Home Notícias Entrevistão “SC é o segundo estado em número de suicídios no Brasil”

“SC é o segundo estado em número de suicídios no Brasil”

O Centro de Valorização da Vida (CVV) completou, em 2 de novembro, 10 anos de atuação em Itajaí. Desde a fundação, a repercussão e a importância do trabalho da entidade só têm aumentado. Atualmente, Santa Catarina é o segundo estado brasileiro com o maior número de suicídios do Brasil. Para falar sobre esse tema, que já é considerado um caso de saúde pública, a jornalista Franciele Marcon entrevistou duas pessoas responsáveis por manter o CVV de Itajaí: Roberta Inícia Reis, coordenadora, e Eraldina Bilau Assini, presidente do Núcleo de Apoio à Vida (NAVI). As duas falaram sobre a filosofia de trabalho do grupo, que se dispõe a ouvir quem os procura, a dificuldade de achar voluntários para a causa e explicaram a importância de se oferecer acolhimento neste mundo cada vez mais individualista. O ato de ouvir, demonstram, pode salvar vidas.

“Santa Catarina é o segundo estado em número de suicídios no Brasil”

“Muito simples: acolhimento, isso que o ser humano precisa. O afago, o afeto.”

“Quem tenta o suicídio pede ajuda antes, então se ficarmos atentos aos pedidos, pode ser detectado sim”

Raio X
NOME: Roberta Inícia Reis
NATURALIDADE: Brusque
IDADE: 73 anos
ESTADO CIVIL: casada
FILHOS: um filho e dois netos
FORMAÇÃO: Direito
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: empresária, coordenadora do posto do Centro de Valorização da Vida (CVV) e voluntária da entidade desde 2009.

Raio X
NOME: Eraldina Bilau Assini
NATURALIDADE: Ibirama
IDADE: 61 anos
ESTADO CIVIL: viúva
FILHOS: três filhos e dois netos
FORMAÇÃO: ensino médio completo
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: comerciária, presidente do Núcleo de Apoio à Vida (NAVI), entidade mantenedora do Centro de Valorização da Vida (CVV) Itajaí; já atuou na Casa de Passagem de Itajaí e na creche Francisco de Assis

DIARINHO – O CVV completa 10 anos de funcionamento neste mês de novembro. Quantos são os voluntários em SC e como foi a evolução do atendimento no estado?
Roberta Inícia Reis: O CVV Itajaí tem 10 anos! Mas estamos há 54 anos no Brasil, desde 1962, e hoje temos 75 postos espalhados pelo país. Temos 1900 voluntários, dados do mês de outubro, e em torno de um milhão de atendimentos. Temos atendimento via telefone convencional, pelo Skype, o chat Voip– bem procurado, e-mail e até cartas a gente recebe com desabafos.

DIARINHO – É verdade que Santa Catarina é o segundo estado em número de suicídios no Brasil?
Roberta: Exato. Santa Catarina é o segundo estado em número de suicídios no Brasil. Justamente por estar na região sul, não se sabe por que, mas Rio Grande do Sul e Santa Catarina foram contemplados com essa triste notícia. [Temos uma média de quantos suicídios?] No Brasil são 45 suicídios por dia. No mundo, a cada 40 segundos uma pessoa se mata. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são dados estatísticos de especialistas, o suicídio é considerado uma questão de saúde pública. A OMS tomou tento sobre isso e foram elaborados diversos programas de prevenção. O CVV, nessa época, ajudou. Estamos dentro desse programa, tanto que fomos contemplados com o número de telefone e as ligações serão pagas pelo Ministério da Saúde, que é o 188. [Esse número já funciona na região?] Não, ele funciona no Rio Grande do Sul e em algumas cidades do Paraná.
Eraldina Bilau Assini: Em Santa Catarina também tem o telefone, em Blumenau, Florianópolis. [Qual a previsão para Itajaí e região disporem desse número?] Nós estamos esperando para daqui dois meses, esse é o tempo que nos foi nos dado para ele começar a funcionar na região. No nosso posto e na redondeza. [Isso vai facilitar mais o atendimento?] Com Certeza, porque é gratuito. Vai ser igual ao corpo de bombeiros, polícia militar – isso vai ser de grande ajuda. Além de ser fácil decorar.
Roberta: Nós já temos hoje o 141. Porém, há custo na ligação e isso inibe a pessoa de falar mais, ou até de ligar. O 188 vem como uma emergência salvadora.
Eraldina: O Voip também deu uma vida maior para esses desabafos, ele também é gratuito. Hoje, a juventude está em peso nesse meio de comunicação. Voip, o Skype sem imagem, isso também está sendo de grande valia nos postos, a maioria dos postos em Santa Catarina também já usa. [Vocês recebem muitas ligações com essa tecnologia?] Muitas, do Brasil inteiro e do exterior, inclusive. Brasileiros que estão lá, do outro lado do mundo, se comunicando com a gente.

DIARINHO – Este alto índice de suicídios no sul tem a ver com a colonização europeia? Na Europa, especialmente em países como a Suécia e os nórdicos, os índices de suicídio são bastante altos. Esse fator ajudaria a explicar este fenômeno por aqui?
Roberta: Eu não posso te dar certeza, porque com os nórdicos falam que é por causa do frio, da temperatura. No sul também temos o tempo frio. O sul realmente é complicado, porque não temos tanta miséria, porém esse índice de sucídio é grande. Os nórdicos também não tem miséria.
Eraldina: O que eleva muito esse índice é Balneário Camboriú, cidade onde acontecem muitos casos.
Roberta: O que leva Balneário a este estado é porque é uma área estudantil. Uma cidade universitária, onde existe muito isolamento. Balneário tem grande quantidade de idosos também. Tem acontecido muitos casos de idosos sozinhos se suicidando e de alunos da universidade, que estão isolados, também. Falta o aconchego da família. Meninos muitos jovens que vem estudar e moram sozinhos em apartamentos. Balneário dá para qualificar sendo isso: o idoso solitário e o mundo estudantil.

DIARINHO – O suicídio está muito ligado à solidão?
Roberta: Bem ligado à solidão, à depressão. [Toda pessoa depressiva tem tendência ao suicídio?] A grande maioria.
Eraldina: Os estudos apontam que em cada 10 casos, nove poderiam ter sido evitados. [O que falta para evitar?] Falta esse contato humano. Esse calor humano, o desabafo. Quem tenta o suicídio pede ajuda antes, então se ficarmos atentos aos pedidos, pode ser detectado sim. Hoje se distanciou muito em função de vários fatores em nossa sociedade, essas pessoas se isolaram ainda mais e isso agrava o número de suicídios.

DIARINHO – Qual a técnica que o CVV se vale para buscar salvar as vidas das pessoas que procuram ajuda?
Roberta: O CVV é uma entidade que não tem ligação com política ou religião. Não aconselhamos, não direcionamos, enfim, a gente só aceita ouvir o desabafo. Conversamos com a pessoa o tempo que ela quiser, estamos com ela de corpo e alma. A gente aceita, acredita nela, confia, compartilha, enfim, estamos com ela. A gente tem casos de pessoas que ligam agradecendo. Hoje tive um caso que a pessoa disse: “vocês são uns anjos”. Eu disse: “somos pessoas normais, não somos anjos coisa nenhuma”. Daí ela disse: “pra mim vocês foram anjos, porque eu estou aqui graças a vocês”. Isso foi através do Voip, de pessoas que ligam até de fora do país, de Boston, de Tóquio, outras cidades do Japão, Portugal, enfim… Eles têm em nós um amigo incondicional. Nós não perguntamos nem o nome da pessoa. É sigilo absoluto. Se ela quiser dizer que é Maria, eu vou tratá-la como Maria. Isso cria aquela relação de ajuda tranquila. Nós não perguntamos nada para a pessoa, tentamos clarear alguma, em uma pergunta que ela nos faz. Nessa hora a gente tem a condição de fazê-la pensar. Repetindo uma frase que a pessoa mesmo disse: “é isso mesmo que você falou, que aconteceu com você?”. Somos preparados, somos treinados, fizemos estudos, cursos para estar disponíveis interna e externamente para atendê-los. De coração aperto. Deixamos o nosso problema lá na bolsa. A bolsa lá fora, junto com os nossos problemas, alegrias e tristezas, e estamos inteiros para quem nos liga. Essa é a nossa relação de ajuda com quem liga ou quem chega – porque atendemos pessoalmente também. Pessoalmente é bem mais raro. A pessoa que liga gosta de ficar mais à vontade. Tem pessoa que liga e diz que vai falar para mim aquilo que não falou nem para o seu psiquiatra – porque o psiquiatra a conhece. [A mesma pessoa liga várias vezes?] Acontece também. Não temos fichinha de ninguém, para a gente sempre é um novo que liga. Mas a gente sabe que aquela pessoa já ligou e a história recomeça. E é no recontar, que a pessoa vai começando a pensar.

