• Itajaí: 160 anos

    Itajaí: 160 anos

Itajaí faz 160 anos em constante reinvenção

Ninguém poderia imaginar que em 2020, o Brasil teria que parar tudo por causa de uma pandemia que começou do outro lado do mundo e atravessou o oceano por conta do constante ir e vir de viajantes de um mundo cada vez mais globalizado.


A Covid-19 nos fez perceber como estamos globalmente conectados e impôs uma parada estratégica não só pra evitar o contágio, como pra repensarmos a forma como a vida moderna se constituiu e, de repente, dar um passo atrás pra evoluir de forma sustentável.

Neste sentido, o especial de aniversário traz uma reportagem sobre as soluções urbanísticas mais viáveis para a icônica avenida Hercílio Luz, concebida para estender o centro até o Largo da Matriz e que, de tempos em tempos, precisa de uma atualização para se manter ativa. Ouvimos arquitetos, moradores, visitantes e comerciantes para saber o que pode trazer a vida de volta ao centro da cidade, de uma forma mais antenada aos desafios do século 21.

Itajaí faz 160 anos em constante reinvenção

Como exemplo, mostramos como a união de moradores voluntários para cuidar de uma área verde no centro da cidade, que introduziu Itajaí na seleta lista de cidades com soluções inteligentes para revitalizar espaços públicos. O gramado da Praça dos Correios, em frente ao Salesiano, virou atração em meio ao cinza do concreto, aliando lazer e educação ambiental e apostando numa postura mais pró-ativa de co-gestão de um espaço aberto compartilhado.

O especial traz ainda um resgate histórico sobre o ferry boat, que faz a ligação entre Itajaí e Navegantes há mais de 40 anos, depois de décadas em que a população se aventurava em frágeis barquinhas sujeitas a tempestades. A empresa que hoje transporta cerca de 15 mil passageiros por dia tem planos de abrir mais uma rampa para resolver as dores do crescimento da região, e as longas filas de verão.

O caderno de 160 anos ainda traz uma matéria mostrando a transformação de infraestrutura que começou em Itajaí no último ano, com investimentos internacionais. O pacote prevê 30 grandes obras em 17 bairros com mudanças na mobilidade, infraestrutura, urbanização e lazer.

Já a matéria falando dos avanços da construção civil mostra que é possível superar a crise, continuar empreendendo e gerando empregos. E a nova etapa da bacia de evolução desenha um futuro promissor para a economia da região, com navios modernos chegando ao complexo portuário de Itajaí.

Finalmente, tem a história da querida Hilda Molléri, 89 anos, que teve a tradição de fazer o bolo de aniversário de Itajaí há 22 anos, interrompida pelos tempos de isolamento social.

Itajaí está entre as 100 cidades com maior PIB do país

O município de Itajaí fechou 2019 com muitos motivos para comemorar. Não só figura no ranking do IBGE como uma das cidades com maior produto interno bruto (quase 22 bilhões), como registrou um aumento de abertura de novas empresas da ordem de 30,83% em relação a 2018 e abriu mais de 3200 vagas de emprego formal até setembro do ano passado. Quando 2020 chegou a pandemia do coronavírus retardou um pouco o avanço econômico no mundo, mas em terras peixeiras a expectativa é que a nova bacia de evolução do complexo portuário e 70 novos empreendimentos imobiliários continuem dando gás ao município.

Em novembro, a cidade também figurou na lista de cidades brasileiras com o maior orçamento em relação a população, a única de Santa Catarina, segundo o Observatório de Informações Municipais, divulgado pelo Valor Econômico. Com população estimada em 215 mil habitantes e receita de R$ 1,5 bi, Itajaí cresce num ritmo de cidade grande, e tendo a prestação de serviços como maior destaque, em contraste com outros municípios bem colocados, como Paulínea (SP), cuja receita é baseada na atividade petroleira. Segundo o IBGE, o setor de serviços é responsável por 43% das vagas de empregos formais por aqui.

Entre os serviços que mais se destacam em Itajaí estão aqueles que dão sustentação à atividade portuária, como empresas de logística, construção naval, construção civil e até a rede hoteleira, que triplicou o número de leitos desde 2012 com a inauguração de hotéis de alto padrão, como Mercure e Hilton. Os hotéis atendem não só empresários de passagem pela cidade em eventos de negócios, como turistas que descobriram a cidade depois que entrou na rota da maior regata volta do mundo, a Volvo Ocean Race, em 2012. E ainda tem uma marina, que é o porto seguro para centenas de viajantes que chegam a Itajaí pelo mar.

O setor de serviços responde por 57,89% das novas empresas criadas em Itajaí, seguido pelo comércio (25,56%), indústria (8,29%) e construção civil (7,81%).

Um dos setores que melhor representa este novo ciclo de prosperidade econômica é a construção naval. O professor de Economia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Jairo Romeu Ferracioli, conta que Itajaí já tinha tradição na construção de navios para a Marinha e embarcações e equipamentos para a indústria petroleira nos estaleiros da Barra do Rio. E agora diversificou a atividade, atraindo empresas que fabricam barcos de lazer de grande valor de mercado, que atendem a um público exigente dentro e fora do Brasil.

População atual de Itajaí está estimada em 215 mil habitantes

População atual de Itajaí está estimada em 215 mil habitantes

“Até os anos 80, Itajaí era um polo de abastecimento e armazenagem de combustíveis e produtos como madeira e açúcar. A chegada do contêiner mudou tudo. Hoje podemos comercializar de frango congelado a carros e barcos”, enfatiza.

Jairo afirma que para impulsionar a economia é preciso estimular a produção e procurar novos mercados sempre. Com relação a questão cambial, Jairo acredita que nem sempre dólar alto e real desvalorizado ajudam nas exportações.

“Ao mesmo tempo em que nossos produtos ficam mais competitivos, tudo que importamos fica mais caro, e somos compradores de produtos de maior valor agregado, como os eletrônicos, e vendemos commodities (matéria-prima), como soja e minério, o que desequilibra a balança comercial”, acrescenta. Sem falar que muitos componentes que são usados na indústria brasileira são importados e pagos em dólar, o que reduz a margem de lucro se a moeda estiver mais alta e a empresa não puder repassar o custo ao comprador final.

Setores que dão sustentação ao porto, como indústria naval e construção civil, tiveram importante papel na retomada do crescimento econômico


A prefeitura de Itajaí anunciou o Plano de Desenvolvimento Econômico Municipal para identificar e planejar os setores econômicos de maior potencial em parceria com o Sebrae. Foram identificados cinco eixos estratégicos: tecnologia da informação e educação, construção civil, operações, logística e turismo.

