Capela, disse que é infundada a denúncia. O Tribunal já deve estar se manifestando pelo arquivamento dessa tentativa de processo. Até porque não tem embasamento legal nenhum nesse processo do Juventus. [Eles alegam justamente a questão do CNPJ do Nec..] Eles já tentaram por causa do nome há uns meses. Não conseguiram nada. Hoje, alegam que o Navegantes, quando a gente não tinha adquirido o CNPJ ainda, tinha uma punição de 2014, uma exclusão do campeonato de 2014. Quando a gente negociou, procurou o Tribunal e o jurídico da federação e converteu em uma multa de R$ 5 mil. A punição foi convertida em multa. Foi paga a multa e como o doutor Capela mesmo falou, o próprio Juventus participou do arbitral da competição da série B e não teve nenhuma reclamação. Nada falou e concordou com a participação. Todas as equipes que participam do arbitral podem questionar. O Juventus não questionou lá no início. Na série C, nenhum dos clubes questionou a participação em 2015. Eles não têm embasamento legal para fazer esse tipo de reclamação.

DIARINHO – Que tipo de parceria o clube tem com o craque Ronaldo Fenômeno?
Adriano: Temos uma franquia de uma escola de futebol da R9 – marca vinculada ao nome do Ronaldo. É uma academia de futebol que trata os alunos de uma maneira mais profissional. O trabalho dos professores é diferenciado, visa não só formar um atleta, porque, na verdade, nem todos têm talento para serem atletas. O principal objetivo é formar um ser humano na academia de futebol e, posteriormente, se tiver o talento, ser um atleta.

DIARINHO – Estar na séria A significa que haverá a necessidade de mais investimentos para montar um time competitivo. Como o Barroso está se preparando para essa nova fase? Vai contar com novos patrocínios?
Adriano: Estamos finalizando um projeto para abordar o empresariado da cidade. É muito importante não só o empresariado, mas toda a cidade abraçar. A gente tem hoje, como espelho, a própria Chapecoense que está levando o nome de Chapecó e das empresas que estão juntas, nacionalmente, há três anos na série A do Brasileiro, e disputando uma final da Copa Sul-americana – campeonato internacional. O futebol dentro da cidade, como Itajaí, com tantos habitantes e tantos apaixonados pelo futebol. Estamos fazendo o planejamento e vamos abordar assim que estiver concluído. Definimos algumas datas e vamos buscar grandes parcerias. Tem que fazer um investimento à altura de um campeonato de série A, mas sempre com os pés no chão, como a gente fez na série C e B. [Já tem o nome de alguma empresa que pode ser parceira?] Já temos nomes sim, mas eu prefiro, por enquanto, não divulgar, porque não temos nada fechado, nada assinado.

DIARINHO – Como vocês pretendem montar o time para 2017? Tem algum nome forte que já está na lista de contratações? Vão manter parte do time atual e o técnico?
Adriano: Pretendemos manter grande parte dos jogadores. Manter a base, manter o grupo, porque montamos um grupo muito bom este ano, no comportamento dentro e extracampo. A gente tem um perfil de atleta que busca trazer. Temos alguns nomes em vista, juntamente, com a comissão técnica. O treinador Renê, com certeza, vai estar no projeto, e esperamos que toda a comissão técnica. A gente vai deixar terminar a competição de 2016 para fazer a apresentação dos jogadores no momento adequado.

DIARINHO – O Barroso não tem estádio para receber os jogos em casa. Qual a solução para o mando de campo nos jogos do Catarinense da séria A? Os jogos serão no estádio do Marcílio?
Adriano: O Barroso tem estádio para receber a série A! Eu ouvi alguns comentários falando que a capacidade precisava ser de, no mínimo, três mil torcedores, mas isso não existe. Hoje a gente está fazendo um projeto e apresentando para o corpo de bombeiros para aprovar o laudo, para podermos colocar algumas arquibancadas móveis. A gente sabe que a média de público no futebol de Itajaí, acompanhando o próprio Marcílio Dias, em alguns jogos, quando o time vai bem, jogos com clubes maiores, tem um público considerável. Mas em outros jogos, a média de público não é tão alta assim. Hoje temos um estádio com capacidade para 1160 torcedores e, em jogos que tivermos uma demanda maior de ingressos, tem essa possibilidade de instalar arquibancadas móveis. A ideia é trazer o torcedor e vincular a marca Barroso no estádio Camilo Mussi, que é o estádio do Clube Náutico Almirante Barroso.

DIARINHO – Como está adesão da torcida e de novos sócios ao Barroso? Tem aumentado? Como ter mais torcedores?
Adriano: O Barroso é um clube associativo, então ele tem o quadro de sócios, e ele aumentou consideravelmente. O sócio que frequenta o clube tem estrutura com piscina, com salão de festas, o próprio campo de futebol, tem o campeonato tradicional de 24 anos, onde os associados participam todos os anos… Tem muitos torcedores que ainda não se tornaram sócios, mas esperamos, lógico, que se tornem. Tem uma procura muito grande, manifestações nas redes sociais, tem sido muito bacana. Muitos falavam que a torcida do Barroso era uma torcida velha, com mais idade, mas tem surpreendido a quantidade de jovens que tem procurado, adicionado, mandado recado. Até tem uma pequena torcida organizada. A gente se preocupou lá no início porque torcida organizada é problemático. Mas era um grupo de jovens que montou, fez bandeiras e está acompanhando o Barroso e todo dia mandando mensagem de incentivo. [Conforme o time foi se saindo bem na série B, tu notou que atraiu mais torcedores?] O resultado dentro de campo influencia muito o torcedor. O primeiro jogo do Barroso já teve um público alto – foi a estreia no campeonato. A gente percebeu fora de campo, nas redes sociais, a manifestação maior. Nas ruas, nas vendas de camisas, isso, com certeza, com os resultados, foi aumentando. [Hoje não existe a possibilidade de ser sócio somente do futebol, tem que ser sócio de toda a estrutura do Barroso?] Sim. E é um valor bem acessível. Você se torna sócio do Barroso com a mensalidade de R$ 100, além de ser um torcedor, pode usufruir de toda a estrutura do clube com uma mensalidade baixa. A joia custa R$ 250.

DIARINHO – O Marcílio dias, nas últimas décadas, foi o time que representou Itajaí, mas com as sucessivas diretorias que fracassaram na administração, os torcedores e patrocinadores minguaram. Vocês cogitaram assumir o Marcílio antes de se decidirem pelo Barroso?
Adriano: Não. O nosso clube é um clube empresa. Ele tem um quadro de sócios que faz a gerência de uma empresa. Ele é totalmente diferente, não tem quadro político. A gente administra como uma empresa. O clube Náutico Marcílio Dias, temos grande respeito, é um gigante do futebol não só de Itajaí, mas do estado de Santa Catarina, mas é um clube associativo, tem demanda política, as administrações, às vezes, brigam entre si, como acontece em vários clubes. A gente entrou no futebol em um negócio onde: se a gente tiver lucro, vai ter lucro; se tiver prejuízo, serão os donos que terão prejuízo e o que tiver que acontecer será entre uma empresa e não um clube associativo. Agora entrou uma diretoria nova no Marcílio, eu desejo sucesso e que consiga trazer de volta esse empresariado, porque o futebol é complicado mesmo. Não é fácil. A situação econômica do país não ajuda muito, mas o Barroso hoje é gerido por uma empresa. Somos donos de uma empresa e a política fica dentro do clube Náutico Almirante Barroso, da associação. [São dois sócios. Vocês conseguem viver só de futebol?] Não. A gente tem o nosso ramo de serviço. Eu tenho uma empresa de refrigeração industrial e o meu sócio trabalha com comércio exterior. A empresa ajuda um pouco o futebol. A gente visa recuperar o investimento a médio e longo prazo, e no futebol a gente sabe que é assim também…

DIARINHO- Há torcedores do Marcílio desgostosos e migrando para torcer pelo projeto do Barroso?
Adriano: Muito barrosista torceu anos pelo Marcílio porque não tinha futebol no Barroso. Eu acredito que muitos marcilistas não têm essa rivalidade com o Barroso. Quando a gente estava construindo o campo, eu via alguns torcedores do Marcílio de bicicleta encostarem, torcedor mais antigo, e falar: “a gente vai ter a oportunidade de ver o Marcílio e Barroso novamente”. Com a camisa do Marcílio, dentro do estádio do Barroso, visitando. Dentro da estrutura, a gente faz locação para grupos de amigos que jogam futebol e tem uma equipe que é de torcedores do Marcílio e joga com a camisa do Marcílio. Tem sido muito bacana, todos serão bem recebidos lá dentro e espero que na série A, possam não só torcer para o futebol do Barroso, mas para o futebol de Itajaí.

DIARINHO – Como o senhor vê o projeto do Atlético Itajaí? Pode ser um futuro rival para o Barroso?
Adriano: O Atlético Itajaí é mais um clube empresa. Eu conheço o pessoal, o Fábio [Bartelt], a diretoria, pessoas sérias, pessoas que também viram uma oportunidade no futebol, como a gente, que visa, além de fazer um bom time, fazer um investimento para ter retorno com atletas jovens – que também é o nosso objetivo. No nosso elenco, a gente sempre procura ter atletas com potencial de negociação. E acredito que eles vão ter sucesso a curto prazo. [A oportunidade que o Atlético Itajaí viu e que vocês também viram é o investimento em categorias de base, investimento nesse atleta inicial?] Com certeza, o potencial de negociações são de atletas mais jovens. Ano passado, pelo pouco tempo, a partir do momento que a gente comprou o clube para montar uma estrutura, pecamos um pouco com a base. Hoje estamos reestruturando e em 2017 vamos ter uma estrutura bem melhor para a base. Já temos atletas da base treinando junto com os profissionais e atletas com baixa idade entre os profissionais.

DIARINHO – Vocês estão fazendo futebol e tendo sucesso com pucos investimentos – ao contrário do que se prega hoje no futebol pelo mundo, onde as negociações são astronômicas. Em quem vocês se espelharam?
Adriano: Eu e o meu sócio sempre ajudamos muito o futebol amador da região. O futebol amador é feito muito pelo bairrismo. Geralmente, os times mantém o grupo e buscam um jogador de fora– mas sempre mantém o grupo. Muitos clubes do amador que foram campeões mantiveram essa linha. Hoje em um clube grande, a gente não sabe mais a escalação de um time de um ano para o outro. Vê um clube muito bem em um ano, e no outro ano não consegue se manter porque alguns jogadores saem, porque acontecem negociações. Ainda tem essa condição, mas agora a gente vai ter um pouco mais de dificuldade pela visibilidade que é maior na série B, alguns atletas têm sido procurados. Mas realmente a base e o grupo, a gente vem apostando desde o ano passado. Acreditamos que o entrosamento e o grupo fazem muita diferença no dia-a-dia, não só no treinamento. O atleta passa a se conhecer, a saber quando o outro está em dificuldade e dentro do campo não é diferente. Quando ele precisa correr, o outro já sabe que ele está diferente, vai correr um pouco mais e é mais ou menos isso que a gente tem feito.

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