DIARINHO – Há algo que inicie a tendência suicida?
Roberta: Sempre existe. Pode ser a separação, o luto, a perda do emprego, perda do amor, alcoolismo, drogas, solidão… Só que a pessoa que ligou é que vai decidir se vai falar ou não sobre aquilo. Normalmente, ela fala. Ela se abre. Às vezes, demora um pouco e, às vezes, acontece assim: “alô, alô, CVV, bom dia”. E a pessoa fica muda. Nós não desligamos. A gente dá um tempo, insistimos novamente: “você está aí, estou aqui com você. Se você quiser falar dá um toque para eu saber que você está aí ainda”. E, às vezes, a relação da gente acontece.
Eraldina: E temos quem ligue para falar da sua alegria. Não é só tristeza. As pessoas pensam que o CVV é só para quem está pronto para cometer o suicídio, mas não é bem assim. Muitos psiquiatras dão o número do CVV para os pacientes ligarem e ligam para falar da sua alegria. De uma gravidez que não pode ser comentada em casa, gente que passou no concurso e está sozinha, não tem com quem falar dessa alegria. Nem sempre as ligações são por causa de suicídio, às vezes quer só conversar com alguém. Esse tempo que a gente disponibiliza para a pessoa, ela encontra um acolhimento que não encontra no ambiente que vive. Isso salva vidas! Valoriza a vida, pois consegue relaxar e ter outros pensamentos.

DIARINHO – Há estáticas no Brasil que investigam a faixa etária, classe social, gênero, escolaridade das pessoas que cometeram suicídio? Dá para definir um perfil?
Roberta: A faixa etária hoje começa bem mais cedo. Pelo atendimento através da internet, tem menino de 12 anos que não quer mais viver. Não somos profissionais da área da saúde, então só podemos falar do nosso caso, o que a gente atende. Nos ligam meninos de 12 anos. Estamos fazendo treinamento para atender crianças, estão vindo muitas crianças solitárias, que os pais saíram. “Não sei fazer a minha tarefa, não sei o que fazer, vou me jogar da janela, porque não consigo fazer e a minha mãe vai me matar se eu não fizer…”. São coisas assim, e até pessoas que não se pergunta a idade, se a pessoa fala a gente já sabe que são pessoas da terceira idade. Não tem grau de escolaridade e nem classe social ou nem econômica. Tá generalizado.

DIARINHO – Vocês trabalham há 10 anos com o CVV. Se assustam com o aumento de casos? Globalização, individualização, isolamento, correria do trabalho, mundo virtual, são fatores que influcenciam?
Roberta: O meu entender é o seguinte, pelo que a gente ouve: antes tinha uma família à minha disposição, hoje não tem mais. A família está dispersa. A família não é mais aquela que ia tomar cafezinho todos os dias. Cada um pela manhã dá tchau e a pessoa que quer falar algo, não tem nem condições. Isso é solidão. Chega no grupo de trabalho, todo mundo enfiado no seu afazer, não pode ouvir o amigo. Se ouve o amigo é na hora de contar a piadinha, que também faz parte, o lado lúdico. Aquela hora do desabafo, ninguém tem tempo. Ocorre de a gente atender pessoas que dizem: estou rodeado de gente, mas não tenho com quem falar. Daí ligam para o CVV.

DIARINHO – Como as famílias devem agir para brecar as tendências suicidas de um parente?
Roberta: É ouvir! Vamos sentar, fulano, vamos conversar. Vamos tirar um tempo. A pessoa por mais dispersa que seja, o pai, a mãe, o irmão, filho ou filha, percebe que aquela pessoa está mudando, percebe que não tem a mesma espontaneidade, a mesma alegria. E acha que não é nada! Pensa que não é nada, mas ela está precisando de um colo. De sentar e ser ouvida. Nós aprendemos que podemos praticar o CVV a qualquer hora. Aqui na esquina, se eu for dar orientação para alguém: “eu quero ir na rua tal”. “A rua tal é assim, assim e assim”. E a pessoa diz: “pois é, está me acontecendo isso..”. Então eu paro e digo: vou conversar com você, eu tenho tempo. Estou dando chance para ela desabafar. O CVV pode estar dentro de qualquer um. A relação de ajuda que a gente pode criar com outra pessoa. Pode falar, não vou te recriminar! A gente não julga jamais.

DIARINHO – Cada vez se registram mais casos de suicídios entre adolescentes, especialmente na faixa etária de 10 a 15 anos. Porque isso tem se intensificado entre jovens que estão no início da vida?
Roberta: É uma coisa que dá dó, porque somos seres humanos e gostamos de crianças. E pensar que com 12 anos uma criança não quer mais viver… Tem que ser ajudada.
Eraldina: Mas nós temos orientação, a gente tem orientação e o CVV se preocupa muito com cursos voluntários. O aprendizado e o treinamento. Temos como voluntários psicoterapeutas, não quer dizer que ela é voluntária por isso, porque qualquer pessoa pode ser voluntária. Lá, ela não é não psicoterapeuta, mas tem essas orientações. Através dos cursos, temos muitas leituras, muita informação. O CVV está aprendendo a todo o momento. Até então a gente lidava com crianças de uma forma, hoje a gente passa a lidar, inclusive com os que estão em volta da gente, como os netos, dessa forma que temos resultados positivos. [Uma forma mais acolhedora?] É, acolhedora. É só acolhimento. Muito simples: acolhimento, isso que o ser humano precisa. O afago, o afeto.
Roberta: Propiciar o desabafo. Nós temos uma frase muito célebre no CVV: “criar ameaça reduzida” – para não dizer ameaça zero… Ameaça reduzida tanto entre nós que estamos no trabalho, no nosso curso, e quando atendemos alguém.

DIARINHO – Falar sobre o tema suicídio com uma pessoa em depressão pode ter um efeito inverso ao pretendido, ou seja, ao invés de ajudar acabar piorando a situação?
Eraldina: Não, porque no momento que ela começa a falar… Quando ela ouve a própria voz, ela está se manifestando, a própria voz dela está falando com o voluntário, e, muitas vezes, o voluntário até repete aquilo que ela falou. O que acontece: volta para ela e o raciocínio volta a funcionar. E de uma outra forma. Ela começa a fugir daquele pensamento. Quando se fala, percebemos por nós, quando estamos bravos, chateados, e se a gente consegue falar, a gente se acalma. Assim é aquele que nos procura. Ele não tem com quem falar. Ele está com o copo cheio, está transbordando, a somatória de muito sofrimento e pensamentos que, às vezes, são pensamentos que não vão se concretizar, mas para ele, no momento, é aquilo. Ele fala do que está incomodando e esvazia, se acalma.

DIARINHO – Quando a pessoa deve procurar ajuda?
Eraldina: Sempre! Sempre que ela tiver vontade de conversar com alguém. [É 24 horas, hoje?]
Roberta: Aqui em Itajaí não. Precisamos de mais voluntários. O CVV, em todo o Brasil, tem a obrigação, senão ele é fechado, de ter uma faixa contínua de quatro horas por dia, semana, mês e ano, que é das 12h às 16h.
Eraldina: Tem dias alternados que temos das 16h às 20h. Hoje já temos um dia da semana, terça-feira, das 8h à meia-noite. Já tivemos uma vez 24 horas, o posto já foi 24 horas, mas há falta de voluntários.
Roberta: Na internet temos outros horários. Praticamente 24 horas. Tem o chat e, como é uma conexão mundial, ele tem mais chance de achar alguém para atendê-lo. Quando nós falamos de Itajaí, falamos do telefone 141 e (47) 3349-4111, que são os fixos. Se a pessoa procurar através do chat, do Skype, vai encontrar outros horários de atendimento.

DIARINHO – Como é manter o CVV?
Eraldina: É muito difícil. O CVV tem muitos poucos contribuintes mensalmente. Tem voluntário que paga a internet, tem voluntário que paga o telefone. Tem uma mensalidade baixinha para manter o básico. Este ano, em função do Setembro Amarelo, dos 10 anos, se teve muito apoio em cartazes de empresas que contribuíram com a divulgação. O CVV é um voluntariado diferente: anônimo. Não dá sacolão, mas salva vidas.

DIARINHO – Quem quiser ser voluntário ou ajudar financeiramente?
Eraldina: O Navi, a mantenedora, é uma empresa. Temos todas as documentações, muito certo, muito correto, as pessoas podem fazer doações. Ligando para a tesouraria, ou para mim, ou por e-mail no posto, itajai@cvv.org.br. Estamos nos preparando para fazer cursos no dia 22 de janeiro – primeiro curso de preparação do voluntário, que chamamos CPV – Curso de Preparação de Voluntários. Estamos com sonhos de fazer cursos para outras entidades que trabalham com salvamento, como bombeiros e polícia Militar. Ir lá ao local e fazer cursos com eles. Temos o trabalho de campo, o CVV sai, ele não vai lá dar atendimento, é um trabalho diferenciado. A gente vai dar os cursos como dá aos voluntários, só que eles não vão fazer plantão lá junto com a gente, mas estarão preparados para ouvir. Com toda essa demanda na área da saúde, o CVV é uma ferramenta qye as pessoas podem contar. Um acesso para o desabafo e, muitas vezes, o único socorro.

Compartilhe: