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De futebol, sorvete e circo

Sou barrosista desde criancinha. Adorava ir aos estádios, ou do Barroso, ou do Marcílio Dias. Especialmente nos domingos de clássico, quando as duas equipes atraíam uma multidão de torcedores. Era uma verdadeira guerra, no bom sentido.
Naqueles tempos não existia toda a violência que presenciamos hoje. E os jogadores não ganhavam fortunas, jogavam mais por amor à camisa. Lembro, no Barroso da década de 60, do Edir Alves, do Mima, do Hélio. E no Marcílio Dias do Edésio, do Sombra, Maneca e Antoninho.
Eu e um amigo não perdíamos um clássico. Aliomar não era muito benquisto na vizinhança pelas traquinagens que fazia. Era mais conhecido por Capetinha. Como podem ver, juntei-me a ele. O espírito de aventura já me perseguia desde a mais tenra idade.
Morávamos na rua Brusque, imediações da então famosa Sorveteria Seára. A fórmula dos deliciosos sorvetes é guardada até hoje a sete chaves. Os bisnetos dos fundadores ainda continuam a fabricá-los e, vez em quando, vou matar a saudade daqueles sabores inconfundíveis na sorveteria que eles mantêm na rua Alberto Werner, perto da Prefeitura Municipal.
Antes de ir aos jogos, eu e Aliomar entrávamos sorrateiramente na sorveteria, onde, na parte dos fundos, a proprietária do prestigiado estabelecimento, dona Erica, passava horas descascando coco para a preparação do sorvete preferido da maioria. Um descuido dela e enchíamos as mãos de pedaços de coco e, felizes, partíamos céleres em direção ao estádio.
Que delícia assistir o jogo comendo aquele coco fresquinho, recém descascado! Aquele burburinho, gritos e palavrões dos torcedores e nós ali, olhos arregalados, apreciando tudo. Assistíamos extasiados o embate no campo e nas arquibancadas. Tudo fervilhava! Tudo se transformava na mais pura emoção! Muito bom!
E era na frente do Seára que ficávamos, carinhas tristes, quando chegava a Itajaí algum circo ou um parque de diversões, que montavam sua estrutura no terreno do Zizo, perto do Hotel Vitória. Os frequentadores da sorveteria, conhecidos que éramos, já adivinhavam que estávamos buscando doações espontâneas para ver os leões, palhaços e trapezistas. Ou recursos para custear as brincadeiras na roda-gigante, chapéu mexicano ou tiro ao alvo.
Ainda me vem à memória a primeira vez que vi um desfile circense, com seus apavorantes leões, tigres e ursos trancafiados em jaulas inexpugnáveis transitando pela rua Brusque.
Hipnotizados, eu e Aliomar fomos seguindo a caravana, pulando e dançando atrás das jaulas. Parecíamos sim dois macaquinhos que pertenciam ao fabuloso mundo do circo. Quando dei por mim, vi que tínhamos exorbitado o nosso espaço habitual. Estávamos seguindo por caminhos desconhecidos. Ou seja: estávamos perdidos e assustados!
Situação horrível, perdidos e ainda ali, no meio de tigres e leões!! As lágrimas começaram, devagarzinho, a rolar. Só fomos reconhecer o nosso habitat quando a caravana, depois de desfilar por diversas ruas, chegou ao seu destino final: o terreno do Zizo. Que alívio!
Aprendemos a lição e, daí em diante, não mais seguimos caravanas de circo. Esperávamos a lona ser montada e, dependendo da arrecadação na frente da Sorveteria Seára, íamos a todas as sessões possíveis.
Clube Náutico Almirante Barroso, Marcílio Dias, circo e parque de diversões. E tinha ainda o pião, a funda, a bolinha de gude, a pandorga e o bilboquê. Tempos que não voltam mais e nostalgicamente nos invadem quando alguma inadvertida fagulha atiça a memória!

Memórias de um papa siri
Emerson Ghislandi é jornalista, estudou e trabalhou na Universidade do Vale do Itajaí.
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