Home Colunistas Memórias de um Papa Siri A ganância e o criminoso extermínio indígena – Parte 1

A ganância e o criminoso extermínio indígena – Parte 1

Manaus,1981. Na aventura que fiz por nove países da América do Sul, de mochila nas costas e pedindo carona, a capital amazônica – tida como a “Paris dos Trópicos” – foi um dos pontos marcantes da viagem.
Ao lá chegar, sentei-me no banco de uma praça onde, de um lado, via-se uma belíssima igreja, do outro, descortinava-se majestoso o Teatro Amazonas, de características barrocas, construído com a dinheirama vertida pelo pujante Ciclo da Borracha, gerando no final do século 19 uma casta de milionários que investiu na obra o que havia de melhor na arquitetura dos países de primeiro mundo.
A execução do projeto contemplou a riqueza dos detalhes e quase todo o material foi trazido da Europa, principalmente da França, país que representava o bom gosto e servia de exemplo para as classes sociais mais abastadas, que de lá traziam roupas, obras de arte, tapeçaria, perfumes e até no comportamento social os brasileiros buscavam espelhar-se nos franceses. Em suma, a França representava o crème de la crème da sofisticação.
E eu, andarilho faminto, sentado no banco da praça, ou Largo de São Sebastião, no centro de Manaus. Era sábado e homens e mulheres em trajes elegantes começaram a sair da igreja, onde naquele momento terminava uma cerimônia de casamento, dirigindo-se todos para um vistoso salão de festas logo ao lado. Não me fiz de rogado e meti-me no meio dos convidados para também usufruir do ágape que seria servido.
Passados alguns minutos, a minha presença começou a ser notada. E não era para menos. Afinal, no meio de tanta gente finamente trajada, estava eu, de camiseta, bermuda, chinelos e ainda com uma mochila nas costas. Pronto – pensei comigo – vou ser escorraçado justamente agora, quando os garçons passam com bandejas e mais bandejas de deliciosos manjares, aguçando ainda mais o meu apetite.
Não demorou muito e o noivo veio até mim, inquirindo-me sobre o que eu estava fazendo ali. Fui sincero, disse que estava viajando a América de carona, com parcos recursos no bolso e vi na festa a oportunidade de matar a fome. Esse noivo certamente terá um lugar especial reservado no céu! Sensibilizado com a história que contei, arranjou-me de pronto uma mesa e, depois de fartar-me, segui meu caminho, saciado de corpo e alma. Bom que ainda existe gente solidária neste mundo.
Acompanhe na edição desta terça-feira a segunda parte desta crônica. Até amanhã!

Memórias de um papa siri
Emerson Ghislandi é jornalista, estudou e trabalhou na Universidade do Vale do Itajaí.
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