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O jogador que não queria ser dentista

Corria o ano de 1974. Eu contava então com 17 anos quando um amigo, Reinaldo de Brito Sobrinho, mais conhecido por Camarão, convidou-me para acompanhá-lo a Londrina, no norte do Paraná, onde iria receber as verbas rescisórias que haviam ficado pendentes da sua passagem como zagueiro central do time do Londrina.
Éramos inquilinos da família dele num casarão de esquina da rua Umbelino de Brito. Sua mãe, dona Ana Junkes de Brito, uma alemã daquelas duronas, dificilmente esboçava um sorriso. Nunca esqueço de uma vez em que eu e um amigo fomos durante a noite ‘roubar’ uns abacates num enorme pé que havia no espaçoso terreno.
Pois ela, com o ouvido fino que tinha, desconfiou e se dirigiu até o abacateiro, com uma vara de marmelo na mão. Ventava muito e nós, eu e meu amigo, lá em cima, ao sabor da ventania e com um enorme medo da dona Ana lá embaixo, espiando, nos descobrir. Estou certo de que ela sabia que estávamos ali, e fez questão de ficar uma boa meia hora na área, só para judiar daqueles dois moleques que insistiam, vez em quando, em saborear um suculento abacate.
O filho de dona Ana, um homenzarrão de um metro e noventa, 22 anos, havia iniciado sua carreira futebolística em São Paulo, na equipe de juniores do Corinthians. Apareceu até na famosa revista Placar, numa entrevista em que o técnico Yustrich o elogiava como uma grande promessa do futebol brasileiro. E olha que ser elogiado por Yustrich, ex-goleiro do Flamengo e do Vasco da Gama na década de 40, não era coisa pouca.
Nos anos 50 Yustrich já era técnico de futebol, com fama de disciplinador e durão: não permitia que atletas sob seu comando fumassem, deixassem a barba por fazer e usassem cabelo comprido. Não tolerava atrasos e falta de empenho nos treinamentos. Envolvia-se em constantes atritos com jogadores, colegas, dirigentes e a imprensa. Mas, acima de tudo, era respeitado.
Uma fatalidade, porém, abreviaria a carreira promissora de Reinaldo Camarão. Em uma jogada mais dura durante um treino, fraturou a perna e teve o joelho comprometido. A partir daí nunca mais foi o mesmo, sendo dispensado após a conquista pelo Corinthians do título de campeão paulista de juniores. Mas Camarão não se deu por vencido e correu atrás do seu sonho. Jogou aqui e ali e acabou contratado pelo Londrina.
Uma foto na capa chegou a ser estampada pelo jornal Tribuna do Paraná com ele fazendo um belo gol de cabeça. Mas a lesão no joelho o perseguia e mais uma vez viu-se sem clube para jogar. Voltou a Itajaí para rever a família e semanas depois lá fomos nós para Londrina para o acerto de contas com o clube.
Permanecemos na cidade por 10 dias, um período de intensa agitação e deslumbramento para mim, um adolescente que nada conhecia da vida. Ficamos acomodados em uma pensão com todos os jogadores do Londrina. Era festa quase todos os dias. – Como é que esse pessoal ainda consegue jogar com tanta esbórnia, pensava.
Lembro de dois craques em fim de carreira que jogavam então no Londrina: Paquito e Tião Abatiá. Numa dessas noites eu e o Camarão resolvemos assistir à sessão da meia noite do filme O Exorcista. Cenas horripilantes, precisávamos esfriar a cabeça e aliviar o espírito. Camarão me levou ao bar onde os jogadores do Londrina costumavam frequentar e, logicamente, não faltavam mulheres de todos os tipos e para todos os gostos.
Como sabia-me tímido, Camarão não se fez de rogado e apresentou-me a uma delas. Uma morena insinuante, quase afro, que logo percebeu que eu era marinheiro de primeira viagem. – Tai boleirinho, te vira, disse irônico Camarão. Dificilmente a fragilidade, tanto do homem quanto da mulher, se mostre de forma tão evidente como naquele momento em que pela primeira vez seus corpos vão se unir no inédito ato sexual.
Para o homem parece ser até mais constrangedor, já que a inexperiência o leva ao temor de falhar e, sabe, sempre é vexaminoso. Com uns tragos na cabeça, deixava-me levar pela emoção do momento.
Envolvente e boa de conversa, a morena tranquilizou-me e acabei na casa dela, próximo ao bar. Mais propriamente na cama dela. Foi fantástico. Minha primeira noite se consumaria ali, tão distante de casa mas de forma tão prazerosa. E depois da sessão da meia noite de um filme de terror, era algo totalmente inusitado. Entrei na casa da bela morena como um adolescente tímido e saía como um homem.
Que sensação inebriante!! A passos lentos, sorvia o ar gelado da madrugada com a felicidade estampada no rosto. Ao chegar à pensão, suportei a natural chacota dos jogadores e, satisfeito comigo e com o mundo, fui dormir a primeira noite de um homem.
Quanto ao Camarão, formou-se cirurgião-dentista e exerceu com maestria a profissão por mais de 10 anos. Por fim, desencantado com a vida, desistiu de tudo e foi morar isolado em um sítio no interior de Luiz Alves, onde até hoje vive como uma espécie de ermitão. Seu sonho era mesmo ser um grande jogador de futebol.

Memórias de um papa siri
Emerson Ghislandi é jornalista, estudou e trabalhou na Universidade do Vale do Itajaí.
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