Na Univali também será inaugurada a Escola de Negócios com ênfase no empreendedorismo. Professores das áreas de Administração, Logística, Comércio Exterior e Ciências Contábeis estarão atendendo alunos de todas as áreas que pretendam ser donos do próprio negócio. “A universidade tem esse papel: investir no capital humano, qualificando a mão de obra. Uma cidade só se desenvolve se for amparada pelo investimento em educação e ciência”, conclui o economista Jairo Ferracioli, professor universitário há 26 anos.

O que o futuro reserva à Hercílio Luz?

Nos primórdios de Itajaí, a avenida Hercílio Luz se constituiu como a espinha dorsal da cidade, onde se concentravam as atividades econômicas, políticas e sociais. Foi a partir dela que o centro se expandiu, ligando as ruas Pedro Ferreira e Lauro Muller, que margeiam o rio, e a Igreja Matriz, erguida nos anos 50. E de lá, para o interior do município, de um lado pela rua Brusque, e do outro, pela rua Blumenau, cortada pela Marcos Konder. Durante o século 20, ela passou por transformações a medida que a cidade se desenvolvia e formava novos núcleos habitacionais. Hoje, a via precisa passar por mais uma atualização para encarar os desafios do século 21 para atender às novas demandas.

Hercílio Luz precisa de um mix de atividades para devolver o dinamismo

Hercílio Luz precisa de um mix de atividades para devolver o dinamismo


Umas das questões levantadas pelos comerciantes é a possibilidade de reabertura para veículos para facilitar o acesso às lojas, mas a alternativa, que foi regra até os anos 80, passa longe dos estudos mais modernos de urbanismo e modalidade urbana. E talvez nem resolvesse a questão comercial, já bastante prejudicada pela abertura de novos centros de compras nos bairros e pela venda virtual, reforçada durante a quarentena.

O arquiteto e urbanista Dalmo Vieira Filho, autor do projeto Borda D’água, que reconecta a população ao rio, foi convidado pela prefeitura para dar uma consultoria sobre a revitalização do centro. Ele acredita que a cidade tem todas as chances de reproduzir modelos de sucesso, como no Rio de Janeiro a praça Mauá e Barcelona com as Ramblas. “O urbanismo atual tem produzido muita coisa de qualidade que ainda não é aplicada. Uma delas é a centralidade, que aposta no centro, como coração da cidade, que deve ser tratado de forma diferenciada para que a população sinta orgulho e volte a frequentar”, explicou.

Hercílio Luz já abrigou as principais atividades econômicas, políticas e sociais

Hercílio Luz já abrigou as principais atividades econômicas, políticas e sociais

Para Dalmo, a Hercílio Luz não precisa deixar de ser um eixo comercial, mas precisa de um mix de atividades para devolver o dinamismo. “Não se fala mais em áreas exclusivas para residências ou comércio. Nem o lazer sozinho segura uma estrutura daquela. É indispensável que tenha gente morando, que o comércio preserve a vitalidade e a região tenha áreas em que a arte e cultura se tornem atração,” vislumbra. Dalmo também aposta na valorização dos edifícios históricos e a conexão com as vias que ligam o porto ao Saco da Fazenda.

VALORIZAR O PEDESTRE

A arquiteta que está a frente do projeto da prefeitura de Itajaí é Tamires de Góes Maia, 37 anos. Ela conta que a prioridade continua sendo dos pedestres, e para isso, serão trocados o piso, a iluminação, os bancos, serão plantadas árvores e implantada uma ciclovia. Mas, para Tamires, apenas atualizar a via não é o suficiente para que o público retorne. “O projeto vai dar uma base, mas é preciso um conjunto de ações, como ter horários flexíveis do comércio, atrair moradores, que é uma questão de plano diretor, diversificar as atrações com opções de gastronomia, que sempre enriquece os espaços públicos, revitalizar as fachadas. Não adianta ter toda a infra-estrutura em um cenário caótico de publicidade, que interfere na identidade visual”, argumenta.

A propósito, a falta de espaço adequado para a circulação de bicicletas provoca conflito entre pedestres e ciclistas. O paranaense Ronaldo Augusto Borba mora em Itajaí há dois anos e reclama que muitos ciclistas vêm em alta velocidade, razão pela qual quase foi atropelado algumas vezes no calçadão. A artesã Elaine Vieira mora em Navegantes e comentou que sente falta de flores e cores. Com relação aos ciclistas, acredita que falte fiscalização, e a possibilidade de liberar o espaço para veículos não lhe agrada. “Vai atrapalhar ainda mais,” alerta.

Tendência

Praça dos Correios coloca Itajaí no mapa mundial de soluções criativas e sustentáveis

A ideia não poderia ser mais simples e, ao mesmo tempo, mais revolucionária. No local onde antes havia um prédio público abandonado, hoje há um grande gramado e moradores de todas as idades se revezam para plantar ervas, flores e árvores, apostando na reconexão entre as pessoas e a natureza para que o centro volte a respirar. Assim nasceu a Praça dos Correios, em frente ao Colégio Salesiano.

O arquiteto Dalmo Vieira Filho conta que a abertura de áreas verdes através de hortas comunitárias faz muito sucesso na Europa, e a participação da comunidade neste processo impõe uma agenda ao urbanismo bastante arrojada. “Eu achei muito interessante a possibilidade da comunidade gerir o espaço, se apropriar dele, prepará-lo para o uso conjunto. É uma experiência que pode ser replicada em vários bairros, essa co-gestão. Em Paris, existem milhares de hortas comunitárias, se tornou uma paixão nacional”, relata.

Parça dos correios inova ao inserir o verde à aridez do centro e ao dividir responsabilidades com a comunidade

Parça dos correios inova ao inserir o verde à aridez do centro e ao dividir responsabilidades com a comunidade

Quem está a frente do projeto é a empresária Aline Aranha, 45 anos, que sempre morou na região e não se conformava com a degradação do local, no coração da cidade. “Quando eu vi num sábado à noite o prédio dos Correios sendo demolido, percebi que era o momento de mobilizar a comunidade. Foi muito bonito o engajamento e, ao mesmo tempo, triste perceber como as pessoas não acreditavam que ali poderia ser um espaço para todos”, recorda.

Aline foi uma das idealizadoras da praça comunitária

Aline foi uma das idealizadoras da praça comunitária

A primeira ação foi um abaixo-assinado para que o local permanecesse de uso público. Aline e os voluntários coletaram mais de duas mil assinaturas. A iniciativa foi bem recebida pela prefeitura, que ainda luta para ter a posse definitiva da área, já que a União recorreu na justiça. Um dos que primeiro se engajou na causa foi o professor de inglês Alex Stein, 45. Ele conta que a avó mora em um prédio ali perto e como sempre atuou em causas ambientais, viu uma oportunidade de colocar em prática os valores que acredita podem melhorar a relação do ser humano com o planeta.

“A maioria prioriza os prédios, não há distância entre as construções. Tem apartamento onde o banheiro nem tem janela, mas um sistema de ventilação. As pessoas estão adoecendo e depois não sabem por que”, exemplifica.

Atrações culturais e segurança pública podem ser diferenciais

A historiadora Evelise Moraes, 40 anos, está a frente da agenda cultural do Museu Histórico de Itajaí, que até o ano passado movimentava as noites da esquina da Hercílio com a Marcos Konder. O projeto Música no Museu começou em 2018 e foi interrompido por causa da pandemia. O horário das 20h era estratégico para dar tempo de quem trabalha em horário comercial ir em casa e retornar para assistir aos espetáculos, que contavam também com o povo que saía da missa da Igreja Matriz.

“Com a Casa de Cultura funcionando como conservatório de música à noite, percebemos que não só temos potencial para atrair o público, como já tínhamos uma plateia cativa. Em apenas dois anos, o projeto estava se consolidando”, revela. Evelise aponta, porém, que a falta de moradores no centro dá o aspecto abandonado que afugenta visitantes e compromete a funcionalidade da avenida.

Revitalização requer obras de intervenção e atrações culturais e de lazer

Revitalização requer obras de intervenção e atrações culturais e de lazer

“Na praça ao lado do museu tem muita circulação de usuários de drogas. A ocupação com eventos culturais requer o apoio da segurança e da assistência social. Se as pessoas não se sentirem seguras, não vão utilizar o espaço”, argumenta. Evelise conta que a praça Arno Bauer foi inaugurada em 2017 e no começo era muito frequentada por famílias, mas aos poucos, por causa do abandono, foi ocupada pela população de rua.

O doutor em história Roberto Severino, que atualmente é professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aposta na vocação cultural da Hercílio Luz. “É um corredor lindo, que poderia ter uma maior centralidade no fluxo turístico com restaurantes, galerias, livrarias, cafés. Creio que é uma tendência, que começou na região do mercado Público e Lauro Muller”, destaca.

Para a arquiteta Tamires, a prova de que uma revitalização adequada traz retorno positivo foi o trabalho desenvolvido no calçadão da Beira Rio, da qual ela fez parte, de autoria do arquiteto Fabian Zago. “Olha a quantidade de pessoas que frequenta o local. Tudo isso foi fruto de um projeto bem feito, aliando uma série de atividades e parcerias para trazer vida ao local. É esta diversidade que vai fazer a Hercílio voltar a ser gostosa de frequentar”, opina.

Espaços de convivência serão essenciais no mundo pós-pandemia

Foram necessários apenas dois meses de quarentena para as pessoas perceberem a falta que faz caminhar, tomar sol, ver outras pessoas, passear com o mascote. Até então, ficar o dia inteiro deslizando a tela do celular parecia o melhor dos mundos. A crise sanitária ainda está em curso, mas já botou de cabeça pra baixo as noções do que é necessário para uma vida plena, e isso pode favorecer iniciativas que humanizem o espaço público.

“O que a gente tem visto na retomada das grandes cidades depois da pandemia é que as pessoas são gregárias, precisam se ver, celebrar, se encontrar. Eu acredito que o episódio do coronavírus vai evidenciar o uso da bicicleta, os percursos à pé. Uma cidade do século 21, uma cidade do futuro, é uma cidade que aproxima as pessoas”, acredita Dalmo Vieira Filho.

Silvana conta que, às vezes, desanima quando passa uma tarde plantando mudinhas para no dia seguinte ver tudo arrancado. Mesmo assim nem pensa em desistir. “A gente sabia que seria assim, que as pessoas não estão acostumadas a ver o bem público como algo seu, que é de todos e que se deve zelar por ele. Mas é um processo”, acredita. Para reforçar a mensagem, ela está elaborando plaquinhas educativas pedindo para quem usufrui da horta levar as folhas, não as mudas inteiras.

Aline Aranha, que está a frente do projeto, disse que cada dia aparece mais gente interessada em ajudar a cuidar da praça, que deve ter espaço para apresentações culturais também, e muitos já pensam em fazer piqueniques porque a falta de vitamina D é grande. “Quando estávamos colocando a grama, o rapaz da confeitaria da Torre Azul veio trazer um bolo. Foi tão gratificante sentir este carinho, esta união é uma experiência transformadora”, garante.

Quem levou o bolo para as voluntárias foi o parceiro do chef Ramon Serpa, 30 anos, da confeitaria Cake. Ele conta que quando viu o terreno vazio pensou que logo seria vendido para virar mais um prédio. “Num sonho utópico eu disse ao Igor ‘ah que bom seria se fosse uma praça em que as crianças pudessem brincar, vir com os cachorros nos fins de semana’. Só que a gente achava impossível. Mas quando vimos os tubos de plantas e depois o gramado, foi um impacto aquele verde no meio da cidade, já que as outras praças são tão cinzas!”, comparou.

Horta comunitária e a praça estão sendo desenvolvidas em parceria inédita de voluntários

Horta comunitária e a praça estão sendo desenvolvidas em parceria inédita de voluntários

Com relação ao calçadão da Hercílio Luz, o empresário acredita que deva ser mantido para pedestres e que a agenda cultural, que rola no Natal, se estenda ao longo do ano. “É importante ter um espaço onde as pessoas possam andar com calma e que o centro possa se expandir. A praça ao museu, onde era o camelô, movimentava a região, mas não atraía a atenção. Agora tem a feirinha de orgânicos, shows. O centro está se reinventando e a gente precisa se reinventar também,” conclui.

PROJETO CAMBAQUI

Reforço à cultura peixeira

“Segue reto toda vida. Camba às direita aqui. Sorria, você está em Itajaí...”

Quem mora nessa faixa de litoral conhece a forma de se expressar em pexêres. O falar itajaiense inspirou os professores Guilherme Bruno, 27 anos, e Elton Mendes, 37, ambos da rede municipal de ensino, a iniciar o projeto “CambAquí” para homenagear os 160 anos da cidade. São cinco canções destacando as particularidades e a cultura peixeira.

As composições “Memória Pexêra”, “Sou Itajaí-Açu”, “Pêxero por Inteiro”; “Hora de Largar” e “Brasilidades” foram criadas pelos professores que são naturais de Itajaí e graduados em Música e Artes Visuais. Guilherme e Elton lecionam na escola Básica Aníbal César, no bairro São Vicente.

“Eu ministro oficinas de Cultura Popular e Percussão. O Guilherme ensina Violão e Canto Coral. São projetos distintos que conversam entre si, resultando em apresentações artísticas que mudam a vida de várias crianças e adolescentes”, comenta Elton, que também é responsável pelo programa Cultura e Travessura.

Educadores da rede municipal de ensino criaram cinco canções falando sobre os 160 anos de fundação de Itajaí

O projeto CambAquí teve início durante a Semana da Pátria de 2019, quando a diretora do Aníbal César, Elenice Furtado, propôs aos professores a criação de uma canção feita especialmente para o evento. Ali surgiu a música “Brasilidades”, composta por Guilherme, Elton e Elenice.

A partir daí, as produções com inspirações locais não pararam mais. Os professores idealizaram o CambAquí e compuseram mais quatro músicas, focando na cultura peixeira e formando um repertório que tem como objetivo renovar e consolidar a memória musical itajaiense.

A canção Memória Pexêra, que já tem clipe no canal do Youtube CambAquí, fala sobre os pontos turísticos da cidade: o caminho de Cabeçudas, o trampolim nas pedras da praia, o mercado Público, a missa da igreja Matriz e o espetáculo da Fúria Marcilista no Gigantão das Avenidas.


Tudo isso seguido de poderoso refrão: “segue reto toda vida. Camba às direita aqui. Sorria, você está em Itajaí”. “Esperamos que em breve essas músicas estejam na boca do nosso povo e circulando nos assovios descompromissados da nossa gente,” diz Guilherme. E a música pegar deve ser questão de tempo mesmo, já que a musicalidade de “Memória Pexêra” tem efeito chiclete e não sai mais da cabeça após ouvi-la.

A música tem Guilherme na voz e arranjo de cordas, Elton e Paulo Cândido na percussão e Braion Johnny no arranjo de metais. O clipe foi editado pelo professor Elton.


Mais produções

Os professores agora estão finalizando a produção do clipe da música Itajaí-açu, que fala do rio que corta a cidade e é responsável por trazer tantas riquezas ao município. O projeto, segundo Elton, é que os clipes e as músicas circulem nas escolas de Itajaí. “Assim que a pandemia passar, a gente quer se apresentar nas escolas, levar essa cultura peixeira aos alunos. Esse resgate cultural da cidade vai renovar o repertório com músicas para as pessoas ouvirem em casa e curtir com a família, trabalhando sempre de maneira educativa”, explica.

Os professores também já pensam em um projeto futuro que seria o “CambAquí Mirim”, com músicas infantis, compostas especialmente para as crianças peixeirinhas.

Investimento na saúde do itajaiense

Com quase R$ 1 bilhão de investimentos em saúde nos últimos três anos, Itajaí está ampliando ainda mais os recursos na área nesse ano. Além das melhorias na rede básica, com a construção de novos postinhos e contratação de novos profissionais, o município investiu em ações em diversas frentes diante da pandemia de Covid-19.

A criação dos centros de Triagem e de Testagem de coronavírus no centro Integrado de Saúde (CIS) tornou o local referência do combate à doença, enquanto que as demais unidades de saúde da rede municipal foram restruturadas pra garantir o atendimento das pessoas com outras doenças e necessidades de consultas e exames.

Dois novos postinhos foram entregues este ano. A unidade do loteamento São Francisco de Assis, no bairro Santa Regina, atende 480 famílias do residencial. Já o novo posto na Fazendinha atende tanto moradores do bairro Fazenda quanto de Cabeçudas. A prefeitura também entregou a nova sede do centro de Atenção Psicossocial (Caps II), na Vila Operária.

Para 2020, a secretaria ainda projeta reformas, mudanças ou ampliação de outras sete unidades, incluindo novos postos do São Judas, São Pedro, São Roque e Vila Operária. A meta é passar de 86% pra 100% a cobertura do programa Saúde da Família, com as novas unidades e a contratação de novas equipes.

Investimento na saúde do itajaiense

Os investimentos em saúde devem superar o do ano passado, que somaram R$ 332,9 milhões. Entre 2017 e 2019, foram R$ 920 milhões em ações e melhorias, com mais da metade do valor sendo recursos próprios da prefeitura.

Mais de 15% do orçamento

Nos últimos anos, o município tem aplicado na saúde recursos acima do mínimo exigido pela Constituição, que é de 15% do orçamento. De acordo com o secretário Emerson Duarte, a regra vai continuar sendo seguida e novos investimentos serão feitos conforme a necessidade.

Ele destaca que, no momento, o foco está no enfrentamento à Covid-19, mas a secretaria segue mantendo os atendimentos contra outras doenças normalmente. “Teve redução nos atendimentos eletivos [suspensos na quarentena], mas nossos profissionais estão reorganizando as agendas e retomamos parcialmente esses atendimentos”, informa.

O foco é conter a Covid-19, mas a saúde de Itajaí não deixa de investir na rede básica para garantir suporte aos moradores

Mais de R$ 20 milhões no enfrentamento ao coronavírus

A pandemia de coronavírus fez o município readequar os atendimentos na rede municipal. Entre as ações desde março, está a implantação de novos leitos de emergência na UPA do CIS, contratação emergencial de mais de 100 profissionais e distribuição de máscaras e remédio homeopático na prevenção ao coronavírus. Só no combate à doença, a prefeitura já aplicou mais de R$ 20 milhões, incluindo medidas de infraestrutura, medicamentos, insumos e EPIs.

O centro de Triagem no CIS atendeu mais de 10 mil pessoas em dois meses. Junto ao CIS também foi criado o centro de Testagem pra coronavírus, que ampliou a oferta de testes pra população. Já foram mais de cinco mil testes em Itajaí, incluindo testes rápidos.

Centro de Triagem no CIS atendeu mais de 10 mil pessoas em dois meses

A pandemia também fez a prefeitura cobrar do estado a ampliação de leitos de UTI no hospital Marieta, que já chegou a 30 leitos intensivos exclusivos pra pacientes com covid-19 e mais 20 são esperados.

SUPERANDO A PANDEMIA

Construção civil mantém ritmo de obras e atrai investidores

Apesar da crise provocada pela pandemia de coronavírus, o setor de construção civil mantém otimismo em Itajaí, mostrando a força de um segmento que vem se destacando nos últimos anos na cidade. Hoje o setor gera cerca de quatro mil empregos diretos e outros dois mil indiretos. Os salários dos trabalhadores injetam em torno de R$ 10 milhões por mês na economia local.

Setor gera cerca de quatro mil empregos diretos e dois mil indiretos. Os salários dos trabalhadores injetam em torno de R$ 10 milhões ao mês na economia local

Para o presidente do sindicato da Construção Civil de Itajaí (Sinduscon), Bruno de Andrade Pereira, a instabilidade do mercado financeiro nos últimos meses fez com que a solides e a segurança do mercado imobiliário ficassem em evidência, com o setor atraindo novos investimentos. “Muitos daqueles que preferiam investir em outros mercados se voltam para nosso mercado, além de nossos tradicionais clientes que compram buscando suas moradias”, analisa.

Ele observa ainda que o isolamento social imposto pela pandemia também influenciou na procura por uma moradia mais moderna e, quando possível, mais espaçosa. A busca por imóveis cresceu nas últimas semanas na região, segundo o sindicato. A preferência tem sido por apartamentos maiores, apontando uma nova tendência no conceito de morar a partir do que as pessoas estão enfrentando por causa do isolamento social.

Estimativa é de 70 lançamentos imobiliários em 2020

Outro fator que pode estimular a construção é a revisão do plano diretor, que vai definir novas diretrizes pra expansão urbana e no desenvolvimento da infraestrutura da cidade. As discussões ainda serão retomadas e o sindicato espera que até o fim do ano os delegados que representam diversos setores e entidades cheguem à melhor definição.

“A expectativa é que todos os pontos que temos conflitos hoje em dia sejam resolvidos e que a legislação permita flexibilização em obras especiais e de interesse público, como hospitais, escolas e equipamentos de turismo e lazer”, comenta Bruno.

À espera das mudanças, o setor começou o ano projetando dobrar os lançamentos de empreendimentos em relação a 2019. Conforme o presidente do sindicato, a pandemia pode gerar um certo atraso nas aprovações e definições de projetos, mas já tem diversas obras saindo nos bairros Fazenda, centro, Praia Brava e Cordeiros. A estimativa é de 70 lançamentos imobiliários em 2020.

Bruno observa ainda que a chegada de novos investimentos na cidade, como no porto e no setor naval, também vai impactar positivamente na construção civil. “O mercado tem uma expectativa muito boa em relação ao projeto das fragatas no bairro da Murta que irá gerar muitos empregos e uma demanda muito grande por moradias naquela localidade”, pontua.

Setor virou matriz econômica e integra plano de desenvolvimento

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Itajaí, Giovani Félix, destaca que a construção civil é um dos setores mais importantes para a economia da cidade. “O setor é responsável por, aproximadamente, 6% dos empregos no município, sendo que em torno de 10% da população vive da construção civil”, afirma.

Giovani ressalta a expectativa das próprias construtoras e imobiliárias de que, mesmo na pandemia, a procura por imóveis é significativa. “A construção civil vem se consolidando como um investimento seguro e rentável”, completa.

Segundo o secretário, o setor é uma das áreas envolvidas no plano estratégico de Desenvolvimento Econômico que está em elaboração pelo município, prevendo as diretrizes pro crescimento da cidade. O plano é discutido com as empresas e tem assessoria do Sebrae.

“Após análise criteriosa dos indicadores econômicos do município, a equipe do Sebrae indicou a construção civil como uma das matrizes econômicas a serem trabalhadas no plano, diante da sua relevância econômica”, argumenta.

Algumas ações voltadas ao setor já estão implantadas. Entre elas está a aprovação de projetos 100% digital. O único momento em que a construtora precisa fazer a impressão de algum documento é na hora da incorporação imobiliária junto ao cartório de registro de imóveis. A medida agiliza o processo de análise e o trâmite na prefeitura, autarquias e corpo de bombeiros.

Um bolo para Itajaí

Aniversário sempre remete a bolo e festejos. Nos 160 anos de Itajaí, porém, a pandemia impossibilitou o tradicional corte e entrega do doce à comunidade, sempre um dos pontos altos do aniversário da cidade.

A simpática Hilda Molléri, 89 anos, dedicou os últimos 22 anos à confecção do bolo de aniversário de Itajaí. Ela foi convidada pela primeira em 1997. “Foi uma história engraçada. Eu estava na Escola de Arte e Lazer, no bairro São João, e as secretárias me pediram um bolo de 18 metros. Elas estavam nervosas porque não sabiam como iriam transportar o bolo até o centro da cidade. Elas pensavam que precisariam levar tudo junto (risos), mas eu as tranquilizei, fiz os cálculos de ingredientes e quantos tabuleiros precisávamos. Tudo para montar o doce para chegar aos 18 metros”, conta.


Hilda fará um bolo simbólico, em casa, para parabenizar Itajaí

Hilda fará um bolo simbólico, em casa, para parabenizar Itajaí

A partir daí, todos os anos, Hilda e a equipe já se preparavam para o esperado mês de junho. “Todos os anos fomos fazendo, melhorando e o tamanho do bolo foi crescendo... Só mantivemos o recheio tradicional desde o começo: ameixa, doce de leite e chocolate”, narra.

No ano passado, para os 159 anos, ela e suas 25 ajudantes começaram o bolo no dia 1º de junho. Elas fizeram as fatias para distribuir nos bairros e depois preparam o bolo principal para o corte na praça da Beira Rio. “Foram distribuídas mais de 10 mil fatias”, conta, toda orgulhosa.

Depois de 22 anos ininterruptos preparando o bolo da festa, esse ano dona Hilda não pode colocar a mão na massa. “Estou aqui na janela, triste. Essa hora estaríamos lá na luta, preparando o bolo para o aniversário. Hoje [sexta-feira] fiz broa com a minha filha e estava lembrando do bolo de aniversário de Itajaí. Uma pena, mas esse ano não vamos ter o bolo”, lamenta.

Para a data não passar em branco, Hilda fará um bolo em casa para cantar “parabéns à cidade” entre os seus familiares. O bolo virá com um pedido especial: para que a pandemia passe logo e todos possam voltar a se encontrar e saborear o doce mais famoso da cidade.

Exposição “Você Faz Parte dessa História” será online

O Museu Histórico de Itajaí organizou uma exposição online para celebrar os 160 anos de Itajaí. A população participou enviando fotos de objetos pessoais que têm relação com a história da cidade.

A exposição “Itajaí 160 Anos – Você Faz Parte dessa História” reúne imagens que, além de relacionar as memórias afetivas da cidade, também vai narrar um pouco da história da comunidade, principalmente no momento em que o Museu Histórico de Itajaí não está aberto à visitação, por conta das restrições impostas pela pandemia.

Mais de 15 pessoas enviaram fotos à equipe da fundação Genésio Miranda Lins. A exposição virtual será lançada na tarde deste dia 15 de junho, nas redes sociais do Museu Histórico (Instagram: @museuitajai e Facebook: facebook.com/museuhistoricodeitajai).

Arnou de Melo enviou foto do primeiro contrabaixo, um Fender de 1972

Arnou de Melo enviou foto do primeiro contrabaixo, um Fender de 1972

53 anos

Ferry boat estreitou os laços entre Itajaí e Navegantes

O ferry boat se tornou uma instituição peixeira e dengo dengo antes mesmo de sua aguardada inauguração, em novembro de 1979, ano em que o Diário do Litoral, o DIARINHO, deu início à epopeia do jornalismo diário na região. Ao longo daquele ano, o jornalista Dalmo Vieira reclamava da demora na inauguração da moderna balsa de ferro para veículos, depois de meses de testes e autorizações junto a Capitania dos Portos.

Travessia começou com barcas para passageiros e hoje transporta 15 mil pessoas por mês

Durante décadas, quem quisesse fazer a travessia tinha que ir até a Barra do Rio, onde uma balsa de madeira fazia o serviço de forma precária. Sem falar nas barquinhas de passageiros, que deixou muita gente mareada e traumatizada nos dias de vento sul.

Para fazer o documentário “A passagem e suas histórias”, Lucas Vidigal e Vilma Rebello Mafra coletaram depoimento de moradores que testemunharam a evolução da travessia. Até os anos 60, passar para o outro lado era uma aventura. No início, a travessia era feita a remo em duas bateiras a vela batizadas de Maria Alice e Carolina. Conforme o vento soprava, os passageiros eram jogados pra lá e pra cá.

A chegada não era confortável. A barquinha cambaleante tentava ancorar num trapiche de madeira meio podre pelo contato constante com a água salobra. Tinha até um barqueiro conhecido como “Lauro cego”, que fazia o transporte à noite e sabia que tinha chegado na margem itajaiense quando encostava nos água-pés, vegetação que havia no rio quando não era tão poluído.

Ferry boat estreitou os laços entre Itajaí e Navegantes

Um dos fundadores de Navegantes, Onofre Rodrigues, contou que em 1962, o líder dos estivadores, o Zicão, reuniu a categoria de 33 trabalhadores e fundou uma Sociedade Beneficente para realizar o serviço, pois o preço de 500 réis era muito salgado para quem precisava atravessar o rio todo santo dia para trabalhar no porto de Itajaí. Naquele tempo, eles compraram um motor para a lancha coberta financiado pelo Banco Inco, e prestaram o serviço de forma cooperativada e aberta à população. Os cadastrados pagavam um valor mensal.

Onofre revelou que a Capitania dos Portos não via a cooperativa com bons olhos, pois era tempo da ditadura militar, e a organização de trabalhadores era vista como coisa de esquerdista, justamente quando o slogan era “O Brasil é nosso”. Quem tocava o serviço antes deles era o casal Leonel Seara e dona Noca, uma mulher com tino para os negócios e que colocou a primeira casinha de madeira com uma roleta como os ônibus para fazer a cobrança.

Modernização

A Navegação Santa Catarina, que foi rebatizada de NGI Sul, começou a tocar o negócio em 1967, ainda com as barquinhas de passageiros. Em 1976, a empresa começou o projeto de incorporar a travessia de veículos, que culminou na inauguração três anos depois na rua República Argentina, no final do governo de Antônio Carlos Konder Reis e começo do governo de Jorge Bornhausen, como lembra o doutor em História, Roberto Severino, 53 anos.

“Essas transformações na cidade sempre tinham um caráter político, por isso as praças e ruas têm os nomes de personalidades da época como Lauro Muller e Hercílio Luz”, compara. O historiador conta que chegou a andar de balsinha. “Era perigoso pra caramba, por isso a chegada do ferry boat foi tão festejada, era uma velha reivindicação dos moradores”, reitera.

Em meados dos anos 2000, a bilheteria do ferry boat foi revitalizada e ganhou um espaço amplo no lado de Navegantes, onde os passageiros podem assistir TV enquanto esperam a embarcação. O local também recebeu uma segunda rampa e pista exclusiva para motos. O ferry boat funciona 24h no centro e das 5h às 23h30 na Barra do Rio.

O atual administrador, Paulo Henrique Weidle, está na empresa desde 2008 e acompanhou o boom da região, com a abertura da Portonave e o aumento do fluxo de turistas do parque Beto Carrero. A empresa, cuja sigla significa “Navegantes-Itajaí”, emprega 270 funcionários em sete embarcações de até 36 carros. “Estamos investindo na modernização das embarcações e atualizando o sistema com câmeras de segurança. A empresa tem planos de abrir uma terceira rampa para resolver o problema das filas no verão”, afirma.

Obras de infraestrutura transformam Itajaí

Após a paralisação no início da quarentena, 11 obras de infraestrutura que fazem parte do financiamento pelo fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata) foram retomadas em Itajaí. A prefeitura ainda tem outros 10 projetos prontos pra lançar licitação. O pacote prevê cerca de 30 grandes obras nas áreas de mobilidade, drenagem, urbanização e lazer, em 17 bairros, com investimentos de mais de R$ 300 milhões.

O novo largo da igreja Matriz é uma das obras em andamento, com previsão de ser entregue neste mês. O projeto de R$ 4,1 milhões vai dar uma cara nova à praça Irineu Bornhausen, além de abranger também o jardim Papa Pio XII e o espaço entre as ruas João Bauer e Frederico Augusto Luiz Thieme, somando melhorias numa área de 12 mil metros quadrados. A revitalização envolve paisagismo, espelhos d´água, iluminação, pavimentação, parquinho e mudanças viárias.

Largo da Matriz deve ser finalizado neste mês de junho

Largo da Matriz deve ser finalizado neste mês de junho

Dentro do pacote de investimentos, a prefeitura já entregou a reurbanização de ruas no bairro São Vicente e a nova praça do bairro Santa Regina, que foi o primeiro projeto do programa a ser executado, com R$ 2,2 milhões em equipamentos de lazer. Atualmente, a prefeitura está tocando a obra de macrodrenagem da bacia do Rio Bonito, no bairro São Vicente, anunciada como o maior investimento da história da cidade na prevenção de cheias e alagamentos.

Serão aplicados R$ 15,6 milhões no projeto, que prevê quase seis quilômetros de tubos e galerias de drenagem. Os trabalhos começaram em janeiro pela rua Biguaçu e vão se estender por outras nove ruas na região, que é uma das mais afetadas por alagamentos em Itajaí.

Outras obras envolvem a drenagem e pavimentação da avenida Paulo Cantidio da Silva e rua Firmino Vieira Cordeiro, no bairro Espinheiros, da rua Ondino da Silva, na Ressacada, e rua Maria das Dores Santos Muller, na praia Brava. Ainda estão em andamento a nova praça do Bambuzal e a reurbanização da avenida Campos Novos, que será revitalizada com diversas melhorias até o cruzamento com a Adolfo Konder.

Financiamento internacional do Fonplata banca 30 grandes obras em 17 bairros de Itajaí

Pontes e binários

A abertura de ruas e construções de pontes promete desafogar o trânsito na região central e criar novos acessos nos bairros Cordeiros, São Vicente e Cidade Nova. No centro, estão em fase final os trabalhos para abertura das ruas Juvenal Garcia e Uruguai, com novas calçadas e sinalização. A obra vai permitir a implantação do binário da Uruguai com a Umbelino de Brito, e da Juvenal Garcia com a Brusque.

Nova ligação entre São Vicente e São João

Nova ligação entre São Vicente e São João

Nas melhorias em mobilidade também está prevista a construção de cinco novas pontes em Itajaí. A ponte sobre o rio Itajaí-mirim vai criar uma nova ligação entre os bairros São Vicente e São João pelas ruas Juca Cesário e São Joaquim. Outra ponte é entre os bairros Cidade Nova e São Judas, que vai ligar as ruas Adolfo Batschauer e Otto Hoier. As duas têm obras em andamento. De acordo com Alcides Volpato, coordenador do Planejamento Estratégico de Itajaí (Pemi 2040), as estruturas devem ser concluídas este ano, assim como as obras de drenagem.

Um terceiro acesso será a travessia entre os bairros São Vicente e Cordeiros, que vai conectar a avenida Nilo Bittencourt com a rua Selso Duarte Moreira, criando um novo eixo com a avenida Agostinho Alves Ramos (via Expressa Portuária). O projeto está em fase de licitação. As três pontes somam quase R$ 20 milhões em investimentos.

Também está em licitação o serviço pra rebaixamento da fiação elétrica, de iluminação e telefonia nas avenidas Marcos Konder, Abrahão João Francisco (entre as ruas Uruguai e Lages), ruas Cônego Tomaz Fontes, Silva e Tijucas. A mudança vai preparar as vias pra implantação dos binários no centro, entre eles o da Marcos Konder com a avenida Sete de Setembro.

De acordo com Alcides, as obras em andamento sofreram pouco impacto no cronograma devido ao coronavírus. Ele destaca que o município tem outras 10 projetos prontos pra licitação que aguardam ser retomados. Entre eles está a revitalização no entorno do mercado Público, a ciclovia que vai ligar Cabeçudas com a praia Brava e a reurbanização da avenida Marcos Konder. Entre os projetos em elaboração está a duplicação da rodovia Osvaldo Reis.

Giro na entrada

Heder Cassiano Moritz, diretor geral de Operações Logísticas do complexo portuário de Itajaí, explica que até a primeira quinzena de julho mais seis megaships testarão a bacia de evolução, fazendo então o giro na entrada. “Até a primeira quinzena de julho, a gente estará com essa etapa concluída e aguardando o posicionamento da autoridade marítima para ver se vamos ter que fazer mais alguns testes ou se as operações passam a ser consideradas manobras normais, como aconteceu com as manobras especiais com os navios de até 307 metros”, explica.

O complexo portuário de Itajaí movimentou, entre exportações e importações, quase 16 bilhões de dólares, gerando mais de 750 mil empregos diretos e indiretos, nas mais diferentes regiões do estado de Santa Catarina, no ano passado. Com a chegada de operações dos “megaships”, a expectativa é incrementar ainda mais a movimentação de cargas do complexo portuário. “Vai ter condição de ficar em igualdade com os demais terminais e, consequentemente, isso nos dá a possibilidade de incrementar a movimentação de cargas de 30% a 40%”, explica.

Em 2019, o complexo Portuário de Itajaí foi o segundo maior movimentador de contêineres do país. O complexo bateu o próprio recorde de movimentação de TEUs (contêiner de 20 pés de comprimento), em relação a 2018 quando foram contabilizados 1.232.824 contêineres, destacando um aumento de 7%. Na tonelagem, o aumento foi de 6%, com 13.621.567 toneladas, e nas atracações, o aumento foi de 7% com 1068 navios atracados.

Osmari de  Castilho, da Portonave: “Estamos na vanguarda ao receber navios tendência no comércio marítimo internacional”

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Próxima etapa da obra é licenciada

Meta da obra da segunda fase da bacia de evolução mira os navios de até 400 metros de comprimento

Meta da obra da segunda fase da bacia de evolução mira os navios de até 400 metros de comprimento

Na atual fase de testes dos navios com até 350 metros, todas as embarcações estão atracando no terminal da Portonave, em Navegantes. “A possiblidade de receber navios com mais de 307 metros é um marco para o complexo portuário. Antes tínhamos restrições, perdíamos escalas, deixávamos de movimentar a economia. Passamos a ser o terminal que recebe o maior navio porta-contêineres já atracado no Brasil. Esta condição nos coloca na vanguarda para receber esses navios, que são realidade e tendência para os próximos anos no comércio marítimo internacional”, pontua Osmari de Castilho Ribas, diretor-superintendente administrativo da Portonave.

As autoridades portuárias também estão atentas ao início das obras da segunda etapa da Bacia de Evolução, que deixará o complexo apto a operar com navios de até 400 metros de comprimento. “Precisamos também focar esforços para a realização da segunda fase da Bacia de Evolução, para tornar o complexo ainda mais competitivo para receber navios de até 400 metros de comprimento e 65 metros de largura. Há previsão de recursos da União, na ordem de R$ 250 milhões, previstos no Plano Plurianual do ministério da Infraestrutura”, adianta Castilho.

A segunda etapa da Bacia de Evolução está projetada e licenciada ambientalmente, mas ainda não há data para o início. A obra depende de recursos do governo federal que só devem ser liberados em 2021.

PLANEJAMENTO

Abastecimento de água garantido

Daqui a 30 anos, Itajaí terá uma população girando em torno de 517 mil habitantes. A estimativa de crescimento é do IBGE e fez o Semasa, autarquia de água e saneamento, a se preparar para atender com eficiência a população, tanto de Itajaí quanto a de Navegantes, que paga para receber água tratada também. A cidade vizinha terá cerca de 258 mil moradores em 2050.

Há dois anos a empresa Nova Engevix fez um estudo para apontar como estão os 700 quilômetros de extensão da rede e o abastecimento da água tratada que atinge 90% do território urbano.

Investimento inicial para a qualidade no fornecimento de água será de R$ 115 milhões

Investimento inicial para a qualidade no fornecimento de água será de R$ 115 milhões

O “Estudo de Setorização” foi apresentado ao prefeito Volnei Morastoni e prevê investimentos em obras, levando em conta a projeção de crescimento populacional das duas cidades. Diego Antonio da Silva, diretor Geral do Semasa, explica que a nova concepção da distribuição de água tratada prevê mapeamento em quatro níveis. Com o estudo, o Semasa começará a viabilizar os recursos financeiros.

O estudo mostra as zonas de influência que correspondem às áreas atendidas por cada Estação de Tratamento de Água; zonas de pressão, que consistem na delimitação do espaço que recebe água de cada reservatório; distritos de medição e controle, que permitem a regulação de parâmetros como pressão e vazão de forma precisa, auxiliando no controle de perdas; e, por último, os setores de manobra, com registros próprios que vão restringir ao máximo os endereços afetados nos casos de necessidade de fechamento da rede para manutenção.

Ampliação da rede

Na primeira fase de execução dos projetos serão implantados quase 20 quilômetros de novas adutoras, que são as tubulações de grande porte. Haverá ainda mais de 225 quilômetros de rede, 10 mil metros cúbicos extras de reservação, que serão divididos entre três reservatórios. E 1356 válvulas de manobra garantirão o isolamento de cada área durante consertos, com 83 hidrantes adicionais. O investimento nesta primeira etapa, que precisa ser concluída em 10 anos, é de R$ 115 milhões.

“Este é um projeto inédito e fundamental para a resolução dos problemas de turbidez, que decorrem de eventos relacionados às condições da rede. A rede setorizada permitirá manobras e intervenções sem afetar todo o sistema”, explica Diego Antônio da Silva.

O prefeito Volnei Morastoni comenta que a setorização do Semasa ocorre no contexto do Planejamento Estratégico de Itajaí. “O Semasa se moderniza no sentido de apresentar à sociedade o que está sendo pensado a curto, médio e longo prazo, já que a água é um dos insumos mais importantes para a qualidade de vida da população”, diz.

Itajaí – 160 ANOS

A história de todos importa

Edison d´Ávila – historiador

Para compor o grande painel da história de Itajaí, um mosaico de histórias particulares, de indivíduos e de instituições, se construiu ao longo desse mais de século e meio de existência do município. Nem só das instituições e dos grande vultos na política, na economia, na sociedade, como também dos de menor visibilidade, mas que atuaram no meio social e fizeram história de igual relevância. Os livros de história itajaiense dos últimos tempos têm se ocupado de dar visibilidade a biografias de homens e mulheres comuns; assim como, dos de destaque, a famílias dos variados extratos sociais, a entidades diversificadas, a acontecimentos, que fizeram a história do município.

Para ilustrar o que se disse antes, citam-se alguns dos muitos livros de autores itajaienses que tratam de temas históricos de Itajaí. Tem começo com as lembranças de Juventino Linhares no antológico e já esgotado “O que a memória guardou”; a seguir, as recordações de homens e mulheres negros tão conhecidos – seu Tolentino, dona Loca - em “Memórias Negras”, de José Bento Rosa e Silva e, ainda no campo memorialístico, “Vale a Pena Viver”, as memórias do líder operário e comunista Léo Machado.

A história das famílias conta com os livros “Famílias de Itajaí 1 e 2”, de Marlene Rothbarth e Lindinalva Deolla Silva, que se atêm às famílias de maiores referências sociais; “Registros de Família”, de Anisete Maria Schmitt , com as famílias Schmitt, Moleri, Zaguini, Angioletti e dentre outras e, por fim, “Por um pedaço de terra”, de Didymea Lazzaris de Oliveira, que narra a saga do imigrante italiano Gaetano Agostino Lazzaris e de famílias imigrantes italianas.

Itajaí – 160 ANOS: A história de todos importa

Os homens públicos e seu trabalho na administração do município foi a história contada por Ivan Carlos Serpa no livro “Entre o Rio e o Mar – História da Administração Pública Municipal de Itajaí entre 1960 e 2000”; e aquilo que realizou na política e na administração outro itajaiense contou Victor Márcio Konder, em “Irineu Bornhausen – Trajetória de um homem público exemplar”.

Entidades aqui criadas e com diferentes atuações e significados no conjunto social foram historiadas nos livros “Moços e Moças para um bom partido”, história do Bloco dos XX, de Marlene de Fáveri; “Estiva Papa-siri”, história do Sindicato dos Estivadores, de José Bento Rosa e Silva; e “Jornaes de hontem – Manoel Ferreira de Miranda e o primeiro Diário de Itajahy””, de Saulo Adami, contando a história do jornalista negro e do primeiro jornal diário de Itajaí.

Os acontecimentos alegres, as festas, os divertimentos; assim como, as tragédias estão também contados na história de José Roberto Severino, em “Itajaí e identidade açoriana”, sobre a festa da Marejada; de Ângelo Ricardo Cristofolli, em “História do Lazer nas praias”, sobre os banhos de mar em Cabeçudas, e de Magru Floriano e Ivan Rupp, em “Itajaí em Chamas”, sobre o incêndio do navio petroleiro no terminal de combustível de Cordeiros. Como se vê, o conhecimento histórico tem avançado, enquanto a gente de Itajaí faz a sua história.