Home Colunistas Memórias de um Papa Siri O bailarino pianista e o cruel genocídio de uma civilização – Parte 2

O bailarino pianista e o cruel genocídio de uma civilização – Parte 2

Foram cerca de 30 minutos de uma apaixonada audição. Supremo deleite! Enalteci sobremaneira a sua virtude musical, mas expliquei-lhe que embora eu fosse apaixonado pela música erudita, não seria em um curto espaço de tempo que eu poderia assimilar o difícil aprendizado. E passamos a dialogar expansivamente!
Papo vai, papo vem, alguns drinques de rum com Inca-Cola – sim, não era Coca-Cola, mas uma variação parecida da bebida – e à medida que a noite avançava começaram a chegar vários amigos de Lúcio. Percebi pelos trejeitos que todos eram homossexuais.
Tudo bem, relaxa! Passava da meia noite quando a última visita foi embora. Decidi então, exausto ao extremo, recolher-me e deitei no sofá da sala. Foi quando Lúcio prontamente interveio: – no, no, mi cama, e apontou para uma cama de casal em seu quarto. Eu então retruquei: – no, estoy bien acá, no te preocupes. Mas ele insistia!
Depois de algum tempo de relutância minha e de muita insistência por parte dele, não tive outra saída senão aceitar dividir com ele a confortável cama. Deitados, Lúcio passou a assediar-me, passando a mão em minhas pernas e que tais. Desvencilhei-me das seguidas investidas, dizendo que não, que respeitava a condição sexual dele mas a “mi me gustávan las mujeres.”
Depois de quase uma hora nesse entrevero, eis que repentinamente ele sobe em cima de mim! Não pretendendo travar uma luta de espadachins, o repeli com certa truculência. Mas Lúcio, um tanto embriagado, não desistia! O assédio perdurou por mais algum tempo, quando finalmente ele pegou no sono. Muito cansado, acabei também dormindo.
Após umas três horas de sono acordei, e ainda sobressaltado com o acontecido, levantei sorrateiramente, peguei minha mochila e, sem dizer adeus, saí da residência e ganhei as ruas de Lima.
Depois daquela noite tormentosa resolvi pegar um ônibus que me levaria até a Rodovia Transamericana, que possui nada menos que 48 mil quilômetros de extensão e liga todos os países do continente americano. Começa na Argentina e termina no Panamá. O objetivo era conseguir uma carona até o Equador.
Cheguei à Transamericana no início da manhã e lá já estavam, às margens da rodovia, vários mochileiros que a exemplo de mim caíram na estrada em busca de aventura e conhecimento. Para simplificar: torrei debaixo de um sol escaldante até metade da tarde e nada.
A maioria dos veículos que transitavam por aquela rodovia eram caminhões. Somente ganharam carona algumas garotas que então compartilhavam do grupo de viajantes. Depois fui saber que não era raro caminhoneiros abrirem exceção e deixarem embarcar homens. Mas a intenção não era ser solidário. No meio do itinerário eles simplesmente saqueavam os incautos mochileiros, deixando-os apenas com a roupa do corpo. A minha decepção virou então alívio. Que bom que não consegui carona!
Voltei ao centro de Lima com uma ideia fixa: conhecer Machu Picchu, também descrita como “cidade perdida dos Incas”, a 2400 metros de altitude. Foi construída no século XV mas só descoberta em 1911. A beleza do lugar e a atmosfera misteriosa que o envolvia eram de arrepiar!
Indagava-me como uma preciosidade daquela, de monumental arquitetura e organização exemplar, pôde ser edificada por um povo indígena que viveu numa época de tão escassos recursos técnicos.
Formam Machu Picchu duas grandes áreas: a agrícola, que dispõe de terraços e recintos de armazenagem de alimentos, e outra urbana, que abriga a zona sagrada com seus templos, praças e mausoléus reais.
A excelência e precisão na construção dos prédios, com riquíssimos ornamentos em ouro e pedras preciosas, e o grande número de terraços para agricultura impressionam e revelam a capacidade invulgar daquela sociedade. No meio das montanhas, os templos, casas e cemitérios estão primorosamente distribuídos e organizados, com a abertura de ruas e o aproveitamento do espaço com longas escadarias.
Infelizmente a iluminada civilização Inca foi violentamente extinta pela cruel e sanguinária esquadra espanhola, que não poupou ninguém de sua sanha colonizadora. Nem homens, nem mulheres, nem crianças!

Memórias de um papa siri
Emerson Ghislandi é jornalista, estudou e trabalhou na Universidade do Vale do Itajaí.
Compartilhe: