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Prefiro mesmo é a terra firme

Quando você resolve abandonar o comodismo e a segurança para embalar o sonho de sair pelas incertas estradas do mundo tem que estar preparado para tudo. O inusitado e o imprevisível são companhias inevitáveis, colocando muitas vezes a sua própria vida em risco.
Dentre as várias situações de perigo porque passei, uma em especial se tornou marcante e, claro, inesquecível. Conto agora em rápidas palavras, pois a memória se recusa a permanecer durante muito tempo em águas tortuosas que preferiria mesmo é que ficassem na vala comum do esquecimento.
Mas vamos logo à história para encurtar a conversa. Enfrentei uma tormenta assustadora em uma embarcação numa viagem entre Macapá, capital do Amapá, e Oiapoque, a última cidade ao Norte do Brasil, na divisa com a Guiana Francesa. Foi em 1980, durante uma aventura que fiz como mochileiro – pedindo carona – e percorri 10 países da América do Sul em busca de luz e conhecimento.
O barco era daqueles que de vez em quando afunda e mata dezenas de pessoas. Viajava de carona na insegura embarcação, plena de gente com suas redes de dormir espalhadas por todo lado, não faltando também, como passageiros acompanhantes, os gatos, cachorros, papagaios, tartarugas e alguns outros espécimes da rica fauna amazônica.
Passadas poucas horas de viagem comecei a enjoar com o intragável cheiro de óleo exalado pelo motor e principalmente pelo balanço do barco. Para tentar melhor me acomodar resolvi subir e ficar no convés, que por sinal nem amurada tinha. Cantarolava, levantava, ensaiava alguns passos em volta do mastro que segurava rotas velas, deitava, voltava a sentar… Enfim, tudo para tentar enganar a nauseante sensação que insistia em embrulhar-me cada vez mais o frágil estômago de marinheiro de primeira viagem.
Anoitecia quando o comandante do barco deu o aviso geral:”Vem tempestade por aí”. E não deu outra, era vento, chuva e ondas descomunais que duraram horas e horas. E eu ali, grudado no mastro, passando mal, regurgitando quase que incessantemente, em desespero total. As pernas, depois de certo tempo, começaram a tremer como vara verde.
Já estava vomitando a alma, a fraqueza tomava conta do meu corpo, encharcado pela intermitente tempestade. Tudo em volta era só escuridão e incerteza. Acho que minha hora chegou, pensei comigo. Que triste fim! Adeus aventura pelo mundo, adeus a tudo e a todos! Mas com certeza não me entregaria assim tão facilmente. Lutarei sem tréguas para sobreviver. Coragem!!!
E assim foi, uma aguerrida luta pela vida, algo na verdade instintivo em uma situação inescapável. Já noite alta, não suportando mais a solidão do convés e a possibilidade iminente de ser tragado pelas ondas, o corpo já vencido pelo cansaço, resolvi descer e em meio ao caos de homens, mulheres, crianças e animais se esbarrando, berrando, chorando, me encostei na lateral da embarcação. Não mais do que de repente, uma onda maior se chocou com o barco e eu perdi o equilíbrio. Já ia caindo nas águas escuras e revoltas quando, milagrosamente, uma mão salvadora me segurou pelas calças, evitando o que seria a morte certa.
E a tempestade rugia cada vez mais forte. Quando pensei que o fim trágico era apenas uma questão de tempo e todos seríamos tragados pelas tortuosas águas, o temporal começou a amainar, amainar…até cessar por completo e aí sim, só por Deus, passamos a navegar tranquilo e suavemente. A alegria, mesclada aos olhos ainda assustados dos passageiros e tripulantes, voltou a reinar, apaziguando por fim a desesperadora situação. Depois dessa, nunca mais, prefiro mesmo é a terra firme!
Amanhecia o terceiro dia de navegação quando atracávamos na minúscula cidade de Oiapoque. Dali, mochila nas costas, atravessei a fronteira do Brasil e entrei na Guiana Francesa, rumo à capital Cayenne, subindo em seguida para as Guianas Holandesa – onde cheguei no meio de um golpe militar com tanques transitando nas ruas centrais da capital Paramaribo – e Inglesa, que tive o privilégio de conhecer abrigado como hóspede na pomposa residência oficial do cônsul brasileiro naquele país, instalada na capital Georgetown. Mas estas já são outras histórias pra contar!

Memórias de um papa siri
Emerson Ghislandi é jornalista, estudou e trabalhou na Universidade do Vale do Itajaí.